Juventudes

Estudar em casa: Quais são os desafios para estudantes de escolas públicas das favelas e periferias?

Adolescentes e jovens que vivem em favelas e periferias responderam à enquete do U-Report Brasil sobre estudar em casa na quarentena.

Estudar em casa é um desafio para todo mundo, posto que exige maior autonomia para organização e a necessidade de criar um ambiente onde se possa ter concentração. Vários fatores que circundam o espaço, como ruídos, qualidade da conexão ao meio pelo qual se estuda, entre outros, também interferem. Quando se fala em estudar em casa morando em uma favela ou periferia, de que forma esses fatores se combinam? Geram quais desafios?

Ao todo, 735 adolescentes e jovens de favelas e periferias responderam à enquete pelo chatbot da plataforma U-Report em redes sociais como o Facebook Messenger e o WhatsApp sobre estudar em casa. As respostas vieram de todas as regiões do país. E os estados mais ativos na enquete foram São Paulo, Maranhão e Bahia. 

Entre a galera que respondeu, 54% está matriculada em uma escola, sendo 81,41% em escolas públicas. E é sobre elas que falaremos por aqui.

Condições para estudar

Em relação à estrutura para acessar a educação remota, quando questionados/as se têm um espaço adequado para estudar em casa – onde possam ficar a sós ou, ao menos, longe de barulhos que os/as desconcentram, 62,69% dos/as adolescentes e jovens responderam que não. Ao responderem se possuem um computador (desktop, notebook, tablet etc.) para estudar, 57% afirma não ter, apesar de 81% ter wi-fi em casa.

Eu tenho recursos básicos para o ensino em casa, mas meus vizinhos não, alguns amigos de escola e parentes também não. E isso acontece muito nas periferias e favelas. A desigualdade social é o nosso maior problema.

Menina, 14 anos, branca, de Maranhão

Ao responderem se sentem que possuem mais condições de estudar neste momento, 62,10% afirma que não. Entre as pessoas que afirmam que sim, a maioria (34,82%) aponta que é porque consegue se concentrar melhor estudando em casa, tem mais tempo pra ler e gosta de estudar pela internet. Entre quem diz que sente que têm menos condições de estudar, a maioria (31,43%) afirma que não está conseguindo se concentrar, não está se sentindo bem emocionalmente para conseguir estudar, tem que cuidar da casa e/ou família e que é difícil acompanhar os conteúdos em aulas online.

Os maiores desafios para adolescentes e jovens de periferias estudarem em casa

Acesso a conexão de internet e acredito que o psicológico de ninguém está totalmente bem neste momento, todos estão aflitos com tudo que vem acontecendo. Aqui em minha cidade está uma situação bem crítica. Vejo adolescentes do meu bairro que nem tem um celular ou tablet, que não tem condições de comprar. E. infelizmente, as aulas não param, os conteúdos avançam. E eles, infelizmente, ficaram para trás. Como sempre.

Menina, Ceará, 15 anos, negra

A enquete finalizou com uma pergunta aberta aos respondentes sobre qual seria, para eles/as, o maior desafio para crianças, adolescentes e jovens das periferias e favelas estudarem em casa. Entre as respostas, se destacam: (i) questões de infraestrutura, como a falta de ambiente próprio para estudo, carência de aparelhos eletrônicos e acesso à internet, além das escolas que não estão disponibilizando meios de ensino a distância; (ii) questões emocionais, como a preocupação com a própria saúde e a de familiares, ansiedade diante deste momento e implicações na saúde mental; e (iii) questões relacionadas à qualidade do ensino, do afastamento da escola e falta de orientação de professores às dificuldades de se adaptar a estudar online.

Confira outras respostas sobre os desafios:

Ter que escolher entre estudar ou trabalhar. Estudar fica difícil porque não tem estrutura e, ao trabalhar, pelo menos tem uma renda pra ajudar a família nesse momento tão difícil

Menina, 15 anos, raça não-declarada, Mato Grosso

“Se concentrar nos estudos e ‘esquecer’ o caos: falta de dinheiro, conhecidos doentes, ministros que não tem a juventude periférica como pauta, desespero pela incerteza de até quando isso irá durar…

Menina, 17 anos, branca, de São Paulo

Muitos tem que trabalhar para arrumar um alimento, porque antes comiam na escola e agora não tem mais esse alimento.

Menina, 14 anos, branca, Ceará

U-Oquê?

