Evento demonstrou que a participação popular não é uma ameaça, mas uma oportunidade para construir um futuro coletivo baseado na justiça social e na solidariedade entre os povos.
Ellen de Paula
O G20 Social representa um divisor de águas na história da participação popular nas discussões globais. O marco foi a entrega da Declaração Final da cúpula social ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Ministro das Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul, Ronald Lamola. Este documento reúne as principais propostas da sociedade civil global em torno dos três temas centrais da presidência brasileira do G20: Combate à Fome, à Pobreza e à Desigualdade; Sustentabilidade, Mudanças do Clima e Transição Justa; Reforma da Governança Global. A Declaração Final sintetiza os consensos alcançados pela sociedade civil e serve como guia estratégico para que essas demandas sejam consideradas nas discussões globais. Lula se comprometeu a levar essas recomendações aos demais líderes do G20 e trabalhar com a África do Sul, próximo país a presidir o grupo, para promovê-las.
A cerimônia de encerramento da Cúpula reuniu organizações, movimentos sociais, ativistas, representantes dos grupos de engajamento do G20, ministros, deputados e outras autoridades nacionais e internacionais. Foi um evento marcado por discursos contundentes, como o da coordenadora nacional do MST, Cerres Hadich, que destacou a importância da realização de uma cúpula social antes a reunião de líderes mundiais para fortalecer o processo de democratização da política global e a construção de novos modelos de governança:
“Os desafios propostos ao debate e ação por esse encontro do G20 Social, sobre a liderança do querido presidente Lula, nos aponta um caminho evidente e claro: é preciso um pacto que estabeleça uma nova governança global, focada em interesses comuns e que não permita a imposição de interesses de uma nação sobre a outra”, afirmou.

Em tom de urgência, o Nobel da Paz, política e ativista dos direitos humanos Tawakkol Karman, do Iêmen, fez um apelo por ações concretas para alcançar uma paz global sustentável. Ela ressaltou que isso só será possível com o enfrentamento da crise climática, o fim dos conflitos armados e da desigualdade econômica, e a construção de uma governança global eficiente. Karman enfatizou a necessidade de fortalecer a democracia, garantindo a participação de mulheres, jovens e povos indígenas, enquanto criticava a inércia dos líderes mundiais na implementação de acordos internacionais:
“Nós, o povo, conclamamos os líderes [do G20] que vão se reunir a partir de amanhã. Eles precisam se sentir responsáveis pelo problema que criaram. Eles têm o poder. Eles precisam reagir e o mundo está olhando para os senhores. Os senhores têm que usar o seu poder para curar e não para causar mais dano. Os senhores têm que usar o seu poder para unir e não para dividir. Os senhores têm que usar o seu poder para solucionar problemas e não para criar problemas.”, alertou.

O legado do G20 Social transcende o Brasil
A Cúpula do G20 Social demonstrou que a participação popular não é uma ameaça, mas uma oportunidade para construir um futuro coletivo baseado na justiça social e na solidariedade entre os povos. Ao incluir vozes de diversos setores da sociedade, mostrou que um caminho participativo é essencial para soluções globais mais eficazes.
Reconhecendo esse legado, Ronald Lamola, Ministro das Relações Internacionais da África do Sul — próxima nação a presidir o G20 — destacou o compromisso de seu país em dar continuidade ao processo inovador iniciado pelo Brasil:
“Nós acreditamos que a sociedade civil é um motor vital que conecta os países do G20 todos os dias, e nós nos referimos aos movimentos de base. Aplaudimos o Brasil e a iniciativa tão corajosa de promover essa reunião da sociedade civil e de todos os grupos sociais de todo o Brasil e do mundo. A África do Sul garante que estamos prontos para sediar o G20 em 2025, e vamos envolver os movimentos sociais. O Brasil elevou o padrão e nós queremos garantir que os senhores possam participar e terem um papel na nova forma do mundo.”, disse.
Participação popular como eixo estruturante da nova governança global
Em seu discurso, o presidente Lula reforçou a importância da inédita participação da sociedade civil nas discussões globais, enfatizando que este fórum deve ser o início de um movimento contínuo para pressionar os governos a adotar medidas concretas contra desigualdades, fome, pobreza e mudanças climáticas. Ele também criticou o modelo neoliberal e a exclusão dos países em desenvolvimento dos organismos internacionais, convocando a sociedade civil a se mobilizar por mudanças, como a reforma do Conselho de Segurança da ONU e o aumento do investimento em políticas sociais:
“A presidência brasileira do G20 deixará um legado robusto de realizações, mas ainda há muito por fazer para melhorar a vida das pessoas. Para chegar ao coração dos cidadãos comuns, os governos precisam romper com a dissonância cada vez maior entre a ‘voz dos mercados’ e a ‘voz das ruas’.”
Com o grande feito político do G20 Social, o Brasil desafia os líderes dos países membros a demonstrarem disposição para ouvir, debater e atender às demandas da sociedade civil. Mais que isso, propõe a participação social como um elemento central da governança global.
Agora, caberá à sociedade civil seguir mobilizada para garantir que as propostas construídas por organizações, movimentos sociais, mulheres, populações negras e indígenas, juventudes e outros tantos atores sociais do Brasil e do mundo sejam efetivamente implementadas.