Adolescentes apontam violências cotidianas na Grande São Paulo

O Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, em parceria técnica com a Rede Conhecimento Social, ouviu mais de 700 adolescentes sobre o tema e aponta urgência por políticas de proteção. Lançamento da pesquisa acontece em live no canal do Unicef Brasil no YouTube

Múltiplas violências, em múltiplos ambientes, fazem parte da vida cotidiana de adolescentes e jovens da Grande São Paulo. A grave situação é apontada por 747 adolescentes e jovens, entre 12 e 19 anos, moradores da Região Metropolitana de São Paulo, ouvidos no período de janeiro a fevereiro de 2021. Lançada nesta semana, a escuta “Violências no cotidiano de adolescentes na Grande São Paulo” foi realizada por iniciativa do Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na Adolescência (CPPHA) em parceria técnica com a Rede Conhecimento Social. O material completo pode ser acessado abaixo:

A escuta revela que as violências contra as(os) adolescentes se repetem nos mais diversos ambientes da vida diária – incluindo aqueles que deveriam ser espaços de proteção. Oito em cada dez adolescentes consultados indicam ter visto pelo menos uma situação de violência contra adolescentes na escola; três em cada dez, nos serviços de saúde; e um em cada dez, nos serviços de assistência social. A própria casa foi indicada por três de cada dez adolescentes ouvidos. Já viram violência contra adolescentes na internet e nas ruas cerca de nove entre cada dez entrevistados.

São várias as experiências de violência marcando o cotidiano dos adolescentes. De forma extrema, um em cada cinco entrevistados indica ter perdido alguém próximo, de até 19 anos, vítima de homicídio. Abuso sexual, agressão física, bullying, racismo e LGBTfobia são violações conhecidas por muitos das(os) adolescentes.

“O homicídio é muitas vezes o desfecho extremo de uma série de violências e violações de direitos. Não podemos deixar as múltiplas violências paralisarem os jovens, fazendo com que eles deixem de se desenvolver e de aproveitar oportunidades. Estar na escola ou acessar um serviço de saúde ou assistência deveria ser sempre sinônimo de proteção. Se não é, precisamos urgentemente mudar isso”, afirma a deputada estadual Marina Helou (Rede), que preside o CPPHA.

Racismo e violência de gênero

O estudo confirma também as desigualdades: ser adolescente negro, mulher ou LGBTQIA+ intensifica ainda mais a vivência de violências na Grande São Paulo. Ao todo 25% das mulheres e 37% dos entrevistados que se identificam como LGBTQIA+ reportam já ter sofrido violência sexual (entre homens, são 8%). Ao mesmo tempo, 40% dos respondentes LGBTQIA+ apontam ter sido vítimas de agressão verbal de alguém da família.

O recorte racial, por sua vez, deixa claro o quanto a vida pública é mais violenta para adolescentes negros: 36% dos jovens respondentes que se declaram pretos dizem já ter sido seguidos ou abordados no supermercado, algo que só 11% dos respondentes brancos relata. Ao todo, 57% dos respondentes que se declaram pretos reportam já ter sofrido racismo. O racismo também marca a relação com os agentes de segurança pública. Nos primeiros dois meses de 2021, 10% dos respondentes negros foram abordados pela polícia, duas vezes e meia mais do que entre os respondentes brancos.

“É essencial reconhecer que adolescentes negros, mulheres, LGBTQIA+ são sistematicamente mais afetados pelas violências cotidianas. Precisamos ouvir com atenção os próprios adolescentes e avançar em políticas concretas para superar o racismo estrutural e a violência baseada em gênero. Precisamos construir cidades que protegem e dão oportunidades a cada adolescente”, alerta Adriana Alvarenga, chefe do escritório do UNICEF em São Paulo.

A escuta foi realizada de forma inovadora para subsidiar o trabalho do Comitê e de seus parceiros na prevenção da violência letal contra adolescentes, amplificando a voz dos jovens sobre sua própria situação. Foi usada a metodologia PerguntAção, que promove a construção participativa de todas as etapas de uma pesquisa, por meio de oficinas práticas, trazendo o próprio público pesquisado como coautor dessa produção de conhecimento.

