Como os estigmas impactam o acesso aos serviços de saúde?

Neste artigo, discutimos como as desigualdades estruturais atravessam o acesso das juventudes aos equipamentos de saúde na busca de prevenção e tratamento do HIV/aids e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).


Por Demetria Lima Santos, Ewerton Vicente de Melo Souza e Gustavo Mesquita Ribeiro, jovens participantes da primeira turma da Pra Brilhar: Agência Educomunicativa PositHIVa

O estigma é um problema significativo dentro da nossa sociedade. Em muitos momentos, ele se expressa por meio de falas, posturas e atitudes de discriminação. Falar dos estigmas relacionados à população vivendo com HIV implica falar de ignorância e estereótipos que caminham lado a lado com o bem-estar de seus corpos, saúde integral e também de preconceitos – não só aqueles sobre o próprio HIV. Esses preconceitos estão entre os maiores obstáculos para a adesão à prevenção, ao tratamento e ao cuidado emocional das pessoas que vivem com o vírus.

Os estigmas relacionados ao HIV estão quase sempre ligados a crenças, atitudes e sentimentos negativos em relação à população vivendo com o HIV. Muitas vezes, também estão atrelados à relação da pessoa soropositiva com seus familiares e pessoas próximas. Quando o indivíduo passa a ser tachado como “doente/imoral” por conta da sua sorologia, pode ser complexo se desprender desta imagem. Isso implica, muitas vezes, em situações de isolamento e distanciamento social.

A discriminação, no contexto do HIV, também passa pela quantidade de informação que a pessoa tem sobre os métodos de prevenção combinada e sobre os serviços especializados que disponibilizam acolhimento, testagem, tratamento e distribuição de insumos de prevenção no seu território.

O estigma cria barreiras que impedem que jovens acessem esses serviços para garantir prevenção e, ainda, para buscar tratamento com dignidade.

Através da interseccionalidade, é possível compreender que existem vários sistemas de opressão em nossa sociedade. Olhar para como esses sistemas se estruturam e se atravessam contribui para pensarmos as relações sociais e enfrentarmos as desigualdades de raça, gênero, sexualidade e classe, reconhecendo assim os desafios necessários para implementação de políticas públicas que atendam essas particularidades da nossa sociedade. Se faz necessário entender que existem diferenças entre pensar sobre racismo e LGBTfobia, por exemplo, mas que essas questões se complementam e, juntas, podem significar barreiras de acesso aos direitos mais básicos, como o acesso à saúde.

Em 1° de dezembro de 2018, o UNAIDS publicou em seu site que o número de casos de aids entre jovens de 15 a 24 anos teve um aumento nos últimos dez anos, principalmente entre os jovens do sexo masculino. Os dados obtidos são do Boletim Epidemiológico de HIV 2018, que foi divulgado pelo Ministério da Saúde. Já entre as mulheres, essas taxas mostravam queda em quase todas as faixas etárias. Já o Boletim Epidemiológico de 2020 relatou que 920 mil pessoas vivem com o HIV no Brasil e o Ministério da Saúde revelou que a maior concentração de casos está entre jovens de 25 a 39 anos, de ambos os sexos – 52,4% são homens e 48,4% são do sexo feminino.

Algumas pessoas justificam o aumento do diagnóstico de HIV em adolescentes e jovens pelo fato de que essa população tem acesso a um leque de informações referente a métodos de prevenção como nas décadas anteriores e, por isso, perderam o medo da infecção por HIV, enquanto a população do início da epidemia ainda mantém a lembrança dos primeiros anos da aids em sua forma mais grave.  

Quando falamos sobre HIV/aids, não podemos esquecer das pessoas que vivem com o vírus. O que essas pessoas apresentam vai muito além da infecção – são inúmeras as vulnerabilidades sociais que acabam fazendo com que a vivência da sorologia positiva seja diferente entre grupos distintos.

Infelizmente, nossas políticas públicas não conseguiram atender esses outros fatores que permeiam a vida das pessoas soropositivas. É importante ressaltar que até mesmo o acesso de um jovem gay branco de classe média alta a métodos de prevenção combinada será diferente do acesso de um jovem gay negro da periferia. Claro que o preconceito irá impactar ambos, no entanto, o jovem branco não sofrerá com as mazelas do racismo, de classe e outros fatores que poderiam impedir o seu acesso a escolher iniciar uma prevenção combinada.

A falta de autonomia para acessar os serviços de saúde, falta de autonomia financeira, negociação com a família em relação a vivência de sua sexualidade, gênero e práticas sexuais e métodos preventivos são impedimentos para a promoção da saúde sexual. Na outra ponta do problema, podemos identificar a existência de profissionais sem preparo para entender e acolher as questões da juventude nos serviços de saúde (apesar dos importantes e crescentes esforços do poder público em capacitar suas equipes para o atendimento respeitoso e humanizado), nas escolas e em outros lugares.

Dificilmente os jovens LGBTQIAP+ acham espaço para discutir e aprender sobre sua sexualidade sem os exemplos impostos pela heteronormatividade, pelo padrão cisgênero e branco. A falta de identificação se torna, então, mais uma barreira que dificulta a adesão e a continuidade da prevenção e tratamento.

Os serviços de saúde costumam dizer que têm portas abertas para todos que os procurarem, mas as juventudes já começam não sabendo onde procurar. Nenhum jovem chega ao serviço de saúde sozinho, sem um primeiro encaminhamento ou uma primeira conversa. Atualmente, muitos nem sabem do que se trata exatamente o HIV ou quaisquer outras ISTs.

Aqueles que alcançam os serviços muitas vezes não têm o apoio familiar, a autonomia para manter a periodicidade do acompanhamento e são acometidos pelo medo do julgamento que as pessoas que não são devidamente informadas sobre o HIV fazem sobre o assunto. Esses são alguns fatores que dificultam tanto o acesso, quanto a adesão a um tratamento ou processo de prevenção da juventude.

E de onde vem essa primeira conversa sobre o assunto? Quem faz os primeiros encaminhamentos?

Apesar dos problemas de acesso à educação sexual e os desafios que permeiam o acesso aos serviços de saúde, há iniciativas intersetoriais que promovem acolhimento e prevenção ao HIV de forma exemplar em nosso país.

Na cidade de São Paulo, podemos citar o Centro de Referência e Defesa da Diversidade Brunna Valin, situado na região central, bem como os CTAs – Centros de Testagem e Aconselhamento – e os SAEs – Serviços de Assistência Especializada em IST/aids -, que são pólos especializados no atendimento de pessoas que buscam insumos de prevenção, diagnóstico e tratamento para o HIV e outras ISTs, localizados em todas as regiões da cidade.

Nos próximos textos dessa série, compartilharemos um pouco do que conhecemos em uma série de visitas técnicas realizadas em algumas unidades destes serviços focados no enfrentamento da epidemia de aids na capital paulista.

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