Fronteiras invisíveis: A juventude lusófona conectada pela Educomunicação

Uma formação on-line reuniu jovens de nove países em torno da comunicação, da cidadania e do meio ambiente

Por Rhafaela Resende, jornalista e educomunicadora e Unilson Mangini, educomunicador

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O ciclo formativo começou com uma apresentação descontraída de nós facilitadores: “Bom dia, boa tarde, boa noite! Eu sou Rhafaela Resende, podem me chamar de Rhafa. Sou jornalista, com especialização em Educomunicação. Atuo na área de Comunicação da Viração Educomunicação e sou mentora (e mão na massa) na Agência Jovem de Notícias – AJN”

“E eu sou Unilson, podem me chamar de Uni, gosto de gatos, sou meio nerd e educomunicador da Viração!” 

As fronteiras estão cada vez mais próximas. Trocas culturais, antes limitadas pelo espaço físico, hoje com a internet proporcionam uma interação dinâmica e genuína – por memes, piadas e história, ou mesmo por experiências mais elaboradas, via videochamadas. 

Este foi o caminho trilhado pela formação em Educomunicação da Agência Jovem de Notícias, realizada para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Quatro encontros, milagrosamente conciliados entre tantos fusos horários distintos. Enquanto no Brasil começávamos às 8h, no Timor-Leste, os participantes entravam 20h. Na Guiné-Equatorial e em Angola, era meio dia. 

Imagem criada com fotos de alguns participantes do Ciclo Formativo AJN CPLP

Essa capacidade de superar distâncias digitais foi essencial para a realização do ciclo formativo promovido pela AJN, que reuniu jovens de nove países da CPLP em quatro encontros on-line dedicados à educomunicação e ao meio ambiente. Mesmo com tantos sotaques e fusos, os encontros aconteceram de forma fluida e agregadora, com níveis de saberes diferentes, contribuindo para o aprendizado um do outro. Contaremos um pouco sobre essa experiência de troca e encontros temáticos: cobertura educomunicativa, textos jornalísticos, criação de vídeo e áudio e podcast.

A formação foi fruto de anos de trabalho articulado por Paulo Lima, Diretor Executivo da Viração, em colaboração com a Associação Portuguesa de Educação Ambiental (Aspea) e com a Rede Lusófona de Educação Ambiental, que atua nos países membros da CPLP.

Perguntado sobre a motivação para idealizar o ciclo, Paulo Lima destaca o desejo de fortalecer a presença africana na Agência Jovem de Notícias: “A ideia sempre foi ter a África mais presente na AJN e oferecer aos parceiros africanos a possibilidade de criarmos juntos núcleos da Agência em seus países. Além de fortalecer sua participação nas coberturas educomunicativas das COPs.”

A formação também fez parte da ação “Conexão Jovem CPLP”, promovida pela ASPEA no âmbito do projeto de inovação “Ambiente+”, durante o Ano da Juventude e Sustentabilidade da CPLP. Como explica Braima Bari, coordenador do projeto: “A ideia surgiu da escuta dos jovens líderes da rede AJN-CPLP e da identificação de lacunas na capacitação juvenil para participação em processos de justiça climática. Assim, o Ciclo Formativo foi concebido como um espaço estratégico para ampliar a atuação desses jovens”.
Com surpreendentes 250 inscritos, as formações on-line começaram no primeiro fim de semana de fevereiro, cercadas por grandes expectativas — não apenas quanto às técnicas de produção jornalística, mas principalmente quanto à potente troca cultural e de saberes. Reuniram-se participantes de três continentes, distribuídos em nove países: Brasil, Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Angola, Guiné Equatorial e Timor-Leste.

A mobilização foi conduzida por uma estratégia multicanal com forte atuação da ASPEA e da REDELUSO. “Utilizamos redes sociais, grupos de WhatsApp, e-mails institucionais e articulação com redes juvenis da CPLP. Isso garantiu a representatividade e também salas virtuais sempre cheias”, conta Braima Bari.

Os encontros

Com o foco em trazer recursos para que os participantes possam fazer boas coberturas sobre pautas climáticas, escolhemos iniciar com o tema Cobertura Educomunicativa, e nos baseamos em experiências da AJN, com exemplos da cobertura de eventos como a Perifacon, de São Paulo, e da RENAJOC, com o G20 Social, no Rio de Janeiro. 

No primeiro encontro, apresentamos o que é a Educomunicação como uma tecnologia de mobilização social. Além disso, começamos a desenvolver os processos necessários para realizar uma cobertura. Nosso objetivo foi situar os jovens quanto à organização desse tipo de atividade, abordando a produção de pauta, a identificação de insights e os possíveis processos criativos — temas que foram aprofundados nos encontros seguintes.

