MUDE com Elas propõe fortalecer rede para a luta pela inclusão produtiva de jovens mulheres negras

Evento de planejamento 2025 buscou propor estratégias que evidenciem que o combate às desigualdades no mundo do trabalho é uma responsabilidade coletiva e sustentada por empresas, governo e sociedade civil, a partir e pela escuta de juventudes negras

Por Agnes Sofia Guimarães

A inclusão produtiva é um tema que não pode faltar quando pensamos nas lutas pelo acesso a direitos que a população negra realiza diariamente, uma reflexão que se acentua todo mês de novembro, marcado pela celebração da Consciência Negra, no dia 20. Quando pensamos no recorte de raça e gênero, mulheres negras são as que enfrentam o maior desafio de acesso ao emprego: segundo o Instituto de Economia Aplicada (Ipea), apenas 52% da população negra feminina acessa o mercado. 

No último dia 16 de outubro, aconteceu a reunião de planejamento do MUDE com Elas na sede da Ação Educativa, em São Paulo. Marcada pela articulação entre organizações ligadas a governos de diversas instâncias (governo federal, municipal e estadual), o evento reuniu organizações que promovem a luta por direitos humanos, e jovens ativistas, em especial a turma de jovens mulheres negras que estão na turma de formação política de Jovens Ativistas.

O objetivo do planejamento foi definir a implementação do projeto, detalhando as principais ações necessárias para o desenvolvimento de produtos e indicadores para a integração das empresas e dos atores governamentais para o ano de 2025.

A inclusão produtiva de jovens mulheres negras é um tema que passa por diversas desigualdades enfrentadas pela população negra e feminina durante a juventude, mas impactam outras fases de vida: mesmo quando estão empregadas, 21,2% das mulheres negras ocupadas não conseguem contribuir para o INSS, o que as distancia de uma velhice digna. 

A falta de acesso ao trabalho digno para jovens mulheres também afeta outras camadas da população negra, em especial filhos e maridos que muitas vezes dependem da força econômica das mulheres e da sua dupla jornada com o cuidado da casa. De acordo com levantamento feito pela Gênero e Número, tendo como base informações do IBGE, no Brasil, mais da metade das famílias chefiadas por mulheres negras enfrenta algum nível de insegurança alimentar. Ao todo, 51% das famílias chefiadas por mulheres negras sofrem insegurança alimentar (31% leve, 12% moderada e 7% grave).

O cruzamento do tema com o combate a diversas desigualdades surgiu durante o planejamento, a partir de uma abordagem que também reconhecia a importância de um olhar sistêmico. Durante a programação, foram realizados debates em torno dos espaços de governança que orientam as ações do MUDE Com Elas: GT Diálogo com Empresas(dedicado a articulação com o mercado corporativo), GT Participação de jovens negras(dedicado à escuta ativa de mulheres negras), GT Incidência Política (que articula ações para promover a inclusão produtiva em diálogo com o poder público) e GT Observatório  (focado em monitorar pesquisas e ações focados no combate às desigualdades). 

Apresentação das discussões sobre os GTs do MUDE com Elas.

A falta de acesso ao trabalho digno para jovens mulheres também afeta outras camadas da população negra, em especial filhos e maridos que muitas vezes dependem da força econômica das mulheres e da sua dupla jornada com o cuidado da casa. De acordo com levantamento feito pela Gênero e Número, tendo como base informações do IBGE, no Brasil, mais da metade das famílias chefiadas por mulheres negras enfrenta algum nível de insegurança alimentar. Ao todo, 51% das famílias chefiadas por mulheres negras sofrem insegurança alimentar (31% leve, 12% moderada e 7% grave).

Diante de um desafio que cruza diversas fronteiras, o MUDE com Elas tem construído uma rede de multiatores, marcada pela articulação entre organizações ligadas a governos de diversas instâncias (governo federal, municipal e estadual), organizações que promovem a luta por direitos humanos, e jovens ativistas, em especial a turma de jovens mulheres negras que estão na turma de formação política de Jovens Ativistas. 

A articulação em redes é uma oportunidade de parcerias que pactuam o compartilhamento de responsabilidades. É o que acredita Ana Natalina Lourenço, chefe de assessoria de participação social e diversidade do Ministério do Trabalho e Emprego, e que também faz parte da rede. 

“Na construção em rede, você pensa na responsabilização de diversos parceiros que estão em diversos lugares, que ocupam outros espaços. No Ministério do Trabalho, por exemplo, atuamos em projetos com empresas que agora trabalham com  responsabilidade social de governança. Ao trabalhar com elas, também implica que vamos trazê-las para a rede para atuarem ao nosso lado aqui também.”, comenta.

A escuta para a melhor promoção de direitos

As entidades que integram a rede MUDE com Elas partem do mesmo princípio: de que é  fundamental que as políticas e ações voltadas para a inclusão das mulheres negras no mercado de trabalho considerem suas realidades e experiências. Nas conversas que foram construídas na reunião de planejamento, destacou-se a importância do protagonismo das mulheres negras nas discussões sobre suas condições de trabalho e direitos.

A bióloga Maria José Menezes, conhecida como Zezé, fundadora da Marcha das Mulheres Negras e integrante do Coletivo Mahin, esteve presente no primeiro encontro da rede, e alertou que, mesmo quando conseguem se inserir em grandes corporações, muitas mulheres negras não têm a possibilidade de progredir em suas carreiras. Isso gera frustração e uma sensação de estagnação, evidenciando uma forma sutil de racismo que perpetua a opressão.

“Nessas empresas, fazemos relatos importantes de mulheres que foram para o sistema, que foram incorporadas em grandes corporações e essas mulheres não tiveram a possibilidade de progredir nesses espaços.”, alerta Zezé. “Então você tem ainda também uma dissimulação desse sistema que finge que incorpora as pessoas negras, mas que as deixam estagnadas e causam frustrações e atuações negras.”, completa

Para garantir a escuta ativa, jovens mulheres negras da formação de jovens ativistas também estão compondo a rede. A multiartista Luanne Isabelly Santana Santos, conhecida como Deusa Negra, acredita que é fundamental que ela e as demais jovens não sejam reconhecidas apenas como aprendizes, mas como mulheres que também podem compartilhar saberes que já acumulam a partir de suas trajetórias nos ativismos. 

Brena Rodrigues dos Santos reflete: “Eu acho que a principal expectativa que a gente tem enquanto jovens ativistas é trazer a experiência que nós temos nos coletivos e das experiências da conjuntura nacional para o mundo com elas e para a rede também.”

Ao final do encontro, cada Grupo de Trabalho apresentou propostas para a sistematização da rede, que agora vão ser reunidas em um documento de diretrizes para as organizações que fazem parte da MUDE com Elas, que será um referencial para a implementação das próximas etapas do projeto.

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