Juventudes

Prática de sexo sem camisinha com parceiros casuais encontrados em aplicativos é maior entre jovens gays

Por Juliane Cruz, da Redação

Os aplicativos mobile, cada vez mais presentes nos smartphones dos jovens, apareceram como fonte de encontro para sexo casual sem camisinha em 100% dos casos entre jovens gays, número maior que entre homens que fazem sexo com homens e mulheres.

Entender as diferentes formas de se viver e experienciar a sexualidade é um dos caminhos para se pensar a prevenção e o combate ao HIV/aids de forma efetiva, estando de acordo com o que se faz presente nas diferentes realidades brasileiras.

Buscando traçar esse caminho, nasceu o Projeto Pra Brilhar, idealizado pela Viração e executado com apoio do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, com o objetivo de aperfeiçoar a ação coletiva e as políticas públicas para o combate ao HIV/aids na cidade entre os jovens gays e homens que fazem sexo com homens (HSH), visto que é o grupo de pessoas que enfrenta um crescimento exponencial na ocorrência de novos casos.

O projeto reúne jovens selecionados por critério de classe e cor, que se encontram semanalmente para debater sobre gênero, sexualidade e prevenção combinada em intersecção com raça e classe, buscando refletir sobre e realizar o combate ao HIV/aids numa abordagem interseccional e educomunicativa.

Entre as atividades realizadas, aconteceu a pesquisa intitulada “Práticas e culturas sexuais de jovens frequentadores do Arouche”, realizada no Largo do Arouche, em junho deste ano. As questões foram desenvolvidas pelos jovens do projeto e trouxeram como resultado dados interessantes. Foram entrevistados 20 jovens, dos quais 19 se identificam como homens. Confira os resultados da pesquisa.

Segundo Tulio Bucchioni, educador responsável pelo projeto, a abordagem entre pares é uma dimensão importante do Pra Brilhar. “Idealizada e realizada no âmbito do projeto Pra Brilhar, a pesquisa adotou a perspectiva de educação entre pares contando, portanto, com a participação da juventude do projeto em todas essas etapas”.

Além disso, o educador explica que a abordagem entre pares possibilita dialogar com públicos que muitas vezes o sistema de saúde não atinge, com proximidade, empatia e uma linguagem mais acessível.

Cenário geral

A maioria dos entrevistados (55%) afirma ter transado sem camisinha no primeiro semestre de 2018. Ainda que o sexo sem camisinha aconteça com parceiros fixos em pouco mais da metade dos casos (54,5%), 45,5% dos jovens afirmam ter transado sem camisinha com parceiros casuais.

Ainda que a maioria dos entrevistados afirme transar com homens, a prática sexual com mulheres e homens é relevante entre os entrevistados: dentre eles, 65% afirmaram fazer sexo apenas com homens e, pouco mais de um terço (35%), com homens e mulheres. Dentre os entrevistados que afirmam transar com homens e mulheres, a maioria (57,1%) afirma não ter transado sem camisinha em 2018.

Já entre os entrevistados que fazem sexo apenas com homens, a maioria (61,5%), afirma ter transado sem camisinha em 2018. Ainda que a maior parte desses entrevistados tenha transado sem camisinha com um parceiro fixo (62,5%), entre os que fizeram sexo sem camisinha com um parceiro casual, 100% afirmam ter conhecido esse parceiro via aplicativos.

Uma pesquisa feita pelo CONECTAí Express, que reuniu respostas de 2.000 internautas, revela que 20% dos brasileiros tem um aplicativo de relacionamento instalado em seu celular, onde buscam novos parceiros para relacionamentos sérios ou relações casuais por meio virtual. Isso mostra como as formas de se viver a sexualidade mudam e se constroem de acordo com o contexto histórico, e, com elas, a necessidade de se pensar novas abordagens de prevenção e combate ao HIV/aids.

O resultado da pesquisa sugere que pessoas que transam exclusivamente com homens têm mais chances de transar sem camisinha quando comparadas a pessoas que transam com homens e mulheres, o que talvez seja resultado da Educação Sexual pensada apenas pelo viés da reprodução dentro dos espaços educativos. De todo modo, o dado reforça a necessidade de se continuar pesquisando o papel dos aplicativos nas culturas e práticas sexuais de jovens gays e HSH, assim como a de pensar sobre prevenção.