O U-Report é um projeto do escritório de inovação global do Unicef implementado pela Viração Educomunicação no Brasil. Funciona como uma ferramenta de participação social no meio digital, que tem como objetivo mobilizar e envolver a juventude em discussões sobre seus próprios direitos.

Basicamente, o projeto atua por meio de um chatbot social (um robô) que troca ideia com adolescentes e jovens.  Os conteúdos são distribuídos na forma de enquetes, infocentros, materiais educativos, desafios temáticos, transmissões ao vivo, entre outros, e chegam aos jovens por meio de aplicativos que fazem parte do cotidiano.

Você pode fazer parte do U-Report através do Facebook ou do WhatsApp.

Imagem destacada: ‘Mesa de estudos de Luciano Alves que investe nos livros, já que não tem acesso à internet | Foto: arquivo pessoal’ / Reprodução Ponte Jornalismo

Estudo, trabalho e renda: O que mudou com a pandemia?

Enquetes mapeiam mudanças e desafios enfrentados por adolescentes e jovens.

Na metade do mês de junho, o Unicef e a Viração realizaram enquetes através do U-Report sob o objetivo de mapear os desafios que estão sendo enfrentados e as mudanças que aconteceram nas vidas de adolescentes e jovens diante da pandemia quando os assuntos são estudo, trabalho e renda. 

Ao todo, 3.831 pessoas de todos os estados do país toparam responder – 64% das respostas vieram de meninas e 36% de meninos. As regiões mais ativas foram Ceará e Bahia, estados da região nordeste.

O questionário mapeou dados importantes para entender a atual realidade de adolescentes e jovens, como:

 

1) Em relação aos estudos

 

Entre quem está no ensino básico e superior:

64% está estudando em casa;

24% parou de estudar. Deste número, 5% afirmou que desistiu deste ano letivo.

 

Entre quem estudava por conta própria antes da quarentena:

55% parou de estudar. Deste número, 44% afirma que voltará quando as coisas melhorarem.

 

Entre quem não estudava:

24% voltou a estudar neste momento; 18% decidiu que voltará.

 

Em relação ao ENEM e outros vestibulares:

65% está achando mais difícil para se preparar;

– Entre as pessoas que desistiram de tentar neste ano, 87% não está conseguindo estudar, talvez não conseguirá pagar a taxa de inscrição e/ou perdeu o ânimo para tentar.

 

2) Em relação ao trabalho

40% ficou sem trabalho, mudou ou decidiu parar por conta da pandemia;

27% começou a trabalhar em casa;

44% teve o salário reduzido.

 

3) Em relação à renda

44% afirma que a renda de sua família diminuiu;

14% deixou de fazer alguma refeição porque faltou dinheiro;

24% chegou a um momento onde os alimentos em casa acabaram, mas não tinha grana pra comprar mais;

19% não recebe, mas está precisando de um programa de distribuição de alimentos.

 

Alguns desses resultados foram discutidos na Live “Juventude, trabalho e renda”, que ocorreu no dia 18 de junho e está gravada no canal do Youtube do Unicef Brasil. Você também pode conferir os dados completos nos seguintes links: Estudos, Trabalho e Grana.

Jovens em distanciamento: ansiedade, tédio e saudades de crushs

Ao todo, 3.933 pessoas de todo o Brasil responderam à enquete da plataforma U-Report Brasil sobre a pandemia de covid-19

Por Silvana Salles, para a Agência Jovem de Notícias

A ansiedade com o coronavírus, o tédio, as saudades de amigues e crush, o interesse em conhecer formas de organizar os estudos. Tudo isso faz parte do cotidiano da maioria de adolescentes e jovens que responderam à enquete do U-Report Brasil sobre a pandemia de covid-19. Ao todo, 3.933 pessoas responderam à enquete pelo chatbot da plataforma em redes sociais como o Facebook Messenger e o WhatsApp. As respostas vieram de todos os estados do Brasil, 79% delas de fora das capitais. O estado mais ativo na enquete foi o Ceará – justamente um dos mais afetados pela epidemia de coronavírus.

As pessoas que participaram da enquete tiveram de responder a quatro perguntas sobre distanciamento social e como se sentem em meio à pandemia. Jovens de até 19 anos representam a vasta maioria das que responderam. Juntos e juntas, somam 78% da amostra da pesquisa, segundo a tabulação da equipe do U-Report.

