Diálogos e ações: Viração celebra 20 anos com Webinário sobre Justiça Climática

Por Ana Loureiro
Edição por Monise Berno


Na última sexta-feira, dia 24 de novembro, ocorreu no canal de Youtube da Viração  o webinário que marcou o início das comemorações dos 20 anos da organização. Segundo o fundador e diretor internacional da Viração, Paulo Lima, a celebração se encerra em março de 2024, com a realização de um seminário nacional em São Paulo. 

O encontro on-line contou com três palestrantes com experiências distintas em educomunicação e ativismo climático. As apresentações se iniciavam com uma pergunta lançada por Paulo Lima, que mediou o evento:  “Que emoções eu sinto diante da mudança climática?”

As perguntas foram respondidas pelas pessoas participantes e também pelo público que acompanhava no YouTube, enviando suas respostas por meio de um formulário disponibilizado no chat. Além dessa interação, quem acompanhava a transmissão era convidado a compartilhar a cidade de onde estava. Essas informações foram reunidas em um mapa interativo representando todas as pessoas conectadas na discussão. 

Thaís Brianezi, Amanda Costa e Gabs Razo compartilharam um pouco da sua experiência em ativismo e combate contra a crise climática a partir de pesquisas, projetos e ações educomunicativas.

PARELHEIROS, O PULMÃO DA REGIÃO DE SÃO PAULO

A primeira pessoa participante a trazer suas experiências foi Gabs Razo, que é coordenador de comunicação no IBEAC, Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário. 

Sua fala inicial foi a respeito do sentimento diante da mudança climática, sendo a tristeza em relação ao sistema falho e violento que promove a degradação ambiental, fazendo menção ao pensamento de Ailton Krenak em sua obra “A Vida não é Útil”, que diz que não se pode comer o dinheiro, quando o planeta  encontra-se em falência ambiental. 

Gabs contou da experiência na comunidade de Parelheiros, região extremo sul de São Paulo. A educomunicação é presente e pulsante nos projetos desenvolvidos pelo Ibeac na comunidade. Através da criação de uma personagem que reflete a imagem dos moradores jovens do local, chamada Carol, inspirada na Carolina Maria de Jesus, moradora da região e importantíssima escritora brasileira, saberes que revelam a importância de Parelheiros para a cidade de São Paulo e valorizam o ecossistema da região. como o trabalho coletivo de segurança alimentar materializado nas hortas comunitárias criadas nos quintais das casas. 

O jovem educomunicador encerrou sua fala afirmando que não existem soluções fáceis para problemas complexos como a crise climática, e por isso, é importante discutir e agir em comunidade, pois é preciso nos entendermos como parte da natureza, e não como um corpo desconectado do resto do planeta.

AS CORES DA JUSTIÇA CLIMÁTICA

Amanda Cruz Costa, é ativista climática, fundadora do Perifa Sustentável, jovem embaixadora da ONU, delegada do Brasil no G20 Youth Summit e eleita #Under30 pela revista Forbes. Os sentimentos que inauguraram sua fala foram a ansiedade a respeito da urgência climática e também o otimismo. 

A ativista é influencer climática e atua no projeto Vozes negras pelo clima, uma rede de 11 mulheres negras ambientalistas que estão liderando a discussão sobre crise climática em seus territórios e que estarão na COP 28

Amanda começou sua fala destacando como a pauta climática tem sido embranquecida com o tempo, sobretudo com o uso de palavras em inglês, e enfatizou que lutar pelo clima, pela Terra e sua preservação é conhecimento e prática ancestral de povos não brancos. 

O enfrentamento ao racismo ambiental vem ganhando força por pressão dos movimentos sociais, mas infelizmente as pessoas mais afetadas pelas mudanças climáticas ainda são as racializadas, moradoras de áreas periféricas e em situação de vulnerabilidade social. 

Por fim, a influencer exaltou a importância de debater a construção de uma sociedade de economia colaborativa e entendermos mais sobre como podemos influenciar nosso redor com pequenas ações. Ela ressaltou que as ondas recentes de calor que estamos vivenciando no Brasil são um impacto tangível, e frisou: ”provavelmente esse será o ano mais fresco dos próximos anos.” 

ESPERANÇAR, A NOSSA POTÊNCIA DE AGIR

Thaís Brianezi é professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, participante da Licenciatura em Educomunicação e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. 

A professora iniciou sua fala ancorada na obra de Ailton Krenak, lembrando que é preciso de múltiplas histórias para adiar o fim do mundo. A mudança climática não causa problemas, mas escancara o sistema falho e perverso em que vivemos: É preciso mudar o sistema para combater as injustiças climáticas. Para além de reduzir as emissões de gases poluentes do efeito estufa, é primordial pensar e combater a exploração de recursos e de pessoas, não podemos mais ser mercadorias.

Ressaltou também que, com a Educomunicação, a academia reflete as práticas de comunicação popular, e destacou que, na visão dela, o enfrentamento das injustiças climáticas só será possível através da educação, da potência de pensar e agir coletivamente, usando a lente do bem viver e partilhar, a partir do conceito do “nós que desfaz todos os nós.” 

PARTICIPAÇÃO DA JUVENTUDE

A juventude também teve espaço no primeiro webinário pelos 20 anos da Viração. 3 jovens que integram os NUCAS, Gregory, Gessica e Luddymila, tiveram participação especial na transmissão, enviando perguntas sobre justiça climática e o enfrentamento da crise do clima, em vídeo, para as pessoas participantes.

Os NUCAS – Núcleos de Cidadania de Adolescentes são grupos formados por meninas, menines e meninos, de 12 a 18 anos, moradores de municípios que participam do Selo UNICEF no Brasil. Um dos objetivos é estimular e garantir a participação cidadã de adolescentes em questões relevantes a suas vidas.

SENTIMENTOS DIANTE DA CRISE CLIMÁTICA

As palavras que tomaram a tela no final do webinário eram sobre sentimentos indigestos e melancólicos para nós. Indignação, raiva, medo, tristeza, ansiedade, preocupação e por aí vai. Mas como procurar uma alternativa que traga luz em tempos de escuridão?

Novamente, voltar a luz a Paulo Freire e fazer da esperança um verbo, Esperançar para tratá-la com ação. E criarmos outros finais do mundo, afinal, como também lembrou a professora Thaís, o mundo já acabou várias vezes para alguns povos. Cabe a nós, coletivamente, acharmos uma saída para existirmos, resistindo a esse caminho perverso que nos imputaram. 

Encerro com o sentimento que eu fiquei reverberando após participar do evento: coragem! 

Coragem para agir, estudar, pensar, debater e mudar as possibilidades ao meu redor. Deixo o pensamento do ativista e escritor Ailton Krenak, tão citado nesse webinário e tão norteador de nossas ideias:

“O futuro é ancestral e a humanidade precisa aprender com ele a pisar suavemente na terra.”

Assista o webinário na íntegra:

Fonte:

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