Na sala de aula

Como responder às novas demandas do jovem leitor digital?

Por Paula Bonfatti, Analista de Comunicação e Marketing da Viração

As tecnologias da informação e comunicação estão cada vez mais sendo incorporadas às tarefas cotidianas, à educação e ao processo de alfabetização. No entanto, ainda existe uma grande resistência à leitura online e digital, tanto das gerações passadas quanto das instituições de ensino, o que acaba deslegitimando a prática do leitor digital.

A verdade é que não existe uma maneira certa ou errada de leitura, mas sim diferentes formas de acessar diferentes linguagens – digital ou analógica. Observamos então, que o leitor nativo digital – aquele que nasceu e cresceu com as tecnologias digitais – se relaciona de uma forma diferente com a leitura. 

Para entender melhor os hábitos dos leitores digitais e como responder às novas demandas do jovem leitor, conversamos com a Letícia Reina, gestora pedagógica da empresa Guten, especialista em leitura digital.

1- Você acha que os “nativos digitais” (pessoas que nasceram na era digital) têm hábitos de leitura diferentes das gerações anteriores? O leitor que nasceu na era digital tem processos cognitivos diferentes do leitor “analógico”? Existe um melhor ou pior?

Os nativos digitais lidam com a leitura de um modo diferente, sim! A intimidade com a tecnologia e a facilidade de acesso aos diferentes recursos digitais faz com que esse novo leitor seja mais exigente com a dinâmica e o ritmo com que os textos se apresentam. Os novos textos que circulam nos meios digitais como áudios, vídeos, imagens animadas, memes, jogos, etc. têm um apelo multimidiático que desenvolve o multiletramento. Sendo assim, não existe um leitor melhor que o outro, o que existe são jeitos diferentes de acessar os textos com processos de interação com o texto que são mais rápidos e dinâmicos. Não devemos deixar de oferecer, no entanto, enquanto educadores, textos diversos aos nossos alunos nativos digitais. Minha reflexão sobre o tema é que devemos disponibilizar aos nossos alunos “nativos digitais” os mais diversos gêneros de texto, para que eles possam aprender e desenvolver processos cognitivos que os permitam ler um romance de maior fôlego, assim como navegar nos vídeos do Youtube, por exemplo.  

2- Hoje, muitas informações falsas têm um alcance e legitimidade maiores que informações de fontes confiáveis e oficiais. Você acha que a alfabetização digital (ou a falta dela) tem alguma relação com a famosa “era da pós verdade”?

Penso que estar alfabetizado digitalmente é estar preparado para buscar fontes confiáveis. A alfabetização digital deve garantir aos leitores uma postura de criticidade e questionamento do que se lê, atualmente, nas redes sociais. Um leitor proficiente e crítico, alfabetizado digitalmente, confere os fatos para se posicionar frente a um evento. A era da pós-verdade revela sim uma postura atual de pouca criticidade e argumento. As opiniões se formam sem base na história dos fatos e se acalora na emoção. Novamente, como educadora, acredito que os jovens devem ter contato com a diversidade textual que existe na sociedade e com os diferentes meios em que os textos circulam, mas com discernimento. É preciso que se estabeleça nas relações de ensino e aprendizagem estratégias que desenvolvam a competência de distinguir fato de opinião relativa a esse fato. Essa habilidade é fundamental na era da pós-verdade.  

3- Existe uma resistência, principalmente das gerações passadas, em legitimar a leitura digital. Como você acha que diferentes setores, como educação e cultura, respondem à isso?

Acredito que estamos ainda aprendendo a lidar com essa resistência! A resistência existe e fica evidente, por exemplo, em uma escola, entre os pais e os professores. Só há uma maneira de lidar com essa resistência: com o uso frequente dos recursos digitais. É no uso, com propósitos claros e definidos, que as pessoas vão perceber a leitura digital como um processo natural de leitura. A leitura digital é diferente, acessa distintos processos e mexe com a nossa atenção de modo diferente, mas é leitura! Não é menos importante por estar em um veículo digital. A resistência das pessoas passa por uma crença de que a leitura digital acontece em momentos de lazer, por fruição, com objetivo de diversão. E no entanto, é preciso entender que a leitura digital permite a construção de conhecimento e pode, e deve, estar a favor do desenvolvimento da criticidade.

4- Você acredita que a alfabetização digital forma leitores digitais ou isso se dá de maneira informal?

Acredito que um leitor digital se forma autonomamente, no uso e de maneira informal, quando há interesse e fascínio pelos recursos. Mas um leitor alfabetizado digitalmente, crítico, proficiente, que se posiciona diante do que lê, embasado em fatos e fontes confiáveis, esse se desenvolve com formação. Essa formação pode acontecer na escola, entre pares, em casa, na interação com os meios digitais, mas a criticidade se constrói nessa relação. É preciso conhecer as ferramentas digitais, fazer uso, ampliar a capacidade para o potencial que cada recurso digital oferece, para que o leitor possa ler e produzir de modo eficaz.