A diferença de percepção entre quem mora ou não em uma capital

Na opinião dos/as participantes, o maior desafio em meio à pandemia tem sido lidar com a preocupação e a ansiedade em relação ao coronavírus. Essa preocupação foi um pouco mais frequente entre moradores de capitais do que entre aqueles/as que moram em outras cidades, mas foi a mais citada em ambos os grupos.

No primeiro, representa 29% das respostas. No segundo, 23%. Os outros desafios variam um pouco conforme a faixa etária. Entre as crianças e adolescentes de até 14 anos que moram em capitais, o maior desafio é ficar longe de amigues e crush. Nas outras cidades, o tédio foi o mais citado.

A enquete foi realizada no dia 14 de abril. Naquela data, a grande maioria dos/as participantes declarou que estava cumprindo o distanciamento social: o índice passou de 80% tanto nas capitais quanto nas outras cidades brasileiras.

Quando questionadas sobre como estão se sentindo, mais pessoas marcaram as respostas “estou bem, mas varia”, “me sinto confiante” e “tenho bastante ansiedade”. A resposta menos frequente foi “estou feliz, tenho aprendido muito”.

Essas respostas sobre sentimentos variaram levemente dependendo do local de moradia dos/as participantes. Nas capitais, “estou bem, mas varia” liderou com 30%. Fora delas, “me sinto confiante” passou na frente, também com 30% das respostas.

A diferença de percepção entre gêneros

Além das diferenças entre localidades, há também algumas entre gêneros. Entre os meninos e homens que não moram em capitais, o tédio foi mais frequente do que nas respostas das meninas e mulheres.

A enquete também perguntou aos jovens o que eles gostariam de acessar para ajudar a passar o tempo. As meninas e mulheres, tanto das capitais quanto fora delas, querem principalmente acesso a conteúdos sobre cuidados com saúde mental e aprender a organizar os estudos.Os meninos e homens das capitais também querem informações confiáveis sobre a Covid-19.

Já os que vivem em outras cidades têm interesse em saber como organizar estudos, em formas de interagir com outros jovens e em ferramentas para construir projetos. No índice geral, jovens das capitais estão mais interessados em cuidados com saúde mental e os/as do interior, em saber como organizar os estudos.

Aliás, falando em gênero, as meninas e mulheres foram as mais engajadas na enquete. Entre as pessoas que declararam gênero na enquete, 38% se identificam com o gênero masculino e 62% com o feminino. Elas também aderiram mais ao distanciamento social. Nas capitais, 84% disseram estar cumprindo o distanciamento, enquanto 77% dos homens e meninos declararam o mesmo. Fora das capitais, as respostas foram 84% e 76%, respectivamente.

U-Oquê?

O U-Report é um projeto do escritório de inovação global do Unicef implementado pela Viração Educomunicação no Brasil. Funciona como uma ferramenta de participação social no meio digital, que tem como objetivo mobilizar e envolver a juventude em discussões sobre seus próprios direitos.

Basicamente, o projeto atua por meio de um chatbot social (um robô) que troca ideia com adolescentes e jovens.  Os conteúdos são distribuídos na forma de enquetes, infocentros, materiais educativos, desafios temáticos, transmissões ao vivo, entre outros, e chegam aos jovens por meio de aplicativos que fazem parte do cotidiano.

Você pode juntar-se ao U-Report através do Facebook ou do WhatsApp.

Texto publicado originalmente no site da Agência Jovem de Notícias, em 03 de junho de 2020.

Embalagem jovem – ensaio discute o corpo na sociedade do consumo

Já parou pra pensar o quanto nossos corpos jovens estão cotidianamente sendo moldados? Rotulados e prensados por essa sociedade que pensa poder vender tudo?

Por Redação AJN

O que te embala? Uma canção de resistência ou o plástico filme que envolve as carnes no mercado da vida? O que te veste? O que te forçam a vestir? O que há por cima ou abaixo da pele? Quanta dor, quanto amor, quanta solidão, quanto preconceito, quanto silêncio? Qual o peso destes tempos sobre o corpo da juventude brasileira?

A busca pela saúde, bem-estar, o corpo tratado como uma máquina de alta performance e as buscas incessantes para alcançar marcadores sem considerar as diferenças entre biótipos, acesso e vivências, a heteronormatividade e os padrões de gênero, a cor da pele e o racismo estrutural, o tamanho dos corpos e os padrões de beleza determinados pela indústria da moda.

