Advocacy para pensar gênero e raça: perspectivas para 2025

Conversamos com Thânisia Cruz e Kamila Machado, da equipe de articulação e advocacy do MUDE com Elas, para entender os desafios e oportunidades para a equidade de gênero neste ano.

–

Nos últimos anos, o debate sobre diversidade e inclusão de gênero e raça no Brasil tem ganhado cada vez mais espaço, impulsionado por movimentos sociais, políticas públicas e iniciativas da sociedade civil. No entanto, apesar dos avanços, os desafios ainda são enormes. A baixa representatividade de mulheres, pessoas negras e indígenas em espaços de decisão, a desigualdade salarial e a dificuldade de implementação efetiva de políticas de equidade são apenas algumas das barreiras que precisam ser superadas.

A frente de Advocacy e Incidência Política do MUDE com Elas busca incidir politicamente para contornar as estruturas de discriminação que prejudicam a inserção de jovens no mercado de trabalho se colocando nos debates sobre políticas públicas e investimentos que importam diretamente à juventude, especialmente as jovens mulheres negras. Para entender melhor esse cenário e discutir estratégias que possam fortalecer essa agenda, conversamos com Thânisia Cruz, Consultora de Articulação Política e Advocacy no MUDE com Elas, e Kamila Machado, Assistente de Articulação Política e Advocacy do MUDE com Elas. Falamos sobre o impacto do Plano de Equidade de Gênero e Raça, lançado pelo Senado Federal, e sobre como diferentes atores — desde organizações da sociedade civil, até empresas e governos — podem contribuir para a construção de um país mais justo e inclusivo.

MUDE com Elas – Quais são os principais desafios e oportunidades que vocês identificam para o advocacy em questões de gênero e raça no Brasil em 2025, considerando as metas estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU?

Thânisia Cruz e Kamila Machado – Nós começamos o ano enfrentando a interpretação corriqueira de que o acesso aos Direitos Humanos é opcional. Portanto, as construções de políticas públicas e de legislações sobre gênero ou raça que concluam, de fato, as metas dos ODS, por exemplo, para a maior participação política de meninas, mulheres e pessoas negras ou indígenas continuam a passar por resistências. Isso se refletiu na nossa eleição municipal de 2024, com apenas 17,9% de mulheres eleitas, segundo o INESC – Instituto de Estudos Socioeconômicos.

Por outro lado, os ganhos atuais são a criação da Câmara Temática para o ODS 18, de Igualdade Étnico-Racial, e o lançamento da Segunda Década Internacional para Afrodescendentes. Então, temos grandes expectativas na articulação política nacional e internacional que possa alavancar o tema e trazer mais responsabilidade para o contexto de organizações públicas e privadas, além da sociedade civil. 

McE – Considerando o lançamento do Plano de Equidade de Gênero e Raça 2024-2025 pelo Senado Federal, quais estratégias de advocacy vocês acreditam serem mais eficazes para garantir que essas iniciativas sejam implementadas de forma efetiva em outras instituições públicas e privadas no Brasil?

O Plano já é transversalizado com as metas dos ODS e a Agenda 2030. No momento, o Executivo, em parceria com o Sistema ONU, também está validando o Programa/Selo Pró-Equidade de Gênero e Raça. Com isso, já é possível perceber o avanço da atuação em coletivo, o que é um desafio para o advocacy.

Como esta agenda faz um chamado para a participação dos setores, temos tranquilidade em dizer que a nossa estratégia será acompanhar também a atuação do Ministério da Igualdade Racial (MIR), Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), Tribunal de Contas da União (TCU) e Ministério das Mulheres – que estão construindo atividades similares para a implementação das ações citadas no Plano de Equidade de Gênero e Raça do Senado.

McE – Como organizações da sociedade civil, empresas e iniciativas como o MUDE com Elas podem utilizar ferramentas de advocacy para incidir nos debates sobre equidade de gênero e raça? 


O advocacy é aberto a qualquer pessoa interessada em acompanhar ou até mesmo dar sugestões sobre o encaminhamento de políticas públicas e legislações. Compreendemos que o vocabulário e também as práticas precisam ser mais acessíveis.

No entanto, as empresas podem se engajar aderindo a planos, metas e políticas internas que tornem sua governança mais aberta a mulheres, pessoas negras e indígenas em espaços de decisão. No caso das iniciativas da sociedade civil, o papel é fazer frente às denúncias e colaborar com a construção de audiências públicas, frentes parlamentares ou mesmo ações que virão, como a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver 2025.

McE – Quais os debates e discussões que a rede multiatores vai acompanhar em 2025 a partir do advocacy?


Em 2025, queremos acompanhar quais são as ferramentas que os órgãos públicos e as empresas possuem para lidar com denúncias de violências de raça e gênero nos ambientes de trabalho, além de nos aproximar do que está em desdobramento do Projeto de Lei 3812/23 – Programa Federal de Apoio à Educação Popular, do Trabalho cooperado, do Plano Nacional de Juventude e Plano Nacional Juventude Negra Viva; bem como outros programas voltados para juventude que estão, especialmente, no Ministério da Educação, no Ministério de Igualdade Racial e Ministério do Trabalho e Emprego.

–

Thânisia Cruz é Consultora de Articulação Política e Advocacy – educadora com oito anos de experiência. Mestre em Políticas Públicas Educacionais (UnB). Prestou consultoria para diferentes projetos e agências, foi professora na rede pública de ensino brasileira e francesa, atuou com políticas públicas e tem experiência em mobilização social de juventudes em eventos comunitários.

Kamila Machado é Assistente de Articulação Política e Advocacy – graduanda em Ciência Política pela Universidade de Brasília, com foco em temas de raça e sustentabilidade. Atuou como consultora, é Analista de Operações I na Pulso Público e concluiu o curso “Advocacy Hub – Participação Social Efetiva para ONGs, Movimentos e Coletivos”.

Fonte:

Compartilhe:
Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *