Comunicar, transformar e transcender – um relato sobre o ENJCP

Um enumerado de palavras que transbordam e refletem emoções, questionamentos, vivências e aprendizados no Encontro Nacional de Juventudes, Comunicação e Participação.

Por Hillary Cerqueira, jovem comunicadora da AJN

Por onde devo começar? Talvez do início, seja um bom começo. Quando eu me inscrevi para participar do Encontro Nacional de Juventudes Comunicação e Participação, eu sabia que se fosse uma das selecionadas, teria a minha forma de enxergar o mundo modificada. E eu esperei ansiosamente por isso. Estava confiante e quando saiu o resultado fiquei muito feliz e orgulhosa porque entre vários comunicadores eu fui escolhida para fazer parte de um projeto com teor revolucionário. Lá fui eu, uma menina baiana de 17 anos, embarcando em uma jornada de uma semana em São Paulo. 

Chegando em São Paulo eu estava receosa, mil perguntas estavam se passando pela minha cabeça e uma delas se repetia constantemente: E se eu não fosse uma mobilizadora boa o bastante para estar ali? Certamente, estaria rodeada de jovens de diferentes regiões do Brasil engajados em causas sociais, políticas e econômicas. Mal sabia eu, que logo teria respostas não só para essa questão em particular, mas para outras que nem sabia serem essenciais para a minha transformação pessoal. O Encontro me puxou da zona de conforto e tirou a venda dos meus olhos para problemas nunca questionados por mim. 

Na conferência de abertura O futuro é ancestral, com a palestrante Txai Suruí e mediação de Paulo Lima, mergulhei na causa indígena. Enquanto a Txai falava “Todos nós somos filhos dessa mesma mãe, independente de língua e cultura. O que nos conecta é o nosso planeta!”. Eu não parava de pensar sobre como estamos tão focados nos nossos próprios problemas que não enxergamos que, mesmo não sendo parte daquela minoria, o nosso questionamento, entendimento e envolvimento pode contribuir com mudanças para aqueles que estão envolvidos diretamente. O resto da população não tem conhecimento da vivência indígena; a maioria das informações conhecidas são só as mostradas pela mídia. O quão verdadeiro aquilo pode ser? Apesar de haver influencers indígenas que mostram um pouco da suas realidades, quantos estão sendo silenciados? É preciso representatividade indígena na política, a Funai e os outros órgãos políticos não podem falar por eles. Demarcação Já! Precisamos olhar para dentro de nós e acolher o sangue indígena que corre em nossas veias, é preciso acolher os nossos ancestrais, os povos originários, aqueles que realmente descobriram essa terra antes mesmo de ser chamada “Terra de Vera Cruz”. No mesmo dia, com as Encruzilhadas Pedagógicas, tivemos a construção do plano de ação e o manifesto da Renajoc (Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores). 

No dia seguinte na conferência Desafios políticos da comunicação contemporânea, com o conferencista Rodrigo Nejm e a medição de Luiza Gianesella, os dados apontados por Rodrigo eram de se preocupar: 88% das crianças possui redes sociais; 2% participou de uma campanha ou protesto on-line; o Brasil é o segundo país em que a população mais utiliza o celular. Muitos vão dizer que é por este motivo que o país não avança, já que os efeitos do uso de celulares tem graves consequências para o cérebro adolescente, como impactos negativos na saúde, comportamento e socialização. Para avançarmos é importante ter regulação na internet. A liberdade plena, ataca os direitos e sem regras não há democracia.