Estas são algumas das grandes inquietações que permeiam a relação das juventudes com seus corpos e com os espaços sociais que ocupam ou não ocupam. Jovens que integram os projetos da Viração Educomunicação discutiram o corpo na sociedade do consumo no ensaio fotográfico Embalagem Jovem, que você confere aqui na Agência Jovem de Notícias.

 

Fotos: Bruno Samuel, Julia Cavalcante, Jenny Nicássio, Julia de Lucca e Jazz Martins – Virajovens de São Paulo (SP).

Jovens modelos: Luccas Rizzi, Jazz Martins, Joyce Serafim, Lucas JK, Flora Guazzelli, Julia de Lucca, Julia Cavalcante, Giovanna Feliciano e Dandara Felippe Moreira.

Ensaio originalmente publicado na Revista Viração – Ano 16 – Edição 115 – Jul/Dez 2019.

Empresas e jovens profissionais: é preciso melhorar esse diálogo

A antiga crise econômica, ampliada pela pandemia, não é a única responsável pela difícil inserção dos mais jovens no mercado de trabalho. Há muito tempo a juventude das periferias enfrenta essa exclusão, mas por outros motivos.

Por United Way Brasil

Baixa escolaridade, fragilidade da formação educacional, longas distâncias entre periferia e centros urbanos, falta de recursos econômicos e preconceitos. Estes são os principais problemas enfrentados pela juventude brasileira que mora no entorno dos grandes centros econômicos.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad-2011), o percentual de jovens entre 15 e 24 que fazem parte do mercado de trabalho, diminuiu de 57,7% em 2001 para 53,6% em 2011, diferentemente da taxa de atividade da população em geral, que permaneceu relativamente estável nesse período.

O contingente de jovens é o maior que o Brasil já teve, somando 47,3 milhões de brasileiros com 15 a 29 anos. É justamente entre eles que as desigualdades de renda aumentaram nos últimos cinco anos (Pnad-2019).

Em grande parte dos casos de inserção precoce no mercado, os jovens acabam alocados em postos precários em que as chances de crescimento profissional quase inexistem.

A escola, que deveria melhor prepará-los para uma vida profissional ativa, está ainda distante disso, embora tenha obtido alguns avanços nos últimos anos, no Ensino Médio. Segundo a pesquisa Juventude, Educação e Projeto de Vida (Plano CDE e Fundação Roberto Marinho), questões como desorganização, falta de infraestrutura, existência de bullying, violência e preconceito, aulas monótonas, materiais didáticos ruins são alguns dos empecilhos que os jovens apontam para não se sentirem estimulados a estudar. Obstáculos que acabam prejudicando não só a formação para o mundo do trabalho como a permanência do jovem na escola.

Como país, ainda estamos longe de inserir a mão de obra jovem no mercado de trabalho. Políticas públicas se mostram pouco eficientes nesse sentido diante da urgente demanda. Por isso, o papel das organizações da sociedade civil, que fazem a ponte entre a juventude das periferias e as empresas, buscando essa inserção, tem se tornado essencial para mudar o cenário.

Desafios para garantir o primeiro emprego

Muitas empresas se mostram interessadas em abrir espaços para os jovens nos seus quadros de colaboradores. No entanto, ainda existe um descompasso entre o que elas querem e o que os jovens têm a oferecer.

O primeiro obstáculo, que acaba barrando uma boa parte dos candidatos, é o conhecido ‘CEP’: “A distância da casa do jovem até a empresa parece ser intransponível para aqueles que contratam”, explica Elaine Souza, assistente social e coordenadora geral de projetos no Brasil da organização social Viração, parceria da United Way Brasil. Para ela, é preciso entender que a conjuntura estrutural da cidade foi concebida com base em um processo social que excluiu as periferias do dia a dia dos grandes centros. “O CEP coloca os jovens nesse lugar, no lado de fora”, complementa.

Para ela, outras questões antigas, que ainda influenciam muito a escolha dos profissionais para uma vaga, são a cor da pele e o gênero. “Mulheres jovens, negras, da periferia são as que encontram maior dificuldade de inserção”, afirma Elaine.

Um aspecto alegado nas seleções de diferentes RHs para não contratar jovens é a falta de experiência anterior. “Acho que é preciso melhorar esse diálogo entre a empresa e o jovem para entender quais habilidades ele possui. O que vejo nas periferias, especialmente onde o Viração atua, no Grajaú (SP), é um lado empreendedor bastante ativo dos jovens do território. Eles acabam empreendendo porque percebem o quanto é difícil entrar no tradicional mercado de trabalho”, explica Elaine.