Quanto vale um jovem?

Por Jonathan Moreira, da Agência Jovem de Notícias São Paulo

“Acordo. Almoço. Toma um banho. 23 minutos. Peço benção pra minha mãe. Enfrento ônibus lotado. Depois de 2 horas chego à Universidade. 23 minutos. Estudo. Sinto o meu “atraso” na aula. Vejo o reflexo de anos de escravidão. 23 minutos. Enfrento fome e desemprego. Volto pra casa. No escuro da cidade que me atravessa, bato a cabeça cansada na janela meio suja, mas que aparentemente se torna o melhor lugar. Chego em casa. 23 minutos”.

Com pausas bruscas e com a angústia de saber/sentir que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, começo meu texto.

Hoje é o dia Internacional da Juventude, data que não é recebida com cerimônias ou mensagens em peso na internet. As vezes é tratado com verdades estabelecidas e, quando muito, apenas um discurso biológico e cientificista. Achar que o conceito de juventude sempre esteve presente e inato em nossa sociedade é um erro, assim como acreditar que toda perspectiva sobre ser jovem é igual. Mentiras que são postas nesta sociedade, em que o disparate verbal se torna mais importante que o fato histórico em si.

O jovem é uma figura muito recente em nossa sociedade, se colocarmos em uma perspectiva histórica, e quando este é posto como um sujeito de direitos e com especificidades, o negócio fica mais louco ainda. Pois muitas vezes nós jovens somos considerados, simplesmente, como uma fase de transição, na qual nossa única capacidade é  aprender com os mais velhos para tornarmos adultas as ideias.

Recipientes vazios que são preenchidos com uma sabedoria que estampa e canta experiências e conhecimentos. Mas não é assim. A partir do momento que o ser humano nasce, suas relações com o espaço, o tempo e com as pessoas, já geram muitas experiências e conhecimentos que devem ser levados em conta. Não que exista alguma verdade extremamente absoluta. Mas o espaço de compartilhamento deve ser estabelecido.

O fato dos nossos corpos e percepções a respeito o mundo estarem em constante movimento, não diz que somos simplesmente inocentes e ignorantes. Estamos em um momento especial de nossas vidas, com grandes transformações e relações, que não dizem apenas sobre o corpo físico, mas que transbordam.

Percebo que o desejo do controle total sobre as escolhas do corpo jovem é uma forma de garantir o controle social, pautado em ideias que conservam diversas violências, como desigualdades de gênero e raça. Pensamentos que configuram o país como uma máquina de matar. O Brasil ocupa a sétima colocação em número de assassinatos de pessoas entre 15 e 29 anos no mundo, morte que tem cor, gênero e classe.

Ademais, quando colocamos o jovem negro em questão, as percepções mudam significativamente. Pois enquanto alguns estavam lutando pela garantia dos direitos da juventude, adolescentes e jovens negros lutavam pelo reconhecimento de serem humanos. Quando vemos em manchetes de jornai que os brancos são considerados “jovens” e os negros “menores infratores”, entendemos a significação do corpo negro.

Pelo fato de estarmos alicerçados em um contexto racista e escravocrata, que é ignorado por muitas figuras públicas, somos vistos apenas como mão de obra e força produtiva, privados dos direitos dignos de todo ser humano. Somos uma “nação” que se alimentou em peitos de garotas pretas que, antes de se (re)conhecerem, eram transformadas em mulheres, em plenas agressões, que escorrem em nossa atualidade.

 Quando decidi fazer faculdade recebia e ainda recebo muitos olhares surpresos.  Grande parte dos meus amigos de infância estão ralando desde muito cedo, trabalhos informais para conquistarem sua independência financeira. Jovens pobres que muitas vezes não têm a oportunidade de viveram diversas experiências, espaços e conhecimentos, pois precisam contribuir com a renda familiar. Estão entregando folhetos, vendendo água no trem e no trânsito, ajudando em serviços braçais, cuidando de crianças, fazendo faxinas.

