Carta apresentada pelo projeto propõe pactos entre juventudes e mulheres; dados recentes mostram que os dois grupos seguem sub representados na política, reforçando a importância de projetos transversais para as cidades
Por Agnes Sofia Guimarães
Qual é a juventude reconhecida pela política? Como abraçar todas as juventudes por uma cidade com mais justiça social e inclusão produtiva? No ano em que as prefeituras municipais realizam suas eleições, o mês de agosto, instituído pela Organização das Nações Unidas como o mês da Juventude, ganha um contorno especial ao abrir espaço para reflexões sobre o tratamento das políticas públicas para as juventudes, e a importância do aumento da diversidade na política para cidades mais acolhedoras e inclusivas.
No dia 02/08, o MUDE Com Elas promoveu o “Diálogo com Pré-Candidatas – Juventudes”, uma sabatina com pré-candidatas à Câmara Municipal de São Paulo, que apresentaram suas suas propostas voltadas ao público jovem. O evento aconteceu na sede da Ação Educativa, implementadora do projeto.
A mediação do debate foi conduzida por Alicia Oliveira e Stephanie Felicio, jovens negras que fazem parte da Rede Multiatores promovida pelo MUDE com Elas. As pré-candidatas foram Débora Dias do Quilombo Periférico, Ingrid Soares, Keit Lima, Neon Cunha, Simone Nascimento, Vanilda Anunciação.
Na ocasião, as pré-candidatas receberam de Andreia Alves, assessora do MUDE com Elas, uma carta de propostas sobre juventudes para as pré-candidatas às eleições municipais da cidade de São Paulo. O documento destaca as desigualdades marcadas por raça, gênero e idade, sobretudo no mundo do trabalho.
“Para lidar com essas questões é preciso que se construa políticas públicas que lidem com esses marcadores sociais e atuem para melhorar o desenvolvimento profissional das jovens mulheres negras. Contudo, hoje não há políticas públicas em São Paulo que considerem esse recorte. Assim, a Rede Multiatores MUDE com Elas apresenta algumas propostas para uma agenda de promoção de trabalho decente para jovens, em particular as jovens negras.”, diz a apresentação da proposta, lida na ocasião do evento por Andreia.





Marcadores de urgência
Um recente relatório do MUDE com Elas, estruturado a partir de dados da PNAD 2023, mostrou que, considerando jovens negros – na faixa etária entre 18 e 24 anos – apenas 44% das mulheres e 43% dos homens possuem carteira assinada. Ainda sobre os dados PNAD, 33,9% das mulheres negras desempregadas estão à procura de trabalho há 2 anos ou mais, a maior taxa do país.
Jovens e mulheres negras também têm limitações ao direito à representatividade na política. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) destacam que, nas últimas eleições municipais de 2020, apenas 45 cidades entre as 5.568 que elegeram novos representantes tinham maioria de mulheres na composição das câmaras de vereadores, o que representa menos de 1% do total. Levantamento realizado pela Folha de São Paulo, divulgado em agosto, destaca que 3.557 municípios brasileiros, o equivalente a 64% do total, não elegeram nenhuma mulher à prefeitura nos últimos 20 anos.
Os dados reforçam o foco do documento de propostas de pensar em políticas voltadas a jovens mulheres negras, destacando a melhoria das condições de trabalho da juventude paulistana, e o Direito à Cidade – aqui destacado pelo MUDE Com Elas como uma porta de entrada para outros direitos.
“Aqui [o Direito à Cidade] é concebido como um eixo estruturante da intervenção em defesa de um direito humano coletivo de todas as pessoas, das presentes e futuras gerações, de habitar, usar, ocupar, produzir, governar e desfrutar de forma equitativa de cidades justas, inclusivas, seguras, democráticas e ambientalmente responsáveis.”, destaca a carta de Propostas.
As pré-candidatas destacaram o alinhamento de suas propostas com a Carta, e enfatizaram a busca pelo fortalecimento de espaços de participação social para as juventudes, como os Conselhos municipais, e a interlocução entre políticas diversas para o público, que, hoje, funcionam de forma descentralizada em São Paulo.
Jovens presentes na atividade também convidaram as pré-candidatas a pensar sobre a juventude para além do singular. Integrante do Projeto MUDE Com Elas pela Ação Educativa, Allexia Antuona, comentou sobre a necessidade de olhar para outras juventudes, em especial para aquela afetada, principalmente, pelos estigmas em torno do trabalho informal. A experiência de trabalho informal afeta os direitos dos jovens de várias maneiras, refletindo uma realidade de precarização e falta de proteção.
“São juventudes que muitas vezes encontraram na informalidade uma saída porque não tinham outra opção. Muitos saíram da situação de cárcere e não foram aceitos pelo mercado formal, então como falar sobre direitos com essas juventudes? É um exemplo de que precisamos também falar de direitos para quem está fora, para quem não teve segunda chance pelo mercado, e também merece segurança e respeito”, destaca Allexia.
Veja a íntegra das propostas do documento assinado pelo MUDE Com Elas aqui.