Viração Educomunicação: 20 anos de mobilização e transformação com as juventudes

Por Ramona Azevedo, analista de comunicação da Viração

A Viração Educomunicação celebra duas décadas em 2023. Nossa trajetória vem sendo construída com esperança, criatividade e muita determinação. Acreditamos na importância da voz ativa da juventude na sociedade e nosso foco está em apoiar o protagonismo de meninas, meninos e menines, oferecendo espaços formativos e de diálogo aberto onde possam compartilhar suas experiências e refletir em conjunto sobre questões sociais, direitos humanos e participação cidadã.

Origens e inspiração

Paulo Lima, o sonhalista, diretamente de Lagamar, uma favela em Fortaleza, vivenciou em primeira pessoa os desafios de ser um homem negro em uma sociedade onde a representação, voz e direitos muitas vezes são negados, ao perceber que a mídia tradicional e o sistema educacional frequentemente falhavam em retratar e lidar com as realidades vividas pelos jovens. Esta carência de espaços para que a juventude expressasse suas opiniões e visões se somou à inspiração paulofreiriana e se tornou a semente que gerou a Viração.

A partir daí, o objetivo foi reunir outros profissionais, ativistas e jovens para criar um produto jornalístico que ultrapassasse o entretenimento, comum em produtos midiáticos pensados para a juventude no começo dos anos 2000, e que dialogasse sobre temas importantes a partir do olhar de adolescentes e jovens. Um canal para jovens narrarem suas histórias, discutirem questões sociais e compartilharem perspectivas, que convidasse outros jovens a uma reflexão crítica, trazendo também uma multiplicidade de olhares: regional, indigena, quilombola, do campo e da cidade.

Esta motivação profissional e ao mesmo tempo profundamente pessoal, culminou na Revista Viração, um projeto social impresso dedicado a retratar um outro Brasil, informando e empoderando a juventude para o exercício do direito à comunicação. Um reflexo real da sociedade civil organizada, com uma escolha política clara: estar ao lado de crianças, adolescentes e jovens.

Desafios, resiliência e triunfos

Desde o início, a Viração enfrentou desafios significativos: desde visões sociais restritivas sobre a juventude até limitações tecnológicas, passando pela hesitação de potenciais financiadores em apoiar uma iniciativa tão inovadora e até então inédita em estilo e formato. Além disso, teve que lidar com situações extremamente delicadas, incluindo ameaças e situações trágicas envolvendo jovens integrantes da equipe que construía a revista. Apesar dos percalços, foi possível criar uma rede nacional de adolescentes e jovens para uma participação ativa e afetiva.

Esses momentos difíceis só reforçaram a determinação da organização em permanecer fiel aos seus valores, rejeitando qualquer apoio que pudesse comprometer sua missão e independência. A determinação de Paulo e sua equipe, aliada à abordagem participativa e colaborativa, permitiu que o projeto superasse as adversidades e se tornasse uma referência no campo da educomunicação no Brasil.

A Viração também se destaca, em programas e projetos, por sua postura política e social. A opção por um caminho de engajamento político ao lado de jovens marginalizados, criando espaços seguros para que possam se expressar, desafiar e atuar para mudar as narrativas dominantes, diverge do tradicional esperado para uma organização do terceiro setor. Com a colaboração de educadores, sociólogos e jornalistas, a Viração sempre priorizou a comunicação e a participação ativa dos jovens e de seus profissionais, a partir de uma estrutura de trabalho colaborativa e horizontal focada na inclusão e na transformação social.

O Legado da Viração

Ao longo dos anos, a Viração não só capacitou inúmeros jovens, mas também influenciou a criação de diversas outras entidades com objetivos semelhantes.

Na entrevista que deu origem a esse texto, Paulo Lima ressaltou a importância da inovação e da adaptação contínua, enfatizando a construção de um ambiente de apoio contínuo dentro da organização, onde todos se sintam encorajados a trazer novas ideias e soluções. A metodologia de trabalho da Viração se apoia e incentiva, desde 2003, abordagens inovadoras que se adaptem às necessidades de adolescentes e jovens, respondendo de forma ágil às suas multiplicidades e contribuindo para que encontrem seu lugar no mundo. Com esse apoio e encorajamento, a juventude que alcançamos ganha coragem e determinação para se expressar e assumir o controle de suas vidas. Essa flexibilidade e dedicação valeram à Viração mais de 20 prêmios e reconhecimentos nessas duas décadas de existência.

Hoje, a Viração Educomunicação é mais do que apenas uma organização. É um movimento que busca contribuir para regenerar a democracia no Brasil, promovendo a mobilização social e a participação cidadã de jovens em questões críticas, como direitos ambientais e reprodutivos.

Reflexões e Perspectivas

A trajetória da Viração reflete a evolução das tecnologias de comunicação em nosso tempo, e se consolida como um espaço onde a Educomunicação está presente em todos os processos, valorizando a diversidade das pessoas e de saberes, a representação e consciência crítica em suas ações, especialmente ao enfrentar o desafio de mobilizar movimentos sociais em um cenário político complexo.

Olhando para o futuro, ao alcançar 20 anos de história, renovamos a esperança nas juventudes e o desejo de que a Viração continue prosperando, com foco renovado na mobilização para a participação juvenil e no fortalecimento da mídia independente, no Brasil e em outros países, especialmente na Itália e na América Latina, e África.

Celebrando vinte anos de dedicação e impacto, a Viração busca reverenciar e revisitar seu passado, entendendo seu momento presente como reflexo de todos os movimentos, ideias e pessoas que estiveram envolvidas em projetos e programas, e se volta para o futuro com sua missão renovada, reconhecendo a necessidade de constante transformação e busca por soluções criativas.

Reiteramos nosso compromisso inabalável de mobilizar a juventude e aspirar por uma sociedade mais equitativa e inclusiva. A jornada da Viração até agora é uma prova viva do potencial transformador de adolescentes e jovens quando empoderados das ferramentas certas e alimentados de consciência crítica. À medida que avançamos para a terceira década da Viração, ela permanece como um farol de inspiração para todos que valorizam a força da Educomunicação, da comunicação popular e da educação como meios de mudança social. Conforme sublinhado por Paulo Lima, o poder transformador da comunicação e a capacitação dos jovens serão sempre os pilares centrais da Viração.

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