Slide 15 do material de suporte referente à primeira formação, sobre Cobertura Educomunicativa

Trouxemos como atividade relacionada ao primeiro encontro um ‘ligue os pontos’ com eventos de diversos países da CPLP para serem conectados à linguagens de comunicação e propostas de abordagem. A criatividade das propostas nos animou a trazer novos desafios ao grupo. A atividade convidou os participantes a conhecer manifestações artísticas e culturais diferentes, além da COP (Conferência das Partes) como pauta ambiental.

Na segunda formação o foco foi na produção de diferentes gêneros textuais, abordando principalmente Release, Artigo e Entrevista. Além de um espaço dedicado a entender o que é o Jornalismo e os processos da produção jornalística –  tudo com muitos exemplos, análises e trocas entre os participantes. A proposta de atividade complementar desse encontro foi escolher um gênero textual  e elaborar uma pauta com a temática meio ambiente. 

Como criar conteúdos em vídeo [Pré-produção, Produção e Pós-produção], foi o tema do terceiro encontro, com foco no desenvolvimento do cronograma de gravação e as várias camadas que envolvem os processos de produção. A atividade foi escolher um formato audiovisual e planejar a captação e gravação.  

No último encontro, falamos sobre o universo fantástico do Áudio e Podcast, uma tendência crescente na comunicação. A formação contou com dicas práticas, processos de preparação, exemplos, ferramentas úteis, entre outros. Na atividade final, os participantes precisavam finalizar um roteiro e, quem sabe, gravá-lo.

A ideia era que a experiência síncrona desse base para a produção assíncrona, referente ao tema da semana. Esse formato nos permitiu observar um movimento significativo: da compreensão do saber à prática, resultando no empoderamento dos participantes enquanto sujeitos sociais, produtores e criadores de suas próprias pautas.

Sivilina Managem, estagiária na Embaixada da República Democrática de São Tomé e Príncipe em Lisboa, Portugal, conta sobre o que viveu nas oficinas:

“Durante as formações minha experiência foi boa e profícua, pude partilhar conhecimentos, interagir com formadores e colegas de formação. Ao realizar as atividades, deparei-me com desafios que consegui ultrapassar com ajuda dos formadores e a minha dedicação. O que me chamou a atenção foi a disposição do Unilson e Rhafaela. Sempre estiveram atentos aos detalhes e as dúvidas dos formandos, que eram esclarecidas ou no momento da formação ou nos dias seguintes.”

A formação foi parte de um processo maior de fortalecimento da rede AJN-CPLP. “As oficinas foram centradas no desenvolvimento de competências em liderança ambiental e educomunicação climática. Com o objetivo de integrar jovens ao corpo de repórteres da rede e ampliar a produção de conteúdos críticos sobre as alterações climáticas no espaço lusófono”, conclui Braima.

Presença africana e histórico de atuação

A Viração já tem história com o continente africano. Em 2010, promoveu um workshop em Burkina Faso que resultou na criação da EducommunicAfrik — um exemplo de como a educomunicação pode gerar raízes duradouras em novos territórios.

O atual ciclo formativo foi pensado para transcender a territorialidade. A partir da troca de saberes, ofereceu formação básica em comunicação e capacitou novos jovens correspondentes internacionais da AJN. A missão é clara: difundir informações produzidas por jovens, para jovens, em diversos idiomas e contextos.

“A educomunicação não tem fronteiras. Ela é fundamental para percursos de educação para a cidadania global e planetária, além de ampliar repertórios inter e transculturais. Neste contexto, pode transformar a AJN em um lindo espaço de compartilhamento de vozes, vivências e soluções para desafios comuns das várias Áfricas — como a crise climática, as desigualdades sociais e os direitos humanos. Por meio da participação de jovens africanos como colaboradores da AJN, poderemos seguir rompendo barreiras geográficas e culturais por meio da escuta, da colaboração e da valorização da diversidade”, ressalta Paulo Lima.

A diversidade como força criativa

Apesar da língua portuguesa como elo comum, a diversidade de sotaques e pronúncias era evidente, assim como as diferentes formas de expressão — todas refletindo a riqueza cultural de seus países. Essa diversidade foi também uma grande força: a sinergia entre os participantes e suas experiências em comunicação social elevou a qualidade dos diálogos e das produções criativas.

Outro ponto fundamental foi a forte presença da pauta ambiental, que permeou todas as atividades — desde exemplos e explicações até nas sugestões de pautas e materiais apresentados pelos participantes. Eles trouxeram contribuições baseadas em seus contextos territoriais, fruto das atividades complementares desenvolvidas a cada encontro.

