Entrevista

Quais os desafios da sociedade civil organizada no Brasil?

Por Paula Bonfatti, Analista de Comunicação e Marketing da Viração

A sociedade civil organizada vem respondendo de diferentes maneiras aos retrocessos no campo dos direitos sociais que acometeu o Brasil nos últimos anos. Articulações em rede, cooperações e novas formas de mobilização social e de recursos surgem, enquanto o papel do estado no fortalecimento do terceiro setor passa a ser secundário e muitas vezes antagonista.

Confira a entrevista sobre o atual cenário político e econômico brasileiro e seus impactos no terceiro setor com Márcia Moussallem, socióloga, assistente social, mestre e doutora em serviço social, políticas sociais e movimentos sociais pela PUC/SP.

1- Na sua avaliação, qual é o papel do governo para com a sociedade civil organizada? Como isso tem se dado no Brasil?

Primeiro, temos que pensar que a sociedade civil organizada é um todo. São as associações, fundações, movimentos populares, coletivos […]. O papel do governo com relação a essa sociedade civil organizada deveria ser de compartilhamento, deveria ser de parceria, deveria ser como atores em conjunto que lutam por direitos, por uma sociedade mais justa. Porém, o que estamos vendo é que é esse governo, o estado de um modo geral, perante a sociedade civil organizada, não é nada disso. Pelo contrário, é corte de verba nos projetos sociais, como temos visto aqui em São Paulo, uma repressão contra os movimentos sociais muito grande… Ou seja, estamos vendo um distanciamento muito grande nos três últimos anos do governo em relação a sociedade civil organizada. [O governo] é um ator esquecido, um ator que vem tolindo os projetos, as ações e o campo de luta da sociedade civil organizada. Então, infelizmente, vemos um retrocesso com relação a essa visão mais compartilhada do governo, o estado de uma forma geral, com a sociedade civil. O que é lamentável, porque cada um tem o seu papel. A sociedade civil organizada é a sociedade civil no ponto de vista da cidadania ativa, um estado presente no campo das políticas públicas é um estado próximo da sociedade civil. Então, ver a demanda da sociedade civil, ver a demanda das associações, ver a demanda dos movimentos populares, que é o campo dos direitos e a defesa da cidadania […] é um papel do governo que infelizmente ofuscou, foi esquecido nesses últimos 3, 4 anos, pós golpe contra a presidenta Dilma, o que é lamentável.

2- De que forma a crise econômica e política no Brasil impacta as organizações da sociedade civil?

Impacta negativamente, tanto do ponto de vista econômico, como político. A gente vive uma crise econômica sem precedentes e isso afeta a gestão das organizações, a questão salarial dos funcionários, da captação de recursos, […], do desemprego, as organização estão demitindo pois não estão dando conta… A questão da sustentabilidade enfraquece muito. E a crise política obviamente é a perda dos direitos, esses projetos conservadores no Congresso Nacional e mais as medidas do governo Temer afetam diretamente. Porque as organizações do terceiro setor trabalham na defesa dos direitos da criança, do adolescente, do meio ambiente, dos indígenas, das mulheres, dos negros, e obviamente as pautas conservadoras afetam as organizações porque até então o estado é um parceiro do terceiro setor, dessas organizações […]. [A crise política e econômica] Só não têm impacto nas organizações que ainda promovem a filantropia e o assistencialismo. Essas organizações que fazem assistencialismo não têm compromisso nenhum no campo da defesa de direitos, porém nas organizações comprometidas, […] isso tem um efeito muito grande. Porque o terceiro setor faz parte da sociedade civil e a sociedade civil é atingida diretamente pelas as questões econômicas e políticas, que vão desde os arrochos, a questão do desemprego, até as pautas conservadoras que incluem diferentes indivíduos. Isso afeta obviamente as ações e programas do terceiro setor.

3- Como você avalia o papel da sociedade civil organizada na luta por um país democrático e contra a perda de direitos?