Ou estão sendo assassinados no tráfico por uma violência policial cruel e um Estado que trata o corpo jovem negro como marginal, individualiza todas as suas escolhas e ações, como se tudo dependesse exclusivamente dele, ofusca as diversas subjetividades e desigualdades sociais que trilham “muito bem” o caminho deste jovem. Assim como tumbeiros que cortaram este grande mar com lágrimas salgadas. PAUSA. 23 minutos. “ELE NÃO VIU QUE EU ESTAVA COM O UNIFORME DA ESCOLA”. Marcos Vinicius da Silva, 14 anos. Ou só mais um Silva. De pele escura. É assassinado por forças policiais e do Estado.

Este sistema vigente está cada vez mais usando ferramentas meritocráticas para não se responsabiliza pelass dívidas e deveres sociais. Não ponderam as desigualdades  de gênero, raça e classe. Como se tudo dependesse apenas de você, apagam qualquer resquício histórico. O “fracasso” não é um problema exclusivamente individual, não empurra só você. Leva também  pessoas com histórias semelhantes a sua.

Mas enquanto não verem as experiências dos jovens além da carteira assinada, enquanto não perceberem nossa potencialidade, ouvirem nossas contribuições sem classificar como “ele não sabe o que está falando”. Enquanto não houver reparações histórias para jovens negros e pobres será muito difícil arranjar um trampo. E por fim, estabelecer uma juventude que vivencia e contribui ativamente para o desenvolvimento do país e do mundo parece uma tarefa intensa, mas saiba que existem muitos movimentos de jovens lutando por maior participação na política, em ONGs, associações, famílias… Para construírem juntos, caminhos menos tortuosos.

As violências acometem adolescentes LGBT da mesma forma?

Por Tulio Bucchioni, Antropólogo e pesquisador na área de gênero e sexualidade 

Interseccionalidade. Você já ouviu falar nesse conceito? Essa palavra enorme tem uma história ainda mais longa: sua origem remete ao movimento feminista negro norte-americano das décadas de 70 e 80. A ideia de que a identidade e a nossa experiência no mundo são marcadas por fatores múltiplos e interseccionais, relativos a nossa posição de classe, nossa raça/cor, nossa sexualidade, nossa geração ou nacionalidade, entre outros aspectos, deu origem ao termo interseccionalidade.

A especificidade da intersecção de categorias é o que faz as vivências, o campo de possibilidades, as referências e a trajetória de vida de um jovem gay, negro e pobre serem muito diferente daquelas de um jovem gay, branco, de classe média. Nesse sentido, acreditamos que para combater efetivamente as desigualdades, é preciso se pensar interseccionalmente. Não basta combater a LGBTfobia se não combatemos o racismo em nossos ambientes escolares e espaços educativos – um jovem LGBT branco não está imune de reproduzir atitudes e pensamentos racistas, ainda que saiba o que significa ser oprimido.

A todo momento associamos a diversidade com a população LGBT. Na maioria das vezes, essa associação diz respeito a expressões e vivências de identidade de gênero e da sexualidade não-normativas, não heteronormativas. Mas, e quanto a diferenças raciais e diferenças sociais entre a população LGBT? É fundamental aprofundar a discussão sobre a experiência do que é ser gay ou lésbica e negro, do que significa ser uma pessoa trans e ter sua renda e capacidade de sobrevivência impactada pelas condições desafiadoras de estudo e de empregabilidade no Brasil, por exemplo.

Nesse sentido, acreditamos que o conceito de interseccionalidade é uma ferramenta fundamental para todas as pessoas que trabalham com educação. Para encorajar você a compreender melhor essa ideia, sugiro duas leituras acadêmicas que abordam o assunto:

MOUTINHO, Laura. Diferenças e desigualdades negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas recentes. Cadernos Pagu, Campinas, 2014, n.42, p. 15. Clique aqui e acesse a fonte. Acesso em: dezembro de 2015.

PISCITELLI, Adriana. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras. Sociedade e Cultura, Goiania, v.11, n.2, jul/dez. 2008. Clique aqui e acesse a fonte.

 

A criminalização da juventude negra

O jovem negro, pobre e periférico é o alvo das grades, seja pela promessa torta socioeducativa, seja pelo mito da ressocialização. E é a juventude com este perfil que segue ameaçada por políticas de criminalização como a proposta de redução da maioridade penal que tramita no Congresso Nacional.

Políticas de criminalização? Sim! Uma das formas de controle das juventudes está na construção de criminalizações, ou seja, o que é considerado crime e o que a polícia e as autoridades realmente fiscalizam sob o argumento de ser crime (duas etapas do processo de criminalização, como explicam os juristas Nilo Batista e Raúl Zaffaroni).

