Comunicação Comunitária e o momento político do Brasil com Gizele Martins

Um encontro formativo e reflexivo que resgata os princípios e motivações dos projetos e programas da Viração, além de muita conversa boa sobre resgate histórico, a importância da educomunicação e da mobilização midiática, acessibilidade na comunicação e na prática, política e participação social e muito mais.

Por Rhafaela Resende e Thaynara Floriano

A Viração Educomunicação completa 20 anos este ano e essa celebração tem nos feito resgatar as raízes e princípios que motivam nossa atuação nos projetos e programas que criamos, de 2003 até hoje. No último mês, tivemos um encontro formativo e reflexivo com a ex-virajovem, a jornalista e comunicadora popular, doutoranda pela ECO UFRJ, Gizele Martins, que trouxe relatos de suas vivências enquanto jovem comunicadora da Revista Viração, além de compartilhar com a gente um histórico da sua atuação na Maré/RJ, que geraram debates sobre comunicação comunitária e cultura periférica.

Em sua fala, Gizele ressaltou um ponto que costuma ser preponderante na comunicação vinda das periferias, onde as pessoas sobrevivem numa lógica de violência institucionalizada e enfrentam desafios para as coisas mais básicas, como morar com dignidade, trabalhar e se divertir. Na favela, a dinâmica das notícias passa quase sempre por falar de tragédias:

“A gente fala muito da tragédia e durante dez anos da minha vida eu falei muito da tragédia, porque aquela tragédia de sofrer a invasão na minha casa me impactou muito, meus amigos estavam sendo assassinados. Teve um momento que eu falei ‘Eu só falo de morte, de operação policial e não é só isso'”.

Gizele Martins

Gizele nos contou também que entrar na Viração e participar como uma virajovem na Revista Viração contribuiu para que ela pudesse identificar as semelhanças com seus pares e se sentir parte, empoderada para realizar grandes coberturas e produções de jornalismo colaborativo, antes mesmo da formação acadêmica.

Na manhã de conversa e café, discutimos também sobre o resgate histórico das ancestralidades brasileiras, sobre a importância da educomunicação e da mobilização midiática promovida em diversas comunidades e favelas do Brasil durante a pandemia, a partir da atuação da Gizele e de outras iniciativas coletivas  do território da Maré focadas em arrecadação de insumos de prevenção, alimentos e na conscientização sobre as questões de saúde e sociais provocadas ou agravadas pela Covid-19.

Junto com ela, a equipe da Viração recebeu a visita do pedagogo, conselheiro tutelar no Rio de Janeiro, publicitário e estudioso da educação popular, da infância e da adolescência, Jota Marques, e da educadora popular, preta, autista, ativista pela comunidade de pessoas com deficiência eleita na D-30 Desability Impact List, Luciana Viegas, que enriqueceram a troca trazendo discussões sobre acessibilidade na comunicação e na prática, política e participação social, economia e outros temas.

Capa Militarização e Censura/Gizele Martins

A ex-virajovem Gizele é hoje, além de muitas outras coisas, autora do livro “Militarização e censura – A luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”. Lançado em 2019, o livro aborda o efeito da militarização sobre alguns meios de comunicação comunitários, proibições culturais e tantas outras violações no Conjunto de Favelas da Maré, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Debater a conjuntura e os horizontes da comunicação por outras experiências é urgente e necessário para quem pretende fomentar uma nova forma de acesso a rede de mídias. Profissionais da comunicação devem ser capazes de promover um debate amplo sobre os temas do país, a partir da construção de ideias críticas e expansão da forma de comunicar, trazendo para o jornalismo a diversidade cultural e as experiências de territórios, sobretudo os periféricos, presentes no Brasil.

Para nós, que atuamos com as juventudes produzindo e mediando processos de comunicação colaborativa e comunitária, a oportunidade de ouvir e debater temas tão fundamentais para o nosso país com pessoas como Gizele, Jota e Luciana nos abre um universo de novas possibilidades de construção coletiva e educomunicativa para os próximos 20 anos.

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