A gente vê um movimento de organizações frente a toda essa conjuntura de retrocesso social, político, enfim, em todos os campos, a gente vê uma parte dessas organizações reagindo, lutando, formando grupos de trabalho, fóruns de discussão. Por exemplo, um dos projetos que voltou a tona agora é a redução da maioridade penal, então têm fóruns de organizações que trabalham com crianças e adolescentes se articulando e pressionando o governo contra essas pautas. Não somente isso, mas organizações também no campo dos direitos indígenas, dos direitos quilombolas e direitos das mulheres. Então o papel da sociedade civil hoje, e sempre deveria e deve ser, é de articulação, de pressão, intervensão nesse campo. O terceiro setor tem que sair ou um pouco do seu umbigo, das suas micro realidades, micro organizações, as questões somente da gestão, da sustentabilidade, e ir pro campo da luta, porque isso afeta diretamente todas as suas ações. E o papel [do terceiro setor] tem que ser um papel ativista, um papel de articular, de pressionar melhorias, projetos, em prol da sociedade civil. Porém, nem todas as organizações pensam e atuam dessa forma, porque muitas acham que isso é papel dos movimentos sociais, dos movimentos populares e dos coletivos. Elas acham que elas têm que cuidar da gestão e de seus projetos, na verdade não são seus projetos, são projetos da sociedade civil. O terceiro setor é um ator dentro desse campo e no campo da luta por direitos e por um país mais democrático, a sociedade civil organizada tem um papel fundamental, ainda mais em tempos de perda de direitos. A sociedade civil tem sim que articular, sair de dentro da sua casinha e pressionar, como algumas estão fazendo.

4- Hoje, muitas organizações enfrentam desafios para captar recursos. Isso pode ser também reflexo do momento político e econômico que estamos vivendo? O que isso representa?

Piorou muito a captação de recursos frente a crise econômica e política do país […], a conjuntura afeta a todos inclusive a sustentabilidade dessas organizações. Porém, esse não é um fato novo… a captação de recursos sempre foi um problemas pras organizações de uma forma geral no Brasil. Pela ausência de capacitação, de formação e muito amadorismo nesse campo da captação ou mobilização de recursos. Amadorismo no sentido de não saber como captar, ou depender somente de uma fonte, por exemplo o estado. Muitas organizações dependem 100% do estado, imagine na atual conjuntura de afastamento do estado nas questões sociais e da perda de direitos, o que acontece com essas organizações? Elas estão fechando. Então captação de recursos significa uma intervenção mais sistemática, mais profissional. Organizar uma área de captação de recursos, diversificas as fontes, parceiros, metodologias, campanhas. Então eu diria que esse sempre foi um desafio. As organizações investirem de forma séria numa captação de recursos mais profissional e não amadora […]. Isso sempre foi um desafio, como pensar a captação e a sustebtabilidade a médio e longo prazo, não a curto prazo. […] Muitas organizações não se prepararam pra essa crise econômica, principalmente as organizações de pequeno e médio porte […]. Agora é a hora das organizações fazerem uma auto crítica, uma auto reflexão, que não é porque é terceiro setor que não devemos ser mais profissionais; adotar uma sistematização séria e profissional no campo de captação de recursos não quer dizer que vai virar empresa privada ou que vai acabar com a missão, destruir a causa, pelo contrário, é fortalecer, se preparar, ter uma gestão mais profissional, mais sustentável, e em tempos de crise obviamente ter um preparo maior para poder levar as atividades e projetos adiante […].

O que são moedas sociais e como contribuem para a construção de uma economia justa e solidária

Por Natália Aquino, da Agência Jovem de Notícias

Hoje, as moedas sociais cumprem um papel fundamental no desenvolvimento de comunidades no Brasil e no mundo. Ao contrário da moeda oficial, a moeda social permite a criação de um mercado complementar e oferece a possibilidade de se produzir e consumir dentro de um circuito fechado e local.