É claramente visível a importância da internet em movimentos sociais pelo seu grande alcance. Contudo, também devemos buscar outras formas de se comunicar. Como Rodrigo disse, é preciso se perguntar como fazer uma dieta digital, sendo comunicador.  A programação do evento estava recheada de Confluências Políticas, neste dia com ênfase na Comunicação Popular, podendo ser escolhida pelos jovens comunicadores a partir dos temas que eles mais se identificavam ou eram de seu objeto de interesse. Optei por acompanhar a atividade da confluência Vozes da favela: resistência, ativismo e justiça social, facilitada por Allan Cunha, Fernando Filho, Juliane Cruz e Renata Eleutério. Nesta confluência conhecemos o CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Guaianás) um projeto de exposição que busca mostrar as perspectivas dos moradores da periferia do extremo leste da cidade de São Paulo na representação da história das cidades, a identidade periférica. As perguntas reflexivas que pairavam no ar daquele encontro: os museus brasileiros contam a história da periferia? As cidades brasileiras são voltadas para o turismo, mas esses pontos turísticos são idealizados para contar a história de quem? Quais versões da ocupação histórica são contadas aos turistas? Alguém precisa mostrar a verdade oculta em cada canto destas cidades. Para fechar o dia com chave de ouro, tivemos a oportunidade de participar dos Ateliês de Educomunicação. Sem hesitar, escolhi o de Escrita Criativa, facilitado por Cauê Maia. O que me surpreendeu  foi que esse ateliê não era voltado para a escrita tradicional, a literatura em sua forma ideológica. Naquele momento, como disse o mediador, a proposta era simples: era escrever o que viesse à mente, sem pensar. Era a arte ilustrativa em sua forma diversificada combinada com a arte em espontaneidade da escrita. 

Já no quarto dia, o mais esperado pela maioria dos jovens ali presente. Especificamente a  conferência Participação juvenil e fortalecimento democrático no Brasil, com a conferencista Érika Hilton e mediação de Ph Veríssima. Em suas belíssimas palavras, a deputada federal ressaltou a importância da participação juvenil em atividades sociais políticas; para se ter mudanças, novas políticas públicas, o problema precisa sair da invisibilidade. O que mais me marcou em sua fala, foi a afirmação de que, para construir uma política democrática e igualitária, é fundamental ter representantes de diversos grupos sociais que lutem por suas perspectivas e vivências. Não se trata de impor que a sua ideologia seja aceita, mas de garantir que as suas diferenças sejam respeitadas e que suas vozes sejam ouvidas. Para promover um diálogo enriquecedor, que desenvolva políticas que realmente atendam às necessidades de todos. Érika realçava que a política está presente em tudo, mas em certos momentos é necessário separá-la de outros âmbitos de poder.

Ao longo desse dia potente, tivemos mais confluências optativas. Dessa vez com enfoque na Política: Ação Coletiva das Juventudes. Como estou engajada no movimento #educastem2030, escolhi à confluência Juventudes, gênero e ciência com facilitação de Tábata Cordeiro, Consultora da Unesco. A querida Tábata mostrou o panorama das profissões nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), dando ênfase na participação de meninas e mulheres. Em sua explicação a professora deixou evidente que esta é uma causa que está sendo bastante discutida pela Unesco. Se quisermos um mundo igualitário, por que não começarmos a fazer reparações históricas? Na sua atividade proposta, sugerimos ações que poderiam romper estigmas ainda impostos pela sociedade e aproximar meninas e mulheres dessas áreas profissionais, majoritariamente ocupadas por homens e antigamente exclusivas a eles. A juventude em busca de mudanças! Por fim, tivemos nossa última aula do ateliê anteriormente escolhido. Não uma continuação, mas sim uma nova forma de aprender e desenvolver novas habilidades. Uma escrita capaz de reconfigurar a percepção dos jovens de toda a sociedade. 

O penúltimo dia, começou com a conferência Comunicação para transformar o mundo, com o conferencista Leonardo Sakamoto e mediação de Gizele Martins. A comunicação, como meio de transformação, aliada às redes midiáticas, tem o poder de transcender causas sociais e alcançar uma dimensão global, se utilizada corretamente. Hoje, temos a facilidade de acessar informações simultaneamente, em questão de segundos, consumindo inúmeros conteúdos. Imagine o impacto que isso pode ter em um movimento social: pessoas de diferentes regiões do Brasil ou até do mundo, unidas em prol de uma causa. A comunicação virtual pode ser uma ferramenta poderosa para promover uma interação social democrática e consolidada, especialmente no cenário político.

