Brilharê Première: afeto e artHVIsmo no lançamento de criações educomunicativas sobre viver com HIV/Aids

No último domingo de abril, a Casa Farofa, no centro de São Paulo, virou ponto de encontro para trocas profundas, escutas coletivas e brilho. Muito brilho. A Brilharê Première reuniu familiares, organizações, amigos e amigas para celebrar os lançamentos de dois produtos criativos produzidos no contexto da Agência Educomunicativa PositHIVa Pra Brilhar, projeto da Viração Educomunicação com a Coordenadoria Municipal de IST/Aids da Prefeitura de São Paulo. Mais do que um lançamento, foi um rito de passagem — um marco simbólico da potência de dois meninos pretos, trans e periféricos, que decidiram contar histórias que atravessam seus corpos e territórios com sensibilidade, beleza e coragem.

Ali estavam Kawan Freitas, diretor do curta-documentário “Pessoas que Vhivem”, e Kairo Rudah, autor do Diário de Oficinas Educomunicativas LACRE e do zine artístico que o acompanha. As obras, tão distintas em linguagem quanto complementares em força, trazem ao centro vivências ainda silenciadas quando o tema é HIV/Aids — e fazem isso pela via do afeto, da escuta e da criação educomunicativa.

Kairo Rudah e Kawan Freitas posam antes do evento. Foto: Teresa Cristina

“Precisamos olhar com o mesmo carinho que temos por nós mesmos”

O filme de Kawan Freitas nasce de descobertas. Realizar um documentário nunca tinha sido uma possibilidade concreta em sua trajetória até então. Mas quando se viu imerso nas formações, foi percebendo que a câmera também pode ser uma ferramenta de escuta e denúncia. Em “Pessoas que Vhivem”, ele apresenta depoimentos de jovens que vivem com HIV/Aids, enfrentando não só o estigma, mas também a negligência das instituições de saúde. “Os espaços não estão preparados para receber essas pessoas, principalmente quando são jovens, pretas, periféricas”, diz.

Mais do que apontar problemas, Kawan se preocupou em criar um ambiente de acolhimento. “Quis pensar no conforto de quem fosse assistir, para que sentisse um afeto — mesmo que pouco e desconhecido. O filme é pra provocar, mas também para acolher.”

Ele também compartilhou como foi se ver como diretor de um filme pela primeira vez. “Nunca me imaginei nesse lugar, mas a formação me deu essa possibilidade. Agora sei que posso. Que posso contar histórias com a minha lente, com o meu olhar.”

Familiares, convidados de organizações, amigos e amigas assistem a pré-estreia de “Pessoas que VHIVem”. Foto: Teresa Cristina

Quando questionado sobre a principal mensagem do filme, ele responde com ternura: “Que a gente olhe pras pessoas com o mesmo carinho e afeto que temos por nós mesmos. Mesmo que seja difícil até ter esse olhar com a gente.”

ArtHVIsmo

O Diário de Oficinas Educomunicativas LACRE é uma obra artesanal, sensível e potente, que nasce a partir de oficinas realizadas por ele com jovens e adultos em espaços públicos, como unidades de saúde e equipamentos culturais. Durante os encontros, Kairo propôs rodas de conversa, dinâmicas e experimentações gráficas para pensar o HIV/Aids a partir da linguagem do artHIVismo — essa fusão entre arte e ativismo. 

A partir do que emergia nas oficinas, ele estruturou o diário como uma espécie de caderno de campo expandido, onde registros, frases soltas e reflexões ganham corpo e cor. Um produto híbrido entre fanzine, colagem, poesia e manifesto educomunicativo, resultado de um processo autoral e de campo.

“Eu queria registrar esses encontros sem que virassem relatório frio. Queria um espaço onde essas falas ganhassem outro tipo de presença. Um espaço para memória, para dor, mas também para o riso, para a dúvida, para o afeto.”

Para Kairo, o processo foi também uma forma de fortalecer sua própria escuta, refletindo sobre o HIV e sobre como a arte pode ser um canal de resistência e transformação. “A educomunicação me fez entender que posso me comunicar do meu jeito, que posso passar uma mensagem do meu modo, respeitando minha linguagem e meu corpo.”

Em seu diário, ele escreve sobre os aprendizados, compartilha provocações e nos convida a imaginar outras formas de cuidar. Como diz: “Não quero falar sobre HIV como um fardo. Quero falar como quem oferece o braço pra caminhar junto.”

Capa do zine autoral de Kairo Rudah. Foto: Teresa Cristina

Além do diário, Kairo também criou um zine independente, autoral do começo ao fim. Ali, exercita sua liberdade poética, experimenta com formas e imagens, escreve com a alma. “O zine é meu grito. Meu manifesto. Um lugar onde posso falar sem pedir licença.”

Produzindo inteligências e memórias

A Agência Pra Brilhar é uma iniciativa que promove ciclos de formação educomunicativa com juventudes LGBTQIAP+ da cidade de São Paulo, especialmente negras e periféricas. Ao longo das oficinas, temas como gênero, sexualidade, direitos humanos e prevenção combinada ao HIV/Aids são debatidos a partir das vivências e vozes dos participantes. Ao fim de cada ciclo, são produzidos conteúdos criativos — como o filme de Kawan e o diário de Kairo — que expressam essas trajetórias.

No encerramento do evento, Ellen de Paula, coordenadora da Viração, resumiu a potência do que foi vivido ali:

“Estamos aqui para prestigiar dois jovens negros, trans, criadores, que estão produzindo inteligências, memórias e criando possibilidades de dialogar com outras juventudes.”

Ellen de Paula bate papo com Kawan Freitas sobre o filme documentário “Pessoas que VHIVem”. Foto: Teresa Cristina

A noite terminou com abraços, risos, lágrimas discretas, trocas de contatos e promessas de encontros futuros. A sensação era de que algo ali havia sido plantado — e que, com o tempo, vai florescer em outros lugares, corpos e territórios. Porque quando a juventude preta, trans e periférica cria, ela não apenas ocupa espaços: ela reinventa o mundo.

Texto e fotos: Teresa Cristina Silva

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