O que marca as experiências das juventudes brasileiras?

 

“O jovem não sabe o que quer” ou “Os jovens são o futuro do país”. As concepções tradicionais sobre as juventudes giram em torno dessas duas frases, ora limitando sua possibilidade de atuação, na primeira afirmação, ora delegando muita responsabilidade, na última.

As juventudes, em suas inúmeras facetas, são marcadas por contradições, dentre elas a construção da emancipação emocional, social e financeira e a dependência da família.

A verdade é que adolescentes e jovens não estão isolados do contexto onde vivem, não estão “passando por uma fase” e nem vivendo um constante conflito geracional. Estamos falando de sujeitos de direitos que vivem uma condição peculiar de desenvolvimento, e por isso, possuem demandas específicas. Sim, possuem condições de participarem da vida pública, dando suas opiniões e ajudando a construir as soluções para melhorar o país.

Bom, é quando a compreensão de adolescentes e jovens ultrapassa a questão geracional e etária, que a juventude surge como um tema para a sociologia. O campo da Sociologia das Juventudes passa então a avaliar as experiências sociais, culturais e políticas das juventudes, a partir de suas experiências como sujeitos, não apenas de sua faixa etária.

No Brasil, uma das principais pesquisadoras sobre o tema é a socióloga Regina Novaes. Em seu artigo Juventude e sociedade: jogos de espelhos, publicado na Revista Sociologia Especial em 2007, a autora busca evidenciar o contexto em que vive a juventude contemporânea a partir de seus principais medos: o medo de sobrar, o medo de morrer e o medo de se desconectar.

Mas, afinal, que medos são esses e porque eles marcam as experiências das juventudes na sociedade brasileira?

Medo de se desconectar

O jovem no século XXI vive num mundo em que, ao mesmo tempo que a tecnologia avança desenfreadamente, a desigualdade e exclusão social persistem e se agravam.

“Nunca houve tanta integração globalizada e ao mesmo tempo, nunca foram tão agudos os processos de exclusão e profundos os sentimentos de desconexão”, afirma Regina em seu artigo.

Estar online ou ligado nas televisões, computadores, celulares e redes sociais não garante inclusão. No entanto, não ter acesso a esses recursos também é sinal de não pertencimento.

Assim, os jovens têm medo de se desconectar, tanto da tecnologia, quanto da realidade fora da rede.

Medo de sobrar

A concepção moderna de juventude tem a escolaridade como etapa fundamental da passagem para a maturidade, mas sabemos que ela não se dá de forma homogênea. Na prática, a grande maioria dos jovens começa a trabalhar antes da fase adulta, alguns em busca da emancipação financeira e muitos em busca da sobrevivência pessoal e familiar.

No entanto, os avanços tecnológicos, a globalização e a dinamicidade do mercado de trabalho fazem com que jovens sintam-se inseguros em relação ao trabalho. Rápidas transformações econômicas, precarização das relações trabalhistas e a não garantia de inserção no mercado, tornam angustiantes as expectativas para o futuro. Daí o medo de sobrar.

Para Regina, a chave está na elaboração de políticas públicas que considerem as diversidades e especificidades das juventudes brasileiras e da condição juvenil.

“Fala-se do trabalho como espaço de realização humana. Contudo, ao mesmo tempo, também não pode ignorar os medos e as angústias dos jovens, cuja inserção econômica é condição para a emancipação”, explica.

Medo de morrer

Por último, as perspectivas dos jovens, em especial os brasileiros, no século XXI é muito diferente das perspectivas dos jovens de outras gerações. Se antes a juventude era associada ao gosto pela aventura, por correr riscos, justamente porque ser jovem era sinônimo de “estar longe da morte”, hoje a morte é um dos principais medos que marcam a experiência de jovens no país.

No Brasil, a cada 1000 jovens, 3 são assassinados antes de completar 19 anos. Segundo o Mapa da Violência de 2011, a taxa de mortalidade juvenil passou de 128 a cada 100 mil habitantes, em 1998, para 133, em 2008. Ao mesmo tempo, a taxa de homicídios para a população geral caiu de 633 em 100 mil habitantes, em 1980, para 568, em 2004.

“Assim, o medo de morrer prematuramente e de forma violenta também povoa transversalmente o imaginário desta geração”, conclui Regina.

O Jovem sujeito de direitos

Para a superação desses medos é preciso criar políticas públicas para as juventudes que considerem tanto seus diferentes contextos socioeconômicos e culturais, quanto suas questões subjetivas.

Dessa forma, desconstrói-se a ideia de que o jovem está desconectado da realidade, ou é o único responsável por seu futuro, ao mesmo tempo em que se retira a responsabilidade atribuída a toda uma geração, de resolver os problemas do país.

Para discutir esse tema com adolescentes e jovens, a Viração desenvolveu uma atividade abordando os três medos da juventude brasileira, sistematizadas por Regina Novaes. A atividade é um ótimo gancho para promover o debate sobre juventude enquanto categoria social, e sobre o entendimento de jovens como sujeitos de direitos.

Confira a proposta de atividade aqui.

A Viração

Através de encontros de formação, da mobilização social e da produção de produtos educomunicativos, a Viração Educomunicação estabelece e cultiva espaços de participação para que os jovens expressem seus desejos e angústias, e possam participar ativamente da sociedade e das decisões que os cercam.