Cultura em movimento e as águas que movem a cidade

A estação Vila Sônia, na Linha 4-Amarela do metrô de São Paulo, não foi projetada para abrigar rituais. Mas no dia 27 de março, enquanto o fluxo habitual de passageiros cruzava suas catracas e seus corredores, quatro coletivos de arte transformaram o espaço subterrâneo em palco, arquivo e rio. Era o encerramento do edital Cultura em Movimento – e, para quem parou para ver, algo mais difícil de nomear.

O edital foi concebido e lançado pela co.liga – escola digital gratuita de cultura, tecnologia e economia criativa da Fundação Roberto Marinho – em parceria com o Instituto Motiva e a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI). A iniciativa reuniu doze coletivos de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador em uma jornada de residência artística centrada na investigação entre corpo e espaço público. A formação combinou masterclasses online, cursos de comunicação digital na própria plataforma da co.liga e mentorias presenciais – cada coletivo recebeu uma bolsa-residência de R$8 mil para viabilizar o processo. 

Em São Paulo, a coordenação técnica e pedagógica  ficou a cargo da Viração, organização parceira da rede co.ligada, que apoiou os quatro grupos selecionados ao longo dos meses de formação, mentoria e preparação para as apresentações. Para Ellen de Paula, diretora executiva da Viração à frente do projeto, o trabalho das mentorias e a dedicação dos coletivos foi fundamental para concretizar o que antes eram apenas ideias: “tão bonito quanto o que estamos presenciando hoje aqui na estação é o processo que tornou tudo isso possível: foram muitos dias e horas de trabalho, estudo e criação que cada coletivo dedicou ao projeto. No início, haviam apenas ideias que, aos poucos, com as mentorias, os ensaios e o acompanhamento cênico, foram se transformando em uma experiência estética viva. É essa experiência que chega ao público como fruto do exercício de imaginação política desses jovens artistas que, de forma generosa, se colocam em cena para que a vida seja reinventada, ampliada e vivida com mais liberdade, dignidade e sentido coletivo.”

A coordenadora da co.liga em São Paulo, Bruna Camargo, resume o que significa chegar até aqui: “Ver isso acontecendo dentro da estação do metrô, ver a interação com o público, ver a maturidade das apresentações, deixa o coração bem quentinho. Diz pra gente que a gente está no caminho certo, trabalhando com formação e inclusão produtiva da juventude na economia criativa.”

O rio que a cidade tampou

A Cia Mandingueira abriu a série de apresentações incluíndo uma pergunta que ficou suspensa no ar da estação: “Qual foi a última vez que você molhou seu pé no rio? Qual foi a última vez que vocês tomaram banho de chuva?”

A cena apresentada, “Mãos d’Água”, era um recorte de um processo maior, o espetáculo Acalanto para Mãos Ásperas, que o coletivo vem desenvolvendo desde 2024 e que, com o impulso do edital, deve ganhar forma completa ainda este ano. No palco improvisado da estação, lavadeiras entoavam cantigas à beira de um rio imaginado, lavando roupas enquanto cantavam: “Não lava roupa com meu nome, meu nome não é sabão”; “Amélia é que era mulher de verdade”. Intercalada à performance, uma exibição fotográfica mostrava rios importantes da cidade em outros tempos. Em uma das imagens, uma das atrizes nadava nas águas do Rio Tietê no interior do estado, onde o rio ainda respira.

A ironia geográfica não escapava a quem assistia: o espetáculo sobre rios sufocados acontecia debaixo da terra, onde, literalmente, correm os rios que o progresso cobriu de asfalto. “Progresso para quem? Na sua quebrada, chegou o progresso?”, perguntava a cena.

Para a Cia Mandingueira, apresentar no metrô não era apenas logística, era coerência. “A gente já vem com esse foco de apresentar em lugares não convencionais, para um público que não consegue ir ao teatro, que não consegue pagar o ingresso. O público do dia-a-dia, o público trabalhador, que somos nós também”, explicou o coletivo. “Se eles não conseguem vir até a gente, a gente vai até eles.”

O rio e o desastre

Do rio tampado ao rio que transborda. O Coletivo Trinca trouxe para o metrô o som de alertas de emergência e a memória das enchentes que, em 2024, inundaram cidades inteiras no Rio Grande do Sul.

Erick Flores, um dos integrantes, escolheu a palavra com cuidado antes de começar: refugiados climáticos. Ele e seu parceiro de cena, Kaindè Kainã, vieram do Rio Grande do Sul para São Paulo carregando essa experiência no corpo – e foi dela que nasceu o espetáculo. “Muitas coisas mudaram, muitas transformações nós passamos, e mesmo assim nós tivemos que firmar. Essa firmeza é justamente o que a gente busca – um processo ancestral de firmamento dentro do nosso processo.”

No palco, dois atores: um com chapéu de palha e faixas azuis pelos ombros evocando a água; outro com cocar e faixas pretas, sobre uma calça cor de terra, representando o desastre. Entre eles, um espaço que parecia um rio de lama, com uma serpente pintada no chão e plantas ao redor. Cantaram em Iorubá. Narraram o mito da cobra grande – a serpente colossal que, segundo a cosmologia das águas, habita o fundo dos rios, cria igarapés com seu rastro e assume formas humanas para enganar ribeirinhos. E ao final, ofereceram sementes de girassol ao público, com um convite: plantar um novo futuro.

