Juventude e Cinema: Conheça o virajovem Gabriel

Gabriel Santos tem 17 anos, uma atitude positiva e olhar sonhador, mora no centro de São Paulo e faz parte do projeto Agência Jovem de Notícias. Apesar de se interessar por diferentes expressões artísticas como a fotografia, o teatro e as artes visuais,sua verdadeira paixão é o cinema.

Quem o conheceu quando criança,no entanto, não poderia imaginar que Gabriel se tornaria um especialista no assunto. Ele não gostava de cinema. Bom, isso até o dia em que seu tio lhe apresentou filmes alternativos e explicou o que havia por trás de cada história.Desde então, a sétima arte faz parte de seu universo e de sua subjetividade.

O primeiro filme que o marcou foi “Corra, Lola corra” (Tom Tykwer,1998). Gabriel tinha apenas oito anos quando assistiu o longa na casa do tio, que o fez observar todos os detalhes e a psicologia da obra. Ele achou incrível. Então, seu tio propôs o mesmo exercício a partir dos filmes da Pixar,como “Procurando Nemo” e “Carros”. Foi quando Gabriel entendeu porque não gostava de cinema até então: “Tinha achado os filmes muito ruins, todos parecidos e com historias rasas”.

Mais tarde, Gabriel se apaixonou pelos filmes de Alfred Hitchcock. “Achei geniais as técnicas dele e amei o fato dele conseguir colocar sempre nos filmes algo que você acha que é inocente e que no final não é, como acontece em Psicose”. E foi a partir de Hitchcock que Gabriel começou a estudar e se aprofundar em cinema.

Ele gostou tanto da área, que no próximo anopensaem cursar Cinema na Faculdade Armando Alvares Penteado, em São Paulo, uma das melhores faculdades de cinema do Brasil. O maior interesse de Gabriel é trazer de volta ao cinema atual, as técnicas de filmes das décadas de 20 e 30, como acontece no cinema alternativo.

“Geralmente, no cinema, a forma de filmagem é pré-estabelecida, até os roteiros seguem os mesmos formatos. No cinema alternativo nada disso acontece, você pode misturar e fundir técnicas sem explicitar”, explica.

Como exemplo de cinema alternativo, Gabriel cita “Dogville” (Lars von Trier, 2003). O filme lhe chamou a atenção pela simplicidade dos cenários e cortes de cenas nada convencionais. Todo o longa foi gravado dentro de um galpão na Suécia,usando o mínimo de artefatos. Há apenas marcações no chão indicando a casa ou o jardim de um personagem, o que é conhecido como cenário conceitual. “Chega uma hora do filme que você não percebe mais que não tem ruas, parede, que não tem nada”.

Apesar de amar cinema, Gabriel questiona a representatividade de adolescentes e jovens nas produções. Sua crítica se embasa em filmes voltados para o público adolescente, como “Curtindo a vida adoidado” (John Hughes, 1986).

“Trata-se de um filme pipoca que não traz uma representação do ‘ser jovem’ como algo difícil de lidar, mas como uma coisa divertida. De fato, o filme conta o que muitos jovens fazem até hoje: contar umas mentirinhas aos pais, querer sair pra festas, esse tipo de coisa”. Esse perfil de filme era febre nos anos oitenta, talvez porque as produtoras perceberam que os jovens formavam grande parte do público.

No entanto, Gabriel acredita que o jovem ainda é mal representado no cinema, “o que existe hoje é você transformar personagem em figuras mais juvenis, para o publico se identificar, como aconteceu com Percy Jackson”.

O clube dos cinco” é outro filme dos anos oitenta produzido por John Hughes que tem adolescentes como protagonistas. Mas para Gabriel, esse longa é mais representativo da juventude.

Ele confessa que os personagens são estereótipos puros, – Allison (neurótica) é uma mentirosa compulsiva, Andrew (atleta) é inseguro e pressionado por seu pai sobre carreira de atletismo, John (marginal) vem de um lar abusivo, e Brian (gênio) e Claire (patricinha) se envergonham da virgindade. No entanto, para Gabriel o filme explora os comportamentos dos personagens, o que o torna mais real e complexo.

“O filme mostra porque eles são assim, o que tem por trás dos comportamentos deles, como as relações tensas com os pais e o medo de cometer os mesmos erros que os adultos à sua volta”.

Sobre cinema e juventude, Gabriel acredita que há casos em que os diretores são mais jovens, mas geralmente a crítica é mais velha e composta por pessoas que já fazem parte da academia, com maiores poderes e experiências.

Para ele, a solução é garantir a representatividade de adolescentes e jovens em espaços de discussão e crítica sobre o cinema. “Com certeza a crítica seria diferente se fosse feita por jovens: eles têm menos conhecimento sobre a história do cinema, mas têm outras referências e podem ser mais criativos, trazendo ao cinema ideias inovadoras”, afirma.

Não se sabe o final dessa trama, apenas que as possibilidades para Gabriel são muitas. Pode-se afirmar, no entanto, que há uma obra independente sendo co-roteirizada no Brasil: a luta para que adolescentes e jovens ocupem cada vez mais espaços de fala, seja na arte, na rua, na escola ou na política.

A exibição será gratuita.