O que eu quero dizer é que pensar em criminalização não se restringe às situações que levam um/a adolescente ou jovem a entrar numa Fundação Casa, ou no sistema penitenciário. Engloba também a formação do imaginário social sobre o que é um sujeito visto como “não sociável” ou, até mesmo, perigoso.

Os diferentes processos de criminalização possuem nuances, é preciso perceber que não são todos que levam ao encarceramento, mas todas as formas de desvirtuamento dos jovens, enquanto seres humanos, envolvem sim um processo de criminalização. Por exemplo, a construção midiática dos termos “vândalo” e “menor” contribuem para a distorção da imagem do jovem como sujeito de direitos, um ser humano em desenvolvimento.

Aliás, a utilização da palavra “menor” pelos meios de comunicação é recorrente quando eles se referem a adolescentes pobres detidos por supostas práticas de atos infracionais. Ao longo da construção legislativa do Brasil sobre crimes cometidos por pessoas menores de 18 anos, o termo surgiu como uma forma de diferenciar as crianças em situação de rua – os “menores”, na época em que o “Código de Menores” estava vigente. Como muitas formas de estigmatização, termos pejorativos acabam se tornando parte do vocabulário e permanecem até hoje em notícias veiculadas sobre adolescentes.

Portanto, podemos perceber que as classificações também fazem parte dos processos de criminalização. Quando lemos o termo “menor”, logo associamos a um jovem “bandido”, “perigoso”. Quando lemos “vândalo” a relação com “desordem” é imediata. Quando se fala em juventudes, sentidos como “transgressão” e “rebeldia” são comumente associados, como se nada de construtivo pudesse nascer dos jovens.

No entanto, a história nos mostra que repressões são cíclicas, nenhuma das criminalizações que presenciamos hoje é inédita na história do Brasil. O processo de entendimento das vivências das juventudes negras e o respeito às diversas maneiras de estar no mundo, começa com a análise da construção do Brasil.

Por meio de intervenções institucionais repressivas, inicialmente por parte das agências policiais, é possível percorrer um trajeto bem delimitado sobre as formas de criminalização das juventudes. Quando se fala em movimento secundarista, se volta a jovens estudantes de escolas públicas que lutam por melhores condições de ensino, mas ainda assim inseridos na educação formal. Quando se fala em criminalização das artes de rua, por exemplo, engloba-se movimentos que ocupam as ruas, que nascem da periferia, que dialogam com o movimento negro, cultural, do hip-hop, admirados por uma juventude questionadora. Não é diferente quando se pensa no encarceramento como resultado de um processo de criminalização, que não só marginaliza, mas também exclui, o perfil da juventude selecionada é indiscutível.

Os dados estão à mostra e o perfil de juventude levada ao sistema socioeducativo ou penitenciário, impedida de exercer seu direito de existir, é conhecido. O Atlas da Violência de 2017 expõe que mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2005 e 2015, sendo 92%  jovens entre 15 e 29 anos de idade. A  cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras.

Por outro lado, os processos criminais que resultariam na condenação dos autores dessas execuções são negligenciados. No ano de 2016, segundo a Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, no Rio de Janeiro, 99% dos casos registrados como “autos de resistência” – confrontos entre policiais e supostos agentes de crimes – foram arquivados sem investigação, sendo que do total de registros, 21% envolviam vítimas menores de 15 anos de idade.

Ao extermínio da juventude negra no Brasil, destacam-se soluções já conhecidas e expressadas. O enfrentamento dessa situação de opressão, como as propostas de desmilitarização da polícia, que retiraria o caráter de “guerra” do treinamento das agências policiais, dentre outras iniciativas, são defendidas pela sociedade civil há anos.

É partindo dessa apropriação da história e das diferentes realidades juvenis, que as juventudes poderão unir forças em favor do bem viver para todas e todos. Se o investimento da repressão estatal recai nas juventudes, é porque identifica nelas a força da revolução. Sigamos, jovens.

Por Lorraine Carvalho*

* Lorraine é advogada, assistente de atuação política do IBCCRIM e voluntária no Projeto Audiência de Custódia do Instituto Pro Bono.