“O que a gente fez não é só uma performance, é um ritual, é um ritual performado. A gente mostrou como a nossa ancestralidade conversa com a gente, e como os rios estão em contato com a gente, porque as águas estão falando”, disse Erick.

O edital representou para o Trinca não apenas visibilidade, mas sustentabilidade. “A participação no Cultura em Movimento contribuiu para a continuidade do coletivo e para ampliar a visibilidade de narrativas historicamente apagadas”, refletiu Erick Flores.

O rio como arquivo, o corpo como território

Se a Mandingueira perguntou pelos rios perdidos e o Trinca narrou o mito das águas, o Coletivo Olho da Serpente chegou com uma música que listava, um por um, os rios de São Paulo – a maioria deles soterrados sob a cidade que se construiu sobre eles.

A performance atravessou música, rap, moda e fotografia para falar de território, migração, pertencimento e racismo ambiental. O figurino, criado por Naná, designer de moda e representante do coletivo, era ele próprio uma declaração: peças feitas de materiais reciclados, desenvolvidas a partir de pesquisa em reaproveitamento têxtil. “A gente fala sobre como o racismo ambiental tem uma estrutura que atinge certos corpos”, explicou. “Ressignificando essa ideia – pelo fato de ser um coletivo formado por pessoas indígenas – a gente faz esse resgate através da reciclagem, demonstrando que a gente pode trazer outras possibilidades. Uma peça que não é apenas uma roupa, mas uma obra de arte vestida de corpo, que conta uma história.”

Na voz, no improviso e na rima de Sé da Rua e Pyxuá, as músicas falavam de solo sagrado, de fé que tem cara de concreto, do Brasil originário, de força encantada derramada nas calçadas – referência a corpos marginalizados, trans, que vivem ou são mortos nas ruas.

Naná, descreveu o que significou ocupar aquele espaço: “O metrô é um espaço onde as pessoas não estão acostumadas a acessar arte. Para nós foi incrível criar essa troca com o povo que está de travessia por esse espaço, mas que ainda assim conhecerá um pouquinho da nossa história.” O coletivo é formado por pessoas de diferentes territórios da América Latina – Argentina, Brasil – e o espaço público como ponto de encontro é, para eles, uma posição política. “É muito bom poder ocupar esses espaços que geralmente são tirados de nós.”

A mentora do projeto, Joice Jane Teixeira, resumiu o que viu naquele dia: “Vendo aqui nesse espaço do metrô o quanto é político, o quanto é maravilhoso ver corpos diversos na potência do que estão se expressando.”

A estação seguinte: exaustão

O fluxo desembocou no BUNKER Coletivo – e, com eles, o metrô virou outra coisa.

Palhaços circulavam pela estação antes mesmo do espetáculo começar, abordando passageiros com uma pergunta aparentemente inocente: “Sabe como chega na casa da mãe Joana?” Na história, um dos personagens não tinha o dinheiro da passagem e era barrado. O palco exibia imagens que iam se transformando da estação ao vagão, progressivamente mais cyberpunk – luzes vermelhas, pixações, estética futurista. E entre uma cena e outra, o sistema de aviso sonoro do metrô – aquela voz mecânica que ninguém ouve mais – anunciava paradas que a cidade real não tem no mapa: “Próxima estação: exaustão. Desembarque pela indiferença.” “Próxima estação: algoritmo. Saída mais rápida para ansiedade.”

Ao final, a mesma voz pedia: “Não esqueça o senso de comunidade dentro do vagão.”

O BUNKER Coletivo nasceu das periferias de São Paulo e da comunidade Pinheirinho dos Palmares – antiga maior ocupação da América Latina, localizada na cidade de São José dos Campos – como um encontro de artistas: atores, diretores, fotógrafos, produtores que encontraram na arte uma linguagem para nomear o cotidiano. “A gente foi tentando construir essa dramaturgia sobre o cotidiano do metrô, a importância da coletividade para enfrentar essa exaustão que a gente está nessa cidade”, contaram. “A cultura é literalmente um movimento.”

Para o coletivo, o edital foi um divisor de águas – e a escolha das palavras, aqui, não é puramente metafórica. “A iniciativa projetou nacionalmente uma atuação construída em praças, quadras e espaços comunitários, além de validar as tecnologias sociais e artísticas desenvolvidas pelo grupo. Também foi uma oportunidade de apresentar a comunidade de Pinheirinho dos Palmares a partir de sua potência criativa e cultural.”

Arte em movimento, corpos em firmamento

Ao fim do dia, o metrô voltou a ser metrô. Os passageiros retomaram seu fluxo, as catracas giraram, os trens partiram. Mas alguma coisa havia se deslocado.

Em quatro performances, quatro coletivos de jovens artistas – indígenas, negros, trans, migrantes, periféricos, refugiados climáticos – tomaram um espaço que a cidade reserva para o trânsito e fizeram dele um lugar de memória, de rito, de riso, de denúncia e de anúncios. Falaram dos rios que a cidade tampou. Dos corpos que a cidade apaga. Do progresso que não chegou a todo mundo. E lembraram, a quem parou para ouvir, que debaixo do asfalto ainda há água; e que a arte, como os rios, encontra sempre seu caminho.

Texto: Teresa Cristina

Imagens: Thais Namai/Imaginária Criações

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