Para Benigna Alves Siqueira, Coordenadora Pedagógica da Associação Pró-Morato, em Francisco Morato (SP), parceira da United Way Brasil, existem faixas etárias na juventude que sofrem ainda mais com o desemprego. “A realidade do jovem da periferia é muito diferente, por exemplo, da do jovem da classe média. Aos 15 anos, ele sofre a pressão da família para colaborar com as finanças da casa. Essa faixa de idade é a que menos consegue emprego nas empresas, que buscam por jovens mais velhos”. E complementa: “Aos 18 anos, muitos deles já moram sozinhos ou são pais e têm de dar conta de demandas de adultos”.

Benigna também acredita que, em algumas situações, existe uma desconexão entre empresa e o jovem da periferia. “Já encaminhamos dezenas de jovens para uma vaga. Nenhum foi aceito e eu sei que naquele grupo existiam ótimos candidatos, com grandes potenciais. As empresas poderiam considerar que o jovem que mora longe dos grandes centros vive uma realidade diferente por uma série de circunstâncias. Muitos deles têm dificuldades  para  falar o português corretamente, têm vícios de linguagem, de postura… questões contornáveis, que a empresa pode trabalhar e mudar, porque esse jovem traz diferenciais que muitos não têm: vontade de fazer parte, desejo de superação, resiliência… São pessoas que lutam todos os dias para vencer desafios”, afirma a pedagoga.

Para ela, é preciso que as empresas revejam a abordagem, incluam a exclusão econômica no campo das diversidades e possam, a partir daí, adequar as seleções de RH para que façam sentido ao jovem. “As corporações têm muito a ganhar. Esses jovens são os mais motivados, porque desejam virar o jogo da realidade difícil de suas famílias”, conclui.

Investir em treinamentos, em mentorias, em vivências cotidianas com outros profissionais para compartilhar experiências, também são maneiras de preparar esse jovem para os desafios do trabalho.

A United Way Brasil, com seus parceiros, realiza o programa Competências para a Vida, cujo objetivo é justamente apoiar os jovens no seu projeto de vida e na carreira profissional. Isto porque acredita que a juventude é um dos pilares essenciais para a sustentabilidade e o desenvolvimento do país, assim como representa uma das forças mais ativas e criativas no combate às desigualdades.

Acompanhe o trabalho da United Way Brasil através da sua página no Facebook e de seu perfil no Instagram.

Integração e mapeamento afetivo: primeira etapa da ECA Belém

Após a seleção das e dos jovens oriundos de diversos bairros periféricos da região metropolitana de Belém, foram organizadas duas atividades que tiveram o objetivo maior de integrar estes adolescentes e promover um mapeamento afetivo sobre realidades e pertencimentos pessoais e sociais, preparando-os para os conteúdos das oficinas da Escola de Cidadania.

Integração entre participantes da Escola de Cidadania para adolescentes – Belém

Em uma roda de conversa de apresentação individual, as e os adolescentes puderam trocar ideias e conhecer um pouco sobre suas trajetórias. O eixo temático escolhido para essa atividade passou por estabelecer significados para termos como escola, cidadania e a adolescência.

Essa construção coletiva trouxe informações importantes sobre como aquela juventude desejava ser o espaço físico da escola e seu lugar enquanto adolescente nas suas comunidades, bem como o desejo por acesso a espaços de troca e convivência social amigáveis e didáticos.

A segunda atividade buscou criar um mapeamento afetivo entre as e os adolescentes inscritos no percurso da Escola de Cidadania, num movimento de reflexão sobre suas diversas realidades periféricas. Ao dividi-los de acordo com suas regiões geográficas, foi possível facilitar suas percepções sobre afetividades e interações sociais.

Atividade de mapeamento afetivo – ECA Belém

Nesta etapa, a troca de ideias evidenciou problemas estruturais comuns às periferias não só de Belém como de todo o território nacional: a falta de equipamentos públicos plurais e acessíveis dificulta a manutenção das afetividades, as relações sociais e a permanência das e dos adolescentes em seus territórios. 

 

Viração realiza ciclo de oficinas da Escola de Cidadania em São Paulo

A Viração realizou um ciclo de atividades de formação no âmbito do projeto de cooperacão internacional Escola de Cidadania para Adolescentes, co-financiado pela Província Autonoma de Trento e a Associação Viração&Jangada de Trento, na Itália.