Resultados do Ciclo Formativo AJN-CPLP

  • 226 jovens inscritos de 9 países
  • 70 participantes certificados
  • 33 selecionados como correspondentes da AJN CPLP
  • 4 encontros online com atividades práticas
  • +10 conteúdos já em produção para o site da AJN-CPLP

Ao final do ciclo, os jovens receberam certificados, carteirinhas de correspondentes internacionais e acesso a um acervo de apoio, além das aulas gravadas para consulta, consolidando o aprendizado. Esses novos e novas jovens comunicadores  já estão aptos a dar os primeiros passos em suas produções: artigos de opinião, reportagens, entrevistas, vídeos, podcasts, programas de rádio, coberturas de eventos ou relatos de atividades educacionais. 

A expectativa é que cada correspondente publique, em média, um conteúdo por mês — fortalecendo a proposta original da AJN de ampliar o alcance das vozes de jovens comunicadores, promovendo o encontro entre elas e o diálogo em torno de temas relevantes para a juventude e para a sociedade.

Como avalia Braima: “Espera-se que os resultados se tornem ainda mais visíveis, por meio dos trabalhos que serão desenvolvidos em suas comunidades e divulgados no site da AJN-CPLP”.

Rebela Botes, coordenadora de projetos ambientais na Associação Nação Verde em Angola, conta o que chamou sua atenção ao participar da formação: “Gostei especialmente da metodologia interativa, que permitiu um verdadeiro diálogo entre participantes de diferentes países. As atividades práticas também foram inspiradoras e desafiadoras, sobretudo por nos levarem a aplicar o conhecimento na realidade dos nossos territórios. O  padlet também ajudou bastante.” E continua contando sobre o convite de integrar a AJN: “Foi uma grande honra e uma alegria imensa. Senti que o trabalho que venho desenvolvendo pode ser visto por outras pessoas e comunidades. Fazer parte da AJN como correspondente amplia a minha responsabilidade, mas também o meu compromisso em ser uma ponte entre a juventude angolana e as agendas globais.”

O Padlet foi o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) utilizado no Ciclo Formativo.


Entre as muitas potências da educomunicação, destaca-se especialmente a riqueza da troca dialógica. O Ciclo Formativo CPLP-AJN foi mais do que um curso. Foi um espaço de escuta, afeto e construção coletiva, onde jovens de diferentes origens se conectaram por meio da linguagem, da colaboração e da vontade de transformar seus territórios. A distância geográfica foi superada pelo desejo comum de se comunicar com propósito.

Sem dúvidas, foi um processo desafiador. Mas também profundamente recompensador, especialmente pelo retorno caloroso e engajado dos jovens que agora integram essa rede global de comunicadores.“O ciclo formativo me proporcionou novas ferramentas, contatos e uma visão mais ampla sobre o papel da juventude na construção de sociedades sustentáveis. Além disso, abriu portas para uma atuação mais articulada com outras organizações e redes da CPLP. Sinto-me mais preparada e motivada para continuar a promover mudanças concretas no meu país e a contribuir para a agenda ambiental e de juventude a nível regional.” Assim avalia a participante Rebela.

Este ciclo formativo mostrou que, mesmo separados por oceanos e dialetos, os jovens da lusofonia têm muito a dizer — e ainda mais a construir. Que venham mais encontros, mais vozes e mais pontes!

Fonte:

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Respostas de 2

  1. Gostaria de expressar a minha profunda gratidão pela menção na matéria recentemente publicada. Foi uma honra imensa ter o meu testemunho partilhado.

    A formação foi, de facto, uma experiência marcante. A metodologia interativa permitiu um verdadeiro diálogo entre participantes de diferentes países, e as atividades práticas desafiaram-me a aplicar o conhecimento na realidade do nosso território. O uso do padlet foi também uma ferramenta muito útil e facilitadora.
    Sigo motivada e com o coração cheio de gratidão, pronta para continuar este caminho de aprendizagem, partilha e transformação.

  2. É com grande orgulho, que ficamos a saber sobre esta formação e partilho a nossa satisfação em saber que a nossa colega Rebela Botes, coordenadora de projectos ambientais da Nação Verde, vem demosntrado com o seu trabalho, e essa matéria que destaca o seu percurso e contributo inspirador.

    Ver uma jovem da nossa equipa reconhecida internacionalmente, assumindo o papel de correspondente da AJN, é sinal claro de que estamos a formar líderes comprometidos com a transformação das suas comunidades e com as agendas globais.

    Parabéns, Rebela! A tua dedicação honra a missão da Nação Verde e inspira-nos a continuar a semear mudança.

    Nuno Cruz, Presidente da Associação Nação Verde

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