Juventude, raça e gênero: conheça a virajovem Anita

Anita vive em São Paulo, tem 19 anos e a capacidade de falar sobre assuntos complexos de uma forma segura e tranquilizadora. Seu discurso carrega marcas dos temas que mais gosta de discutir e pelos quais transita muito bem: gênero e raça.

Quando criança, Anita estudava numa escola particular onde as únicas pessoas negras eram ela e suas duas irmãs. “Eu era criança e achava normal, nem notava isso. Crescendo, comecei a enxergar as coisas de outra forma e quando estava no último ano do colégio isso começou a ser uma questão pra mim. Foi quando parei de alisar meu cabelo e comecei a pôr tranças”.

Antes de se reconhecer como mulher negra, Anita achava que falar que o outro é “negro” era uma coisa ruim. Quando era pequena, ela e os primos se xingavam com expressões como “estopa suja” ou “flanela de borracheiro”. De fato, tudo o que está associado ao “negro” é negativizado no Brasil: lista negra, mercado negro, denegrir… Essas expressões reforçam e refletem o racismo normalizado na sociedade.

Uma das coisas que ajudou Anita nesse processo de reconhecimento foi o teatro. Entre tudo que ela sempre gostou de fazer, tipo ouvir música, tocar flauta e fazer rolês culturais com os amigos, o teatro teve grande importância em sua vida.

Seu primeiro contato com o palco foi através de um curso de teatro no Centro Cultural do Jabaquara, onde atuou junto ao grupo “A Ordem do Caos”. Depois, fez um curso de audiovisual na organização “Aldeia do Futuro”, onde conheceu o coletivo Quizumba, que discute justamente gênero e raça.

Foi nessa época que ela parou de alisar o cabelo e começou a se reconhecer como uma mulher bonita. “Óbvio que eu já sabia que eu era uma mulher negra, porque todo mundo sabe disso o tempo inteiro, mas daí comecei a me dar melhor com essa situação”.

Graças ao coletivo negro, Anita começou a se aprofundar no debate racial. Frequentava rodas de conversa e eventos promovidos pelo espaço. Um deles foi o curso técnico de cenografia, que se propunha a discutir gênero e o mercado audiovisual. “É difícil trabalhar com cenografia sendo mulher. Nas entrevistas, por exemplo, é comum eles acharem que ‘é preciso de um homem’ para carregar a tapadeira, ou esse tipo de coisa”.

Toda a sua trajetória fez com que Anita e algumas amigas fundassem o coletivo “Consagradas”, no ano passado. A ideia nasceu da necessidade de oferecer oficinas relacionadas à audiovisual e mercado de trabalho para mulheres mais velhas da periferia de São Paulo.

Um dos objetivos do coletivo é fazer com que essas mulheres reflitam sobre as alternativas de trabalho e modos de vida, além de ficar em casa ou trabalhar como doméstica, atividades comuns entre elas. A Consagradas também se propõe a promover o debate sobre o que é ser mulher e qual é o papel da mulher na sociedade, partindo da premissa “o lugar da mulher é onde ela quer estar”, como diz a própria Anita.

 

Sobre ser negra e ser mulher

Anita afirma que o racismo associado ao gênero feminino vai além de estereótipos de beleza. “Tem a questão da hipersexualização também, tanto que a referência que muitas pessoas têm do Brasil é da mulher mulata no carnaval. Têm armas e defeitos de todos os lados: muitas mulheres negras sofrem por não estar no padrão de beleza e aquelas que têm um corpo considerado bonito sofrem também, porque todo mundo mexe com elas na rua.”

Infelizmente, muitas pessoas ainda acham que o racismo e o machismo não existem, ou que são simplesmente formas de vitimismo. Anita observa isso principalmente entre as pessoas mais velhas, mas afirma que os mais jovens não apenas reconhecem essas temáticas, como também as problematizam.

“A gente está se questionando sempre o porquê das coisas serem assim, por que não poderiam mudar, e se mobilizando para participar de um mundo mais igualitário, justo, humano e colaborativo. Sobretudo, estamos pensando numa forma de mudar o fato das mulheres negras terem uma posição de inferioridade em relação às outras pessoas, tentando construir políticas públicas que favoreçam as pessoas que têm minoria em direito.”

Ainda há muito a ser feito, mas Anita acredita que o debate e os discursos sobre gênero e raça na sociedade brasileira estão mudando. E ela percebe isso dentro da sua própria casa. Sua prima, por exemplo, com oito anos de idade fala que não precisa alisar o cabelo e joga futebol. O primo, de cinco anos, brinca de boneca e diz que “não tem problema nenhum”.

“Seria bom a gente não precisar dessas divisões, porque normal é a gente ser diferente e estar todo mundo bem consigo mesmo”, conclui Anita.