Juventude e hip hop: conheça o virajovem Octávio

Octávio Lobo tem 19 anos e mora em Taipas, zona oeste de São Paulo. Há alguns anos atrás, se juntou com amigos do bairro e fundou o coletivo “A Rua Fala”, que realiza eventos de hip hop na quebrada.

Hoje um dos gêneros musicais mais reconhecidos, para Octávio o hip hop não é apenas um estilo de música, é um estilo de vida: “quando conheci o hip hop, entendi que tinha tudo a ver comigo”.

Depois de concluir o Ensino Médio, Octávio começou a cursar Ciências Sociais na faculdade, pensando em profissionalizar sua atuação no coletivo. Para ele, ser produtor cultural era uma grande responsabilidade e ele precisava ter uma base de conhecimento.

Infelizmente, teve que interromper os estudos por questões financeiras. Ele não tem um emprego fixo e, por enquanto, seu trabalho é a música, o que é um grande desafio.

Bom, pra quem não sabe, o hip hop é um movimento cultural de luta e resistência que nasceu nos anos setenta nas periferias de Nova York, a partir de coletivos negros da época.

O movimento tem uma base musical de funk e soul e é constituído por quatro elementos: o MC (mestre de cerimônia), que é a pessoa que tem a voz, escreve as rimas e canta; o DJ (disk jockey), que é a pessoa que solta as músicas e agita o público pra dançar; o(a) grafiteiro(a); e o break dancer, que é o elemento da dança, da arte expressiva corporal.

Octávio explica que o hip hop chegou no Brasil por volta dos anos oitenta,mas ainda hoje a mídia e a sociedade o descrevem como algo sem sentido,algo marginal. Ele repara que essa palavra,“marginal”, geralmente é associada a algo ruim.

“Se você olhar ao sentido literal da palavra, ela quer dizer “morar à margem da cidade” e isso não pode ser considerado algo sempre ruim”, explica.

De fato, outros estilos musicais como o blues, o jazz e o rock, nasceram das, e nas periferias, a partir de movimentos negros, e só deixaram de ser vistos como parte de uma cultura inferiorizada, marginalizada,quando consumidas e apropriadas por pessoas brancas.

 

Representatividade no Hip Hop

O hip hop nasceu do povo negro, mas é feito pra todos que buscam uma mensagem de luta e resistência. Hoje em dia, por exemplo, as mulheres ganharam maior visibilidade no hip hop porque esse momento histórico é o momento da luta delas. Na verdade, sempre existiram mulheres no hip hop, mas ofato do hip hop ser um movimento negro não excluiu o fato de ser machista.”.

Octávio acha que a relação do hip hop com as juventudes se dá na troca de informações.Os jovens prestariam muito mais atenção nas mensagens de um cara que tá cantando num palco do que nos políticos falando, explica. Além disso, ele acredita que o hip hop vem da transgressão, da necessidade de romper com paradigmas, e que esse desejo está muito presente entre os jovens de todo o mundo.

O que Octávio busca passar através do hip hop é a valorização da autoestima: “às vezes, as pessoas são muito desacreditadas delas mesmas, acham que não conseguem fazer aquilo que desejam por causa da cor da sua pele, ou de não se sentirem representados na sociedade”, e o hip hop traz uma mensagem de força, ele conta.

Quando Octávio era mais novo, ele alisava o cabelo crespo porque achava feio, e o hip hop o ajudou a entender que não precisava mudar quem ele era para ser reconhecido e se reconhecer.“O hip hop me ajudou a reconhecer quem eu sou e a me aceitar do jeito que eu sou”.

Além disso, Octávio acredita que o hip hop é uma válvula de escape, para ele e para outros jovens, porque ajuda a não reprimir sentimentos negativos. “Se uma pessoa estiver com raiva, por exemplo, no lugar de fazer besteiras, escrever uma música de raiva e isso se torna algo que pode até ajudar outras pessoas na mesma condição.”

Apesar da rua ser o espaço do hip hop, mesmo com eventos acontecendo por toda a cidade de São Paulo, seria preciso que essas intervenções chegassem no mainstream da TV e nas redes sociais, alcançando um público maior.

Isso já está acontecendo e algumas pessoas, especialmente nos Estados Unidos, estão até criando “empresas” de hip hop. Octávio acha que isso pode ser uma coisa boa se os artistas não silenciarem a história da origem do hip hop.

Apesar de ainda não ser tão popular no Brasil, as pessoas envolvidas com o hip hop estão construindo a sua própria mídia:seus programas, canais no YouTube, páginas no Facebook, contas no Spotify e Soundcloud. Ainda há muito o que se fazer quando o assunto é acessibilidade, mas as mídias alternativas e as redes sociais são um bom ponto de início.