Em entrevista, Marcus Barão, Chair do Y20), e Bruna Belaz, ex-presidente da UNE, destacam como conselhos e espaço de escuta apresentam potências das novas gerações
Agnes Sofia Guimarães e Abigail Pinheiro
Espaços de interlocução política entre poder público e juventudes têm sido mais ampliados nos últimos anos. No Brasil, o Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) é uma plataforma que permite que organizações e ativistas contribuam para a construção de políticas públicas para a camada jovem da população do país.
Durante o G20 Social, a participação das juventudes também foi um ponto de destaque do evento, com sessões da programação autogestionadas que destacaram o trabalho realizado, durante todo o ano, pelo Y20, cúpula jovem do G20 que é responsável por organizar as demandas das juventudes dos países em um Communique, entregue aos maiores líderes mundiais nos dias finais do G20.
No Brasil, os encontros do Y20, durante todo o ano, contribuíram não só para a construção do documento, mas para destacar a pluralidade dos movimentos políticos protagonizados por jovens de diversas realidades do país.
Primeira mulher negra e nortista a presidir a União Nacional dos Estudantes (UNE), Bruna Brelaz é estudante de direito e presidente do Conjuve. Ela presidiu, ao lado de Marcus Barão, Chair do Youth20 (Y20) – Grupo Oficial de Engajamento de Juventude do G20 e Ex-Presidente do Conjuve, uma sessão que apresentou os principais destaques do Communique, que pode ser lido aqui.
Na conversa com a equipe da Viração, Bruna e Marcus comentam sobre a visibilidade que a política das juventudes brasileiras têm conquistado em eventos como o G20 Social.
Viração – Marcus, o que é o Y20?
Marcus Barão – O Y20 tem esse nome porque o Y em inglês significa youth, ou juventude.
E 20 é relacionado ao G20, que é o grupo que reúne as maiores economias do mundo. Então o Y20 é o grupo oficial da juventude, que existe desde 2010, e é um dos grupos de engajamento oficiais da sociedade civil mais antigos e tradicionais do G20. Ele tem o papel de organizar as juventudes e construir espaços sólidos de participação social para fortalecer não só a participação, mas ampliar as vozes das juventudes, apresentando também quais são os seus sonhos, suas reivindicações, seus questionamentos e propostas para as lideranças das maiores economias do mundo.
Viração – Quais estratégias foram adotadas para garantir a diversidade de jovens no Y20, representando diversos países dos membros do G20 e suas realidades?
Marcus Barão – Bom, a participação plural, diversa e popular foi muito importante para a presidência brasileira do G20. Mas para o Y20 é um princípio básico que a gente cumpre nos nossos trabalhos. E eu acho que uma marca nossa na presidência brasileira do Y20 foi justamente ampliar essa participação.
A gente tem delegações de jovens de todos os membros do G20. Hoje nós temos 29 delegações entre os países membros do G20, entre a União Europeia, União Africana e países convidados. Para o G20 Social, nós ainda criamos muitas estratégias para ampliar essa participação.
Então, a primeira delas foi selecionar as delegações por meio de um edital de processo seletivo público. É a primeira vez na história que isso acontece com critérios objetivos de diversidade, de amplitude, e nós tivemos cerca de 50 candidatos por vaga, foi um processo super legal, muita qualidade de gente que se inscreveu.
A gente se orgulha muito da delegação que foi construída. Além disso, a gente adotou uma estratégia de que todos os eventos teriam tradução para português. Por que isso é importante? Porque o idioma oficial do G20 é inglês. Se o idioma oficial do G20 também é inglês, a gente trabalha em inglês. Mas quando a gente traz essa tradução simultânea, mesmo que isso custe caro, é fundamental e importante para garantir que as juventudes brasileiras, que na sua maioria não têm acesso ao ensino de inglês, possam também participar das discussões.
Conversar, mas também ouvir e aprender. Então isso foi super importante.
Viração – Qual legado vocês acreditam que o Y20 que aconteceu aqui no Brasil deixa sobre a participação das juventudes brasileiras na política?
Marcus Barão – Agora acho que a iniciativa que é mais destacada foi o que a gente chamou de diálogos regionais. Nós realizamos, só no Brasil, mais de 30 diálogos regionais em todo o território nacional, em territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos, com a juventude de favelas, juventude da cidade, do campo, diferentes recortes sociais de juventude.Isso é muito importante para a gente escutar as vozes da juventude e conseguir também ampliar essa participação na nossa declaração final.
E aí eu acho que isso, naturalmente, acaba se refletindo nos dois principais espaços do Y20, que foi a nossa pré-cúpula, que aconteceu em Belém do Pará, então nós escolhemos realizar na Amazônia esse encontro. Lá nós tivemos cerca de 1.500 jovens, 700 desses jovens são dos dois estados do Pará, mais 50 municípios.
Nós tivemos 21 estados do Brasil, todos os estados do Norte, todos os estados do Nordeste, e ainda além das delegações jovens do Brasil e dos países devidos, trouxemos também os países da OTCA, que são os países do Tratado de Cooperação da Amazônia, são os países que têm a Amazônia como bioma também.