A primeira moeda social a circular no Brasil foi a Palma, criada em 2000 e vinculada ao Banco Palmas, o primeiro Banco Comunitário de Desenvolvimento (BCD) do país. Em entrevista à Agência Jovem de Notícias durante o Fórum Internacional do Bem Viver em Grenoble, França, o economista e coordenador do Banco Palmas, Asier Ansorena, fala sobre a história das moedas sociais no Brasil e sua contribuição para a construção de uma economia mais justa e solidária.

 

1) O que é moeda social?

Asier Ansorena: Depende do contexto onde você for olhar. Existem muitos modelos diferentes em países como Quênia, França ou Japão, conhecidas também como moeda local, circulante local ou moeda complementar. O importante de cada moeda é que uma comunidade local defina quais são os princípios, para que serve, como a gente utiliza, qual mecanismo de investimento. Questões que são importantes para a soberania de cada população. A moeda local do Banco Palmas foi criada no conjunto Palmeiras, que é onde funciona o Banco Palmas. É uma moeda que se cria para contribuir na organização das economias locais, e essa organização significa a dinamização de redes de produtores e consumidores locais. Quando se desenvolve essa rede de produção e consumo local a gente cria uma economia diferenciada, solidária, sustentável. A moeda é uma das ferramentas importantes não só em termos práticos e operacionais, porque possibilita o consumo local, senão em termos pedagógicos de soberania e simbólicos, pois é uma ferramenta de poder local.

2) Em sua fala na mesa de encerramento do Fórum você afirmou que até alguns anos atrás a circulação de uma moeda paralela à moeda oficial era ilegal. Como e quando isso mudou e qual o papel do Banco Palmas nessa mudança?

AA: O Banco Palmas nasceu no ano de 1998. Durante os primeiros 4 ou 5 anos fomos ignorados pelo sistema econômico. Quando esse grupo soube do Banco Palmas, não gostou da proposta certamente, pois esse sistema quer manter esse monopólio de criação do dinheiro e da visão econômica no país. Os primeiros anos foram de resistência e o Banco Palmas enfrentou dois processos . O último no ano de 2003 quando, enfrentando a acusação do Banco Central de crime contra o estado brasileiro, a gente obtém sentença favorável em que o juiz, em outras palavras, afirma que o Banco Palmas existe porque o Banco Central não está cumprindo com o seu mandato, que é trabalhar pela inclusão financeira dos brasileiros. Há 20 anos atrás, perto de 70% dos brasileiros não tinham acesso ao sistema financeiro. Foi em primeiro lugar uma luta de resistência, pois o Conjunto Palmeiras existe há 45 anos. Então o banco é mais um símbolo de resistência desse movimento. Depois, durante o governo Lula, cria-se a Secretaria Nacional de Economia Solidária, que permite e facilita a implementação de bancos comunitários em outras regiões do Brasil. Através desse programa foi possível chegar ao número atual de 113 bancos comunitários no país. Primeiro, um momento de resistência enfrentando o sistema financeiro e depois, com o apoio para a criação dos bancos comunitários. Essa é a nossa visão para o fortalecimento da sociedade civil, com maior independência e soberania nas questões econômicas.

3) Existem convergências e/ou divergências entre as moedas sociais operadas em países em desenvolvimento e os já desenvolvidos?

AA: O modelo de banco comunitário que existe no Brasil, em sua totalidade, não existe em outra região do mundo. A organização da economia local, moeda local, crédito para produção, crédito para consumo na moeda local sem juros, e o próprio processo de participação da comunidade em que as pessoas daquela localidade são as que trabalham no banco. Certamente, muitas das visões que a gente têm são complementares ou semelhantes às que existem em outras regiões. Mas o diferencial do caso brasileiro em relação a outros tipos de experiências é o conjunto de iniciativas do modelo de bancos comunitários.

4) Qual o impacto mensurável nas comunidades locais que possuem moedas sociais? Como isso se relaciona ao conceito de bem-viver?