Foram realizadas na sede da Viração, em São Paulo, 12 oficinas para 40 adolescentes de diversas regiões da cidade com duração de 4 horas cada. Os encontros visaram promover uma sensibilização e formação a respeitos dos temas contemplados no projeto: democracia, direitos humanos, juventudes, participação e meio ambiente, além da capacitação para o uso de técnicas de mobilização social e produção de comunicação.

O projeto Escola de Cidadania para Adolescente também buscou fortalecer o ativismo juvenil e o enredamento de adolescentes em iniciativas participativas, para isso parte dos encontros contou com a articulação com movimentos e ativistas em diferentes áreas, relacionadas aos temas do projeto para rodas de conversas com os adolescentes.

Além disso, foram realizadas visitas em organizações que atuavam com o tema do meio ambiente, nas quais os adolescentes puderam refletir sobre proteção ambiental, aprender técnicas e trabalhos de reciclagem e permacultura urbana, além de conhecerem experiências de ativismo ambiental.

Os encontros foram subsidiados pelos conteúdos multimídia produzidos no âmbito do projeto disponíveis na plataforma.

Prática de sexo sem camisinha com parceiros casuais encontrados em aplicativos é maior entre jovens gays

Por Juliane Cruz, da Redação

Os aplicativos mobile, cada vez mais presentes nos smartphones dos jovens, apareceram como fonte de encontro para sexo casual sem camisinha em 100% dos casos entre jovens gays, número maior que entre homens que fazem sexo com homens e mulheres.

Entender as diferentes formas de se viver e experienciar a sexualidade é um dos caminhos para se pensar a prevenção e o combate ao HIV/aids de forma efetiva, estando de acordo com o que se faz presente nas diferentes realidades brasileiras.

Buscando traçar esse caminho, nasceu o Projeto Pra Brilhar, idealizado pela Viração e executado com apoio do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, com o objetivo de aperfeiçoar a ação coletiva e as políticas públicas para o combate ao HIV/aids na cidade entre os jovens gays e homens que fazem sexo com homens (HSH), visto que é o grupo de pessoas que enfrenta um crescimento exponencial na ocorrência de novos casos.

O projeto reúne jovens selecionados por critério de classe e cor, que se encontram semanalmente para debater sobre gênero, sexualidade e prevenção combinada em intersecção com raça e classe, buscando refletir sobre e realizar o combate ao HIV/aids numa abordagem interseccional e educomunicativa.

Entre as atividades realizadas, aconteceu a pesquisa intitulada “Práticas e culturas sexuais de jovens frequentadores do Arouche”, realizada no Largo do Arouche, em junho deste ano. As questões foram desenvolvidas pelos jovens do projeto e trouxeram como resultado dados interessantes. Foram entrevistados 20 jovens, dos quais 19 se identificam como homens. Confira os resultados da pesquisa.

Segundo Tulio Bucchioni, educador responsável pelo projeto, a abordagem entre pares é uma dimensão importante do Pra Brilhar. “Idealizada e realizada no âmbito do projeto Pra Brilhar, a pesquisa adotou a perspectiva de educação entre pares contando, portanto, com a participação da juventude do projeto em todas essas etapas”.

Além disso, o educador explica que a abordagem entre pares possibilita dialogar com públicos que muitas vezes o sistema de saúde não atinge, com proximidade, empatia e uma linguagem mais acessível.

Cenário geral

A maioria dos entrevistados (55%) afirma ter transado sem camisinha no primeiro semestre de 2018. Ainda que o sexo sem camisinha aconteça com parceiros fixos em pouco mais da metade dos casos (54,5%), 45,5% dos jovens afirmam ter transado sem camisinha com parceiros casuais.

Ainda que a maioria dos entrevistados afirme transar com homens, a prática sexual com mulheres e homens é relevante entre os entrevistados: dentre eles, 65% afirmaram fazer sexo apenas com homens e, pouco mais de um terço (35%), com homens e mulheres. Dentre os entrevistados que afirmam transar com homens e mulheres, a maioria (57,1%) afirma não ter transado sem camisinha em 2018.

Já entre os entrevistados que fazem sexo apenas com homens, a maioria (61,5%), afirma ter transado sem camisinha em 2018. Ainda que a maior parte desses entrevistados tenha transado sem camisinha com um parceiro fixo (62,5%), entre os que fizeram sexo sem camisinha com um parceiro casual, 100% afirmam ter conhecido esse parceiro via aplicativos.