Logo após, tivemos as confluências políticas: Agendas Políticas e Sociais das Juventudes. Por estar empenhada na causa de desigualdade de gênero, me interessei pela confluência Igualdade étnico-racial e de gênero como caminho para redução das desigualdades sociais, o qual foi facilitado pela Oxfam Brasil, uma organização brasileira que se mobiliza em prol das desigualdades sociais. Mais justiças, menos desigualdades.

Nas atividades em grupos estabelecemos pontos positivos e negativos dos nossos estados e em conjunto buscamos maneiras de diminuir ou até mesmo erradicar esses problemas pontuados. Foi uma forma de perceber que as nossas dificuldades também são vivenciadas por pessoas de diferentes regiões. Apesar de nossas diferenças, todos estavam ali conectados buscando por mudanças em seus territórios. E através de perspectivas de pessoas de diferentes culturas e costumes, fomos dialogando e construindo possibilidades de ações para combater essas desigualdades.

No final, fiquei com um gostinho de quero mais. Senti o desejo de aprender mais sobre a região em que vivi a minha vida toda, e me via em uma bolha, sem saber da existência de coletivos ativistas que estavam ali atuando, eu estava querendo fazer parte daquilo. Para encerrar mais um dia tivemos a última Encruzilhada Pedagógica, um momento muito especial para mim. Lembra aquela pergunta que fiz no início? Naquele instante eu tinha finalmente a resposta.

Mas antes, deixa eu situar você, leitor. A equipe da viração abriu o microfone para o público, e o que se seguiu foram inúmeros relatos emocionantes. Jovens compartilhando sobre as suas realidades, recitando poemas, cantando músicas. Em meio às lágrimas, eu refletia o que durante todo o encontro eu já tinha percebido. Nesse momento em específico, eu já sabia a minha resposta. E se eu não fosse uma mobilizadora boa o bastante para estar ali? Isso não importava, não mais, pois eu estava ali para aprender, descobrir, ouvir e ser ouvida. Cada um que estava naquele encontro não importava a atuação em seu território, buscava por mudanças, por melhorias. Era isso que importava. Enquanto muitos se acovardam, fecham os olhos e tapam os ouvidos para o que está acontecendo em suas comunidades e vivem confortáveis com essas situações, estávamos ali juntos buscando por algo,  independente da fase em que nos encontrávamos, todos queríamos a mesma coisa. MUDANÇAS. E vamos lutar por isso!

No final, fomos orientados a nos reunir em grupos com diferentes funções, para buscar reativar a Renajoc. E agora, um mês após o encontro, seguimos firmes nessa trajetória. 

No último dia, durante a Mostra Educom, tivemos o lançamento da Revista Viração e a exibição de curtas e documentários. Alguns jovens compartilharam brevemente suas experiências em projetos da Viração ou em parcerias, trazendo um pouco de suas trajetórias. Para encerrar esta jornada incrível, tivemos a conferência de encerramento: Começo, meio, começo, com a conferencista Ana Mumbuca e mediação de Joice Jane Teixeira. Nesta conferência, foi discutida a importância de se manter vivos os costumes dos nossos ancestrais e consolidar movimentos de contracolonização, para que  os costumes e tradições de matrizes africanas sejam vistas como parte da nossa cultura. Somente assim, podemos combater os preconceitos enraizados em nossa sociedade.

Espero que, com minhas palavras, tenha ajudado você, leitor, a compreender melhor o que foi o ENCJP. Participar desse encontro foi uma experiência incrível, e desejo que muitas outras pessoas tenham a oportunidade de vivenciar eventos como este, tornando-se mobilizadores ainda mais eficazes em suas redes. Gostaria de ressaltar que não há espaço para competição: todos devemos nos esforçar para ser comunicadores assertivos em nossas comunidades, pois nosso objetivo é construir um mundo melhor para as futuras gerações. Agradeço por ter lido até aqui.

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