E na nossa cúpula realizamos, no dia de janeiro, cerca de 2 mil jovens.
Então foi muito legal, muito importante, um grande investimento em espaços de participação social das juventudes brasileiras também.
Viração – Como a juventude pode se tornar agentes de mudança mais efetivos na governança global, considerando os desafios de participação e representação?
Bruna Brelaz – Há duas agendas que eu considero muito importantes: o debate do mercado de trabalho e o debate da justiça climática. A juventude hoje cumpre um papel importante na agenda do desenvolvimento dos seus países. O problema é que existe uma sub qualificação desses jovens, que não estão conseguindo ter acesso a um emprego de qualidade, a um emprego que faça jus a um país que quer se desenvolver.
Então, acho que a agenda do emprego é algo que é central, e no Brasil a gente está com a agenda do fim da escala 6×1, que é conduzida por essa geração de jovens.
E a gente não está alheio às mudanças climáticas. Mas debater mudanças climáticas não é falar só sobre o Sol, ou apenas sobre a Amazônia, é falar sobre todos os biomas brasileiros e como as juventudes do campo e das cidades são afetadas por elas, que é um debate que tem aparecido.
Marcus Barão – Eu acho que realmente a participação e a representação são desafios que enfrentamos sobre as juventudes.
A gente tem uma baixa representação das juventudes nos espaços de negociação e tomada de decisão, nos nos espaços institucionalizados, de localização de anseios. Isso é um desafio, e quando nós temos, muitas vezes, é um espaço que acaba sendo elitizado.
Então eu acho que de um lado existe uma responsabilidade das instituições, dos governos, dos estados, dos organismos internacionais e multilaterais de assumirem um compromisso real com essa participação. Então, a implementação deste compromisso é fundamental.
Agora, do outro lado, eu acho que nós, juventudes, também precisamos nos organizar em torno desses espaços de participação. Começando nos municípios, criando e fortalecendo conselhos municipais de juventude. Nos estados, criando e fortalecendo conselhos estaduais de juventude.
Em nível nacional, no Conselho Nacional da Juventude, participando da Conferência Nacional da Juventude, botando pressão nas câmaras municipais, nas assembléias legislativas, para a criação de comissões, ocupando as redes sociais, se organizando como jovens ativistas, indo para a imprensa.
Eu acho que, a verdade é que, se não for a gente fazendo por nós, quem mais vai fazer?
Então eu acho que isso é muito importante e eu acho realmente que é uma via de mão dupla, um compromisso social que a gente tem que ter. Do lado das juventudes, fortalecer o espaço de participação social, olhando para organização social, formação política e compromisso com a luta como princípio para avançar. Do outro, das instituições, de organizarem mecanismos para potencializar a participação dessa que é a maior geração de jovens da história da humanidade.
Viração – As juventudes do Brasil e dos países membros do G20 estão prontas para liderar a construção de um mundo justo e um planeta sustentável?
Bruna Brelaz – Essa pergunta é muito difícil, mas eu acho que essa geração, por mais que ela seja diversa em seus pensamentos, existe um comprometimento dessa geração em construir uma agenda de desenvolvimento sustentável, uma agenda que preserve o nosso futuro. Porque a gente quer viver, e a gente quer viver bem, respirando um ar de qualidade, viver um emprego de qualidade, viver sem estar à margem de um Estado que ainda ameaça a sobrevivência de uma parcela da população de homens, especificamente a juventude negra, a juventude indígena, no caso do Brasil.
Eu acho que existe um processo de desesperança por parte dessa agenda antiga, desse mundo antigo. E a juventude está vindo aí para fazer um novo debate sobre quais caminhos a gente quer construir, algo que passa desde “macro-agendas”, como a reforma do sistema de governança global, até as agendas da nossa cidade, do nosso bairro.
Temos uma juventude engajada que está ali sobrevivendo, vivendo a luta do seu dia-a-dia, mas que também pode construir uma agenda potente de futuro.

Marcus Barão – Eu tenho convicção de que sim. Na verdade não existe um momento na história da humanidade, ou na história que a gente conheça, que a juventude não tenha sido protagonista das principais revoluções culturais, revoluções políticas, revoluções sociais. As juventudes estavam às ruas, as juventudes são as mais alcançadas pelos conflitos armados, mas também são as que estão envolvidas diretamente pelos conflitos.
As juventudes apresentam inovação, apresentam provocação, questionamento. Eu acho que assim como na história recente do Brasil, para a nossa democracia e para a conquista de direitos das pessoas foram decisivas, mais uma vez eu acho que a gente está preparado. Tem muita coisa para fazer, a gente precisa se organizar melhor, a gente precisa criar mecanismos de formação melhor, mecanismos de participação melhor, mas eu não tenho dúvida que a esperança para o presente futuro de toda a nossa nação, nosso país, passa pelo presente futuro comum das pessoas brasileiras.
Este conteúdo foi produzido durante a cobertura educomunicativa do G20 Social, realizada pela Viração Educomunicação e por jovens participantes da RENAJOC (Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores). Uma realização da Viração Educomunicação com apoio da Fundação Friedrich Ebert no Brasil.