Duas décadas de muito mais que uma revista

Em 20 anos, a Revista Viração acompanhou as transformações na cultura digital e da política, ampliando e desdobrando-se em novos processos de participação e produtos de educomunicação

Por Bruno Ferreira, Vice-presidente da Viração Educomunicação

Há 20 anos, o mundo ainda engatinhava e se deslumbrava com as possibilidades que a internet nos oferecia de nos comunicarmos com pessoas diferentes. A primeira rede social virtual, o Orkut, ainda não havia sido criada, mas já existiam várias maneiras de nos conectarmos e compartilhamos conteúdos com pessoas amigas. A plataforma MSN, de mensagens instantâneas, e o e-mail eram algumas dessas possibilidades.

E foi a partir dessa base tecnológica e do contexto político da época, com Lula em seu primeiro mandato, ampliando e estimulando a participação popular, que o Paulo Lima teve uma ideia visionária: criar um veículo de comunicação que fosse, mais do que um meio de informação, um processo transformador de pleno exercício do direito à comunicação e da colaboração entre grupos de adolescentes e jovens presentes em diferentes lugares do Brasil. Ou como ele mesmo costuma dizer: “Um projeto social impresso”.

Assim surgiu a Revista Viração. Ainda que à época fosse um veículo impresso, seu processo só pôde ser viabilizado graças à cultura digital que se expandia e se transformou ao longo desses 20 anos, desde sua edição zero, em março de 2003. No começo, os núcleos virajovens, que reuniam os grupos de reportagem de adolescentes e jovens, articulavam-se por um grupo de e-mail e por uma reunião mensal de pauta pelo MSN. As trocas, nesses espaços, ferviam de ideias e atualizações sobre os temas e agendas políticas dos grupos juvenis em suas territorialidades. Da redação da revista, em São Paulo, a equipe desde sempre acolhe e encaminha as demandas dos jovens colaboradores em pautas e reportagens.

As formas de interlocução e articulação dos núcleos também acompanharam as mudanças na cultura digital, mas todas elas sinalizadas pelas juventudes que têm participado da Vira nessas duas décadas. Em muitos momentos, percebemos que o uso de algumas plataformas para a articulação estava obsoleto. Foi preciso migrar do e-mail e MSN para o grupo e chat do Facebook e, posteriormente para o Whatsapp – sempre que uma plataforma era esvaziada de sentido era, e ainda é, substituída por outra pela qual os (vira)jovens demonstraram mais interesse.

Os produtos e processos de educomunicação encabeçados pela revista também se transformaram, ao longo desses 20 anos, de acordo com as mudanças políticas e tecnológicas, os avanços digitais e a apropriação de novos espaços virtuais pela juventude, originando novas formas de contato com seus colaboradores, novos processos, como as coberturas educomunicativas em tempo real, e também novos produtos, exclusivamente virtuais, como a Agência Jovem de Notícias, criada para acolher a demanda por conteúdos frequentes que uma revista mensal de 36 páginas já não conseguia viabilizar. Assim, a revista enquanto produto também foi se reposicionando. De multitemática, com uma matéria de capa de fôlego, torna-se num veículo de profundidade acerca dos direitos da juventude, em suas edições temáticas.

Por meio dos virajovens, editais e parcerias, a Viração chegou a espaços públicos, levou informação, subsidiou discussões políticas, encantou tantas pessoas com suas páginas e processos e, em duas décadas, continua sendo um espaço de encontro e expressão das lutas das juventudes, que inspira outras práticas, em diferentes segmentos da sociedade: de novas iniciativas de comunicação popular a inovações metodológicas na educação formal, a partir da educomunicação e da educação midiática.

Os princípios de coletividade, colaboração e mão na massa, proposta na metodologia da revista, se estendem não apenas para outros projetos e programas da ONG Viração Educomunicação, mas são hoje valores demandados em diferentes instâncias sociais, da escola ao mundo corporativo. A Viração consegue, há 20 anos, pôr em prática valores sobre os quais a sociedade ainda se esforça para entender e concretizar. Por essa razão, a Viração merece ser celebrada, continuada e referenciada como fonte de inspiração para novas iniciativas comprometidas com uma sociedade mais dialógica, diversa e justa com as juventudes.

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