Uma pesquisa feita pelo CONECTAí Express, que reuniu respostas de 2.000 internautas, revela que 20% dos brasileiros tem um aplicativo de relacionamento instalado em seu celular, onde buscam novos parceiros para relacionamentos sérios ou relações casuais por meio virtual. Isso mostra como as formas de se viver a sexualidade mudam e se constroem de acordo com o contexto histórico, e, com elas, a necessidade de se pensar novas abordagens de prevenção e combate ao HIV/aids.

O resultado da pesquisa sugere que pessoas que transam exclusivamente com homens têm mais chances de transar sem camisinha quando comparadas a pessoas que transam com homens e mulheres, o que talvez seja resultado da Educação Sexual pensada apenas pelo viés da reprodução dentro dos espaços educativos. De todo modo, o dado reforça a necessidade de se continuar pesquisando o papel dos aplicativos nas culturas e práticas sexuais de jovens gays e HSH, assim como a de pensar sobre prevenção.

Quanto vale um jovem?

Por Jonathan Moreira, da Agência Jovem de Notícias São Paulo

“Acordo. Almoço. Toma um banho. 23 minutos. Peço benção pra minha mãe. Enfrento ônibus lotado. Depois de 2 horas chego à Universidade. 23 minutos. Estudo. Sinto o meu “atraso” na aula. Vejo o reflexo de anos de escravidão. 23 minutos. Enfrento fome e desemprego. Volto pra casa. No escuro da cidade que me atravessa, bato a cabeça cansada na janela meio suja, mas que aparentemente se torna o melhor lugar. Chego em casa. 23 minutos”.

Com pausas bruscas e com a angústia de saber/sentir que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, começo meu texto.

Hoje é o dia Internacional da Juventude, data que não é recebida com cerimônias ou mensagens em peso na internet. As vezes é tratado com verdades estabelecidas e, quando muito, apenas um discurso biológico e cientificista. Achar que o conceito de juventude sempre esteve presente e inato em nossa sociedade é um erro, assim como acreditar que toda perspectiva sobre ser jovem é igual. Mentiras que são postas nesta sociedade, em que o disparate verbal se torna mais importante que o fato histórico em si.

O jovem é uma figura muito recente em nossa sociedade, se colocarmos em uma perspectiva histórica, e quando este é posto como um sujeito de direitos e com especificidades, o negócio fica mais louco ainda. Pois muitas vezes nós jovens somos considerados, simplesmente, como uma fase de transição, na qual nossa única capacidade é  aprender com os mais velhos para tornarmos adultas as ideias.

Recipientes vazios que são preenchidos com uma sabedoria que estampa e canta experiências e conhecimentos. Mas não é assim. A partir do momento que o ser humano nasce, suas relações com o espaço, o tempo e com as pessoas, já geram muitas experiências e conhecimentos que devem ser levados em conta. Não que exista alguma verdade extremamente absoluta. Mas o espaço de compartilhamento deve ser estabelecido.

O fato dos nossos corpos e percepções a respeito o mundo estarem em constante movimento, não diz que somos simplesmente inocentes e ignorantes. Estamos em um momento especial de nossas vidas, com grandes transformações e relações, que não dizem apenas sobre o corpo físico, mas que transbordam.

Percebo que o desejo do controle total sobre as escolhas do corpo jovem é uma forma de garantir o controle social, pautado em ideias que conservam diversas violências, como desigualdades de gênero e raça. Pensamentos que configuram o país como uma máquina de matar. O Brasil ocupa a sétima colocação em número de assassinatos de pessoas entre 15 e 29 anos no mundo, morte que tem cor, gênero e classe.

Ademais, quando colocamos o jovem negro em questão, as percepções mudam significativamente. Pois enquanto alguns estavam lutando pela garantia dos direitos da juventude, adolescentes e jovens negros lutavam pelo reconhecimento de serem humanos. Quando vemos em manchetes de jornai que os brancos são considerados “jovens” e os negros “menores infratores”, entendemos a significação do corpo negro.

Pelo fato de estarmos alicerçados em um contexto racista e escravocrata, que é ignorado por muitas figuras públicas, somos vistos apenas como mão de obra e força produtiva, privados dos direitos dignos de todo ser humano. Somos uma “nação” que se alimentou em peitos de garotas pretas que, antes de se (re)conhecerem, eram transformadas em mulheres, em plenas agressões, que escorrem em nossa atualidade.