AA: Tem questões que são mensuráveis e outras que não. Explico um caso: Em 2010, o Banco Palmas iniciou uma linha de microcrédito exclusivo para mulheres beneficiárias do Bolsa-Família [o projeto ELAS]. Existem outros modelos como este no mundo, mas o brasileiro é o maior dele, onde algo em torno de 13 milhões de mulheres brasileiras recebem ajuda para apoiar suas famílias. Perto de 30% das famílias brasileiras são beneficiárias do programa. Nossa linha de microcrédito produtivo foi criada para pensar como essas mulheres poderiam começar diferentes atividades para geração de renda, ou com pequenos empreendimentos ou com pequenas atividades que elas pudessem realizar dentro de casa para gerar renda complementar. Isso porque é importante gerar riqueza local, que é uma das principais funções de bancos comunitários como o Banco Palmas. Após 3 meses de funcionamento do programa, fizemos uma sondagem com 100 mulheres beneficiadas pelo crédito e umas das coisas mais fortes que percebemos foi que, num bairro como o conjunto Palmeiras na periferia de Fortaleza, uma cidade de praia, metade dessas mulheres nunca tinha ido à praia. Pense no grau de isolamento dessas mulheres que nasceram ou que vivem há mais de 20, 30, 40 anos naquele local, mulheres de 50 anos de idade que nunca tinham ido à praia.  Percebemos que mais importante do que uma linha de microcrédito era levar essas mulheres para a praia. Isso é bem-viver na veia. Explica isso pro Banco Mundial, ou pro Banco Interamericano de Desenvolvimento. Eu tentei, várias vezes. Mas eles olham e ficam se perguntando sem conseguir entender se compreenderam certo. Te tacham de comunista, anarquista, antissistema, porque você diz que é mais importante levar à praia do que o microcrédito. Obviamente o microcrédito é importante mas, nesse contexto de isolamento […] percebemos que precisávamos de um olhar muito mais holístico.

[…] Então, essa é a nossa contribuição para o bem-viver. Um banco convencional nunca faria isso. Mas um banco comunitário que pensou o microcrédito e o usa para investimentos em produção e geração de riquezas locais, utiliza a moeda social, vê que pode intervir nessa condição pela proximidade com o território, percebendo que o desafio e as dimensões da pobreza são muito amplas. Um banco comunitário tem essa capacidade, um banco convencional nunca vai fazer isso. Primeiro porque vão acreditar que são operações de muito risco, portanto, não valem a pena, e acham que alguma política paternalista ou assistencialista é o único jeito. Um banco comunitário, onde é a própria comunidade que trabalha nele, muda completamente um projeto que tinha começado com o microcrédito e acabou virando uma coisa muito maior.

Temos um exemplo com a moeda digital na cidade de Maricá, no estado do Rio de Janeiro: vencemos um edital da prefeitura para distribuir um benefício que a prefeitura de Maricá oferece com os royalties do petróleo, que é a bolsa-mumbuca. Basicamente um bolsa-família local, porém distribuído pela nossa plataforma de banco comunitário digital, o e-dinheiro. Ele se transforma em moeda local gerenciada pelo banco comunitário local, que possui a plataforma, e depois esse dinheiro é consumido apenas naquele território. Já temos 5 meses de experiência lá, com mais de 5 mil usuários cadastrados na plataforma, acessando seu benefício e também moradores da região consumindo no local. Com isso, tem-se gerado mais de R$ 1.500.000,00 de compras locais utilizando nossa plataforma de banco comunitário digital. E a diferença de fazer essa compra com a nossa plataforma ou com uma Visa ou Mastercard é que essas empresas vão cobrar, em média, 6% de taxa dos comerciantes para receberem as compras com esses cartões. Com o modelo do banco comunitário digital do Banco Palmas, os comerciantes pagam 2% ao invés de 6% e esses 2% são reinvestidos naquele território […].