Tornando espaços educativos mais inclusivos

A deficiência é um tema de direitos humanos e, como tal, obedece o princípio de que todo ser humano tem o direito de desfrutar das condições necessárias para seu desenvolvimento.

Foi a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada em 2007, que reconheceu o valor de cada indivíduo, independente de sua funcionalidade, e apresentou linhas de ação que permitam que pessoas com deficiência vivam de forma independente e participem plenamente de todos os aspectos da vida.

No Brasil, 23,9% da população total têm algum tipo de deficiência – visual, auditiva, motora e mental ou intelectual. Dessas pessoas – que somam 45.606.048! – 7,53% têm de 0 a 14 anos e 24,94% de 15 a 64 anos. As dificuldades de acesso à educação, saúde, trabalho e mobilidade que enfrentam as pessoas com deficiência revelam a importância de políticas públicas inclusivas.

Na educação, as pessoas com deficiência apresentam taxas de alfabetização menores do que a população total em todas as regiões brasileiras. E apesar de toda pessoa ter direito à educação obrigatória e gratuita, 61,1% das pessoas com deficiência não têm instrução e fundamental completo no Brasil, enquanto a taxa para pessoas sem nenhuma deficiência é de 38,2%. É uma baita diferença, não é?

De acordo com o Relatório da Situação da Infância e Adolescência Brasileira do UNICEF, crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos com qualquer tipo de deficiência têm o dobro de chance de estarem fora da escola. Isso é consequência, entre outros fatores, da falta de transporte adaptado, escassez professores treinados, equipamento, material didático e acesso à infraestrutura de ensino adequado.

Entendemos que a educação é essencial para o desenvolvimento sustentável do país, e esse desenvolvimento depende da inclusão de todos e todas!

Com a ajuda do livro “Educação Inclusiva: o que o professor tem a ver com isso?”, selecionamos as dúvidas mais comuns entre educadore/as sobre educação inclusiva. Vamos lá?

1) O que o governo está fazendo para formar os/as educadores/as na temática de educação inclusiva?

Uma das maiores referências em capacitação a nível público nacional é a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) que, em articulação com os sistemas de ensino, implementa políticas educacionais nas áreas de alfabetização e educação de jovens e adultos, educação ambiental, educação em direitos humanos e educação especial.

O objetivo da Secadi é contribuir para o desenvolvimento inclusivo dos sistemas de ensino, voltado à valorização das diferenças e da diversidade, à promoção da educação inclusiva, dos direitos humanos e da sustentabilidade socioambiental, visando à efetivação de políticas públicas transversais e intersetoriais. Formações como, PROINESP (Programa de Informática Especial), Programa Educação Inclusiva, Formação em braile e libras, são algumas das informações oferecidas pelo Secadi. Materiais didáticos podem ser encontrados aqui.

2) Estes cursos são suficientes para formar o educador?

Na maioria das vezes não, porque não contemplam todos os professores e porque a formação deveria ser permanente, contínua, e não pontual como é hoje. Com as novas tecnologias, este recurso deve estar alinhado com as práticas apreendidas nas formações. Além dos espaços formais de formação de educadores/as, a troca de experiências com colegas de profissão é essencial!

3) O que é um/a professor/a especializado/a em educação especial?

É aquele ou aquela que desenvolveram competências para identificar as necessidades educacionais de cada aluno ou aluna! Esses professores promovem estratégias de flexibilização, adaptação curricular e práticas pedagógicas alternativas de forma a incluir o aluno ou aluna com deficiência.

Além disso, o professor especializado têm um papel muito importante na formação de outros educadores para o atendimento adequado dos alunos e alunas com deficiência.

Para se especializar em educação especial, o educador deve cursar faculdade de pedagogia com formação em cursos de licenciatura em educação especial, complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas de educação especial.

4) O que fazer quando o/a aluno/a com deficiência é discriminado em espaços educativos?

O aluno com deficiência precisa que sua diferença seja respeitada. E isso não significa que deve ter privilégios em relação aos outros colegas! O educador não pode negar a diferença, mas trabalhar com toda a turma para que a diferença seja compreendida como uma característica do ser humano e que ela não tira a dignidade de ninguém.

É importante lembrar que muitas vezes os recursos existem, mas o acesso a eles é dificultado por preconceitos, discriminação, negligência e falta de conhecimento sobre as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência. O papel de educadores e educadoras é lutar contra esses fatores que geram desigualdades, promovendo uma educação mais inclusiva e um mundo participativo e plural.

 

Por Jefferson Rozeno*

* Jefferson é estudante de jornalismo e estagiário em comunicação na Viração Educomunicação