“É muito potente ter os adolescentes não só como consultados, mas também como pesquisadores dessa temática, trabalhando conosco desde o planejamento até a análise dos resultados. É um processo que dialoga diretamente com um dos dados mais marcantes dessa escuta: 91% dos adolescentes concordam que, apesar de ser um assunto chato, é preciso falar sobre a violência que os afeta duramente; ou seja, adolescentes têm necessidade de falar sobre o tema, querem e precisam se ouvir uns aos outros e ser mais ouvidos”, afirma Marisa Villi, diretora executiva da Rede Conhecimento Social.

O relatório final com os resultados da perguntAção será lançado em transmissão ao vivo programada para o dia 08 de julho, a partir de 15h30, no canal do Unicef Brasil no YouTube, com a participação de Adriana Alvarenga (Unicef), Marina Helou (Deputada Estadual e presidente do CPPHA), Marisa Villi (Rede Conhecimento Social) e jovens pesquisadores da consulta.

Busca de soluções

Para além de reportar as violências, os adolescentes e jovens ouvidos pela consulta apontam soluções. Para 43%, é necessário investir mais em campanhas contra o racismo e 37% defendem campanhas pela igualdade de gênero, questões que se refletem nas diversas formas de violência. O acesso a oportunidades também é essencial para os jovens para a prevenção das violências. Dezenove por cento afirmam ser importante a oferta de vagas de emprego para áreas periféricas e não somente nas regiões centrais e 34% defendem a criação de espaços para que os adolescentes possam se reconhecer e apresentar suas ideias.

A partir dessas soluções apontadas, torna-se possível um cotidiano com menos violências e mais propício para a construção de um futuro, pois 49% dos respondentes sonham em trabalhar com o que gostam. E, apesar do medo de não se inserir no mercado de trabalho (33%) ou não ter qualificação suficiente (21%), 92% dos adolescentes e jovens acreditam que vão realizar seus sonhos relativos à educação e ao trabalho.

Perfil Marina Helou

Deputada Estadual de primeiro mandato em São Paulo pela Rede Sustentabilidade. Administradora Pública, formada pela EAESP-FGV (Fundação Getúlio Vargas) e especialista em negócios e sustentabilidade pela Fundação Dom Cabral/Cambridge University. Trabalhou na Natura, onde foi responsável pela criação da área de diversidade. Fundadora da Rede Empresarial de Inclusão Social e do movimento Vote Nelas.

Fez parte dos movimentos RenovaBR e RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade). Tem 32 anos, é mãe do Martin e da Lara. Suas principais pautas são: Primeira Infância, Meio Ambiente,
desenvolvimento sustentável, Prevenção de Homicídios na Adolescência e mais mulheres na política.

Sobre o Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na Adolescência

O Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na Adolescência (CPPHA) é uma iniciativa tripartite e suprapartidária que tem como partícipes a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Governo do Estado de São Paulo, representado pela Secretaria de Justiça e Cidadania, e que visa à prevenção da violência fatal de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos no estado de São Paulo.

Sobre a Rede Conhecimento Social

A Rede Conhecimento Socialé uma organização sem fins lucrativos que concebe, planeja e implementa diferentes abordagens de construção de conhecimento por meio de colaboração, cocriação e compartilhamento de saberes, utilizando estratégias participativas e metodologias desenvolvidas pela multiplicidade de pessoas que compõem a rede. Atendimento à imprensa: Jéssica Costa: (11) 99158 4482 – jessica.costa@conhecimentosocial.org.

Sobre o UNICEF

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) trabalha em alguns dos lugares mais difíceis do planeta, para alcançar as crianças mais desfavorecidas do mundo. Em 190 países e territórios, o UNICEF trabalha para cada criança, em todos os lugares, para construir um mundo melhor para todos.

Atendimento à imprensa:

  • Gabriela Clemente – Gabinete Deputada Marina Helou (11 9 9541 3452 –
    imprensa@marinahelou.com.br)
  • Jéssica Costa – Rede Conhecimento Social (11 9 9158-4482 –
    jessica.costa@conhecimentosocial.org)
  • Mayara Barbosa – UNICEF (12 98825 7385 – mdealmeida@unicef.org)