Esses são alguns dos exemplos que têm maior impacto. Sem falar que se essas mesmas compras tivessem sido feitas no sistema tradicional com taxas a 6%, isso representaria R$ 90.000,00 saindo do território para nunca mais voltar. O lucro que a Visa ou a Mastercard obtém dessas operações vai pros grandes centros financeiros da sede da instituição em São Paulo, ou nos Estados Unidos e nunca volta para o território que produziu aquela riqueza. Esse é o diferencial da moeda social e do banco comunitário, que a riqueza que você gera no território, a maior parte dela circula e é distribuída na região. Questões como o bem-viver ajudam a trabalhar melhor essa multi-dimensão de uma situação de desigualdade ou de pobreza.

5) O que é a Rede de Bancos Comunitários?

AA: É uma iniciativa que funciona em rede com os 113 bancos comunitários que existem no Brasil. O Banco Palmas foi o primeiro deles e por isso é o interlocutor da rede. A partir de 2004, com a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, em parceria com prefeituras, governos de estados e fundações, foram criados outros bancos comunitários. Nós queremos nos constituir como alternativa, trazendo outra visão sobre serviço financeiro solidário a partir do protagonismo das comunidades, que possuem a capacidade de desenvolver e criar iniciativas como bancos comunitários e que vão definir qual o futuro e os direitos econômicos de cada uma delas. Joaquim de Melo, criador do Banco Palmas, viajou para diversas comunidades para treiná-las e ajudá-las a desenvolverem suas próprias iniciativas de finanças solidárias e está há 20 anos fazendo um trabalho gigantesco a nível nacional para espalhar essa ideia. A Rede já se reuniu 4 vezes para discutir a criação de um sistema financeiro mais justo e solidário.  

6) Quais os desafios atuais enfrentados pelas moedas sociais dentro e fora das comunidades?

AA: O golpe parlamentar contra a presidente democraticamente eleita Dilma Rousseff, em 2016, colocou o Brasil numa situação extremamente complexa, política e economicamente. Quem está no poder hoje gera muita incerteza sobre o que vai acontecer após as eleições, há uma polarização imensa e não sabemos qual o futuro do país. Isso prejudica muito os tipos de políticas públicas que podem ser criadas para os bancos comunitários. Estamos olhando para as alternativas e o exemplo de Maricá, de utilizar um banco comunitário digital, e a palmas e-dinheiro, para distribuir benefício social ao invés de optar por um banco tradicional como Santander ou Itaú… é um grande ganho, pois mostra o que podem ser os bancos comunitários em termos de impacto e de sustentabilidade financeira. Um sistema mais transparente, muito mais barato, não tem dono e, de novo, tem a noção de que a riqueza criada a nível local possa ser distribuída naquele no território, ganhando uma independência de políticas públicas e dando soberania para a sociedade civil que trabalha com direitos econômicos. Acredito que essa é a nossa principal oportunidade, junto com o desafios de convencer diferentes comunidades, municípios e outros tipo de entidades privadas de que isso é muito interessante para o Brasil. O sistema financeiro do Brasil é um dos mais lucrativos do mundo. Nós temos um problema muito sério e precisamos falar sobre isso porque esse bancos comerciais privados não estão investindo na população que tem a capacidade de produzir em diferentes níveis. É isso que gera emprego, que gera renda. Quando a gente coloca as pessoas como protagonistas a gente tem muito mais chance de pensar um Brasil mais sustentável. Por exemplo, quando você coloca as comunidades ribeirinhas, as periferias das grandes cidades, o sertão no comando das decisões a nível local, eu acho que a chance de dar certo é muito maior. Que tipo de reforma a gente pode fazer no país quando os bancos estão sequestrando a capacidade econômica da população?

7) As moedas locais, por definição, estão limitadas a uma determinada área onde circulam. Isso vai na contramão da globalização?

