Vítor Massao: arte pela garantia de direitos

Ilustrador que emprestou seu talento às conferências do ENJCP tem uma trajetória artística entrelaçada e engajada com a Comunicação para transformar a sociedade

Por Agnes Sofia Guimarães
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As juventudes que participaram do Encontro Nacional de Juventudes, Comunicação e Participação devem ter reparado em ilustrações coloridas e perspicazes sendo feitas em tempo real, diretamente da plateia, em todas as Conferências do evento. Eram os conteúdos de facilitação gráfica do chargista, cartunista e educador comunitário Vítor Massao, especialista na modalidade.

Facilitação gráfica é um modo de registrar um percurso de aprendizagem coletiva realizado em reuniões, cursos, entrevistas e outros eventos em que o grupo está comprometido a pactuar a memória sobre algum tema. É um modo de ilustração que é concebido ao vivo, durante a realização da atividade.

Para Massao, as facilitações são uma forma de contar histórias para mudar o mundo por meio de uma memória social que, muitas vezes, é ignorada pelas grandes páginas da história oficial. 

“Fazer a comunicação de forma coletiva faz eu perceber a importância de escutar os outros, a importância de escutar as outras histórias, as histórias não ditas, as histórias não registradas”, conta. 

Por Massao

Vítor Massao já é um ilustrador conceituado e reconhecido, parceiro de longa data da Viração. Em 2023, ele foi vencedor do Prêmio Vladimir Herzog de melhor Arte, com o cartum “Belicismo & extremismo: a política de militarização do poder”, uma matéria em jornalismo gráfico para o Instituto Update.  

Por Massao

A seguir, ele conta como sempre usou sua arte a serviço da comunicação comunitária – incluindo sua parceria com a Viração, que já é de longa data.

Agnes: O que motivou você a embarcar no mundo da facilitação gráfica?

Bem, na verdade, eu sou formado em design e em artes gráficas. Então, sempre tive um estímulo na questão do visual. Minha mãe é professora de moda, então essa parte sempre me interessou. E sempre tive uma preocupação sobre como o design era usado e tudo mais, foi quando eu caí, ainda jovem, na comunicação comunitária. E na educomunicação, através de projetos como o Cala-Boca já morreu, e da própria revista Viração, que eu cheguei a participar bem no comecinho da Viração.

Por Massao

Depois, durante anos, estive por agências, fui educador, enfim, e sigo sendo parceiro. E meu foco sempre foi dentro da área visual, dos cartazes, jornal mural, mas, acima de tudo, num processo mesmo de garantia de direitos, porque a comunicação é um direito. É uma questão de uma participação política mesmo em cima disso. E fazer comunicação de forma coletiva é que fez muito eu cair na facilitação gráfica de forma natural. Fazer a comunicação de forma coletiva faz eu perceber a importância de escutar os outros, a importância de escutar as outras histórias, as histórias não ditas, as histórias não registradas.

E eu acho que, dentro de um processo do artista, também faz gerar um processo muito interessante, que é a questão da desconstrução do ego.

Quando eu trabalhava no Cidade Escolar Aprendiz, como educador e tal, eu recebi um convite de uma amiga de Brasília, também das artes visuais, super envolvida também politicamente, nos processos das conferências juvenis de meio ambiente, em processos de protagonismo juvenil e tudo mais. E ela tinha feito um curso de facilitação gráfica aqui em São Paulo e ela me convidou para tentar fazer outro junto, e a gente foi fazer um no dia 8 de outubro de 2010.

Nosso primeiro evento foi um encontro sobre a questão de como pensar ações para combater a exploração sexual durante a copa. A gente apanhou muito, fez muita coisa errada, mas foi um sucesso.

Todo mundo gostou muito e a gente viu que tinha um caminho por aí.

E mais do que isso, a gente começou a perceber que fazer esses registros visuais ajudavam, inclusive, nesse processo que eu tinha comentado da questão de legitimar vozes.

E aí entra um ponto importante, porque a gente acaba legitimando a escrita.

E a gente precisa aprender a legitimar outros tipos de expressões, né?

A legitimar a voz, a legitimar a ilustração, o desenho, o visual, a legitimar a dança, né?

Tudo isso conta histórias, né?

E daí vem a importância, assim, apesar de ele ser esteticamente bonito e ter muitas ilustrações, eu sei que isso vem da minha base do design, das artes visuais que eu sempre fui estimulado, mas isso é o produto.

E quando a gente fala de facilitação gráfica, na verdade a gente não tá falando de produto, a gente tá falando de processo.

Agnes: Você pode nos contar então como é sua metodologia de facilitação?
O processo é a escuta. É a escuta do grupo. É a sistematização. Quando a gente tá falando de processo, a gente tá falando das pessoas.Quando a gente tá falando de produto, a gente tá falando da minha visão sobre o diálogo dos outros, e que tá sendo registrado, e daí tá falando sobre mim.Mas a grande riqueza é como você escuta.É perceber que quando uma pessoa conta alguma coisa, se o público fica, de repente, em um silêncio, é porque aquilo tocou de algum modo.É você legitimar não só a voz de quem está falando lá na frente, mas de quem também está comentando.

Por Massao

É você estimular as histórias que os diálogos são possíveis. E é importante lembrar, o nosso pensamento, ele não é linear.Nosso pensamento é conectado.Mas, normalmente, as nossas anotações são lineares.A facilitação gráfica é uma maneira que permite fazer a anotação de forma conectada, através dos mapas mentais. Entender como a gente está conectando aquelas narrações, aquelas histórias e também ligado também às outras pessoas no ambiente e ligado a outros contos e causos que estão lá.

E cada pessoa vai ver isso de modo diferente porque cada um teve uma experiência, uma história de vida diferente. E daí assim, por mais que eu tenha algo que enfatize, eu boto um painel no contexto daquele grupo, uma pessoa quando lê vai ter uma nova interpretação em cima da sua história de vida.

E isso é rico. Isso é muito rico. Existem algumas ferramentas que ajudam nisso, então o próprio mapa mental, o uso de flechas, a criação de um cenário.

Eu fiz um cenário simples, na verdade, onde eu representava cada pessoa que falava, mas isso ajuda a criar unidade e elementos.

E é importante você, na hora de colocar esses elementos, ter clareza do que você traz significado quando você bota elementos diferentes.

Então, esse processo todo passa por isso, passa por essa questão de uma escuta atenta, de uma sistematização de conteúdo, de você a partir disso, criar ferramentas que ajudam a conectar as informações, criando cenários e criando mapas mentais.

E outro elemento muito importante também é perceber a metáfora visual.

Então, você pode fazer desenhos que vão para além do impossível.

Vítor Massao produziu uma série de quatro facilitações gráficas que condensam as discussões das conferências do Encontro Nacional de Juventudes, Comunicação e Participação de forma criativa:

1.O futuro é ancestral

2.Desafios políticos da comunicação contemporânea

3.Participação juvenil e fortalecimento da democracia

4.Comunicação para transformar o mundo

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