 Quando decidi fazer faculdade recebia e ainda recebo muitos olhares surpresos.  Grande parte dos meus amigos de infância estão ralando desde muito cedo, trabalhos informais para conquistarem sua independência financeira. Jovens pobres que muitas vezes não têm a oportunidade de viveram diversas experiências, espaços e conhecimentos, pois precisam contribuir com a renda familiar. Estão entregando folhetos, vendendo água no trem e no trânsito, ajudando em serviços braçais, cuidando de crianças, fazendo faxinas.

Ou estão sendo assassinados no tráfico por uma violência policial cruel e um Estado que trata o corpo jovem negro como marginal, individualiza todas as suas escolhas e ações, como se tudo dependesse exclusivamente dele, ofusca as diversas subjetividades e desigualdades sociais que trilham “muito bem” o caminho deste jovem. Assim como tumbeiros que cortaram este grande mar com lágrimas salgadas. PAUSA. 23 minutos. “ELE NÃO VIU QUE EU ESTAVA COM O UNIFORME DA ESCOLA”. Marcos Vinicius da Silva, 14 anos. Ou só mais um Silva. De pele escura. É assassinado por forças policiais e do Estado.

Este sistema vigente está cada vez mais usando ferramentas meritocráticas para não se responsabiliza pelass dívidas e deveres sociais. Não ponderam as desigualdades  de gênero, raça e classe. Como se tudo dependesse apenas de você, apagam qualquer resquício histórico. O “fracasso” não é um problema exclusivamente individual, não empurra só você. Leva também  pessoas com histórias semelhantes a sua.

Mas enquanto não verem as experiências dos jovens além da carteira assinada, enquanto não perceberem nossa potencialidade, ouvirem nossas contribuições sem classificar como “ele não sabe o que está falando”. Enquanto não houver reparações histórias para jovens negros e pobres será muito difícil arranjar um trampo. E por fim, estabelecer uma juventude que vivencia e contribui ativamente para o desenvolvimento do país e do mundo parece uma tarefa intensa, mas saiba que existem muitos movimentos de jovens lutando por maior participação na política, em ONGs, associações, famílias… Para construírem juntos, caminhos menos tortuosos.

As violências acometem adolescentes LGBT da mesma forma?

Por Tulio Bucchioni, Antropólogo e pesquisador na área de gênero e sexualidade 

Interseccionalidade. Você já ouviu falar nesse conceito? Essa palavra enorme tem uma história ainda mais longa: sua origem remete ao movimento feminista negro norte-americano das décadas de 70 e 80. A ideia de que a identidade e a nossa experiência no mundo são marcadas por fatores múltiplos e interseccionais, relativos a nossa posição de classe, nossa raça/cor, nossa sexualidade, nossa geração ou nacionalidade, entre outros aspectos, deu origem ao termo interseccionalidade.

A especificidade da intersecção de categorias é o que faz as vivências, o campo de possibilidades, as referências e a trajetória de vida de um jovem gay, negro e pobre serem muito diferente daquelas de um jovem gay, branco, de classe média. Nesse sentido, acreditamos que para combater efetivamente as desigualdades, é preciso se pensar interseccionalmente. Não basta combater a LGBTfobia se não combatemos o racismo em nossos ambientes escolares e espaços educativos – um jovem LGBT branco não está imune de reproduzir atitudes e pensamentos racistas, ainda que saiba o que significa ser oprimido.

A todo momento associamos a diversidade com a população LGBT. Na maioria das vezes, essa associação diz respeito a expressões e vivências de identidade de gênero e da sexualidade não-normativas, não heteronormativas. Mas, e quanto a diferenças raciais e diferenças sociais entre a população LGBT? É fundamental aprofundar a discussão sobre a experiência do que é ser gay ou lésbica e negro, do que significa ser uma pessoa trans e ter sua renda e capacidade de sobrevivência impactada pelas condições desafiadoras de estudo e de empregabilidade no Brasil, por exemplo.

Nesse sentido, acreditamos que o conceito de interseccionalidade é uma ferramenta fundamental para todas as pessoas que trabalham com educação. Para encorajar você a compreender melhor essa ideia, sugiro duas leituras acadêmicas que abordam o assunto:

MOUTINHO, Laura. Diferenças e desigualdades negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas recentes. Cadernos Pagu, Campinas, 2014, n.42, p. 15. Clique aqui e acesse a fonte. Acesso em: dezembro de 2015.

PISCITELLI, Adriana. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras. Sociedade e Cultura, Goiania, v.11, n.2, jul/dez. 2008. Clique aqui e acesse a fonte.