AA: Durante o Fórum eu ouvi uma fala de que nós devemos ter cuidado de não entregar esse presente maravilhoso que é a globalização dos povos para os mercados capitalistas e para as empresas. Nós estamos em lutas que parecem diferentes, mas que na realidade é a mesma luta. Não podemos entregar na mão do capetalismo (sic) esse presente que são os povos indígenas originários, os descendentes de escravos na América Latina e no Brasil, os povos das periferias, os imigrantes e refugiados na Europa, a classe média francesa, essa cosmovisão através da democracia econômica, o bem-viver, a economia circular, o desafio do meio-ambiente na mão do mercado, que tem uma visão de pensamento único. A gente tem que trazer todos os olhares diferentes e trabalhar juntos. A moeda social é contracultural se a gente compará-la com a única moeda que existe no mundo que é o dinheiro bancário, supostamente produzido pelo Banco Central. Nós acreditamos que [a produção de dinheiro] não deveria ser apenas uma atividade centralizada, mas nós temos que ter cuidado porque no Brasil isso é ilegal. Então nossa moeda é contracultural no sentido de que é uma comunidade que está produzindo e pensando uma moeda como ferramenta para apoiar o consumo local, não é um enfrentamento. O Banco Palmas já foi acusado de crimes contra o Estado brasileiro. Então para cada unidade de moeda social que a gente cria, a gente tem que ter R$1,00 de lastro. Criamos a moeda para estimular o consumo e a produção local para, portanto, conseguir reorganizar a economia e o poder local. A moeda do Palmas facilita isso. O que gostaríamos de ver, eventualmente, é como a gente consegue criar moedas alternativas que não sejam lastreadas na moeda oficial para ter maior autonomia e capacidade de financiamento local. Muitas vezes as comunidades não conseguem se desenvolver porque não têm oportunidade de investimento, porque não temos mecanismos para compartilhar os riscos e as riquezas. Os lugares geradores de riqueza no mundo, como a Califórnia por exemplo, possuem modelos de investimento onde investidores e empreendedores compartilham o ganho e o risco também. No modelo do microcrédito, por exemplo, a responsabilidade fica muito acima do empreendedor. Se pudermos criar moedas alternativas, ficará mais fácil pensar em modelos de auto-financiamento. A gente não tá pedindo milagre. O que pedimos é que  população tenha a capacidade de produzir, de fazer aquilo que já sabe fazer. Esse é um aspecto fundamental e é onde entram as moedas digitais que estamos fazendo agora. Esse modelos que criamos está permitindo que o consumo local auto-financie aquelas regiões. Isso é finança solidária na veia.

8) Qual objetivo do evento ‘Solidários’?  

AA: Trata-se do quinto Encontro de Bancos Solidários de Desenvolvimento, onde toda a rede de bancos comunitários brasileiros estará presente e, ao mesmo tempo, o primeiro encontro internacional, pois acreditamos na globalização solidária, devemos contar ao mundo o que estamos fazendo no Brasil e o mundo tem que contar para nós qual é a luta deles, o que está sendo feito em outros lugares. No contexto de sucateamento do Estado brasileiro e das políticas públicas para a economia solidária, tem por objetivo primeiro olhar para as alternativas. Para fazer isso, nós temos que juntar todo mundo para definir nosso futuro e ao mesmo tempo fazer um pacto com quem restar do setor público, das fundações, das empresas que reconhecem o valor dos bancos comunitários para pensar o futuro juntos. Como conseguir outros mecanismos trazendo bancos éticos, cooperativas, instituições de microfinanças da América Latina que têm um olhar diferente, que talvez não chame banco comunitário ou que não trabalham tecnicamente com economia solidária, mas que têm propostas muito semelhantes e que, portanto, precisamos nos conhecer e pensar essa nova globalização e esse novo sistema financeiro mais justo. Vamos trazê-los para que os banco brasileiros vejam como esses atores valorizam o que os bancos comunitários estão fazendo pelo Brasil há 20 anos. Muita gente no Brasil ainda acha que esse negócio de moedinha é exótico, mas quando a gente traz iniciativas de Alemanha, França, Itália, México, Bangladesh, etc. talvez eles percebam que esse movimento é pra valer, é sério e é uma alternativa boa para nós, principalmente que precisamos alimentar as utopias com as práticas do cotidiano e melhorando a vida das pessoas. O evento ‘Solidários’ vai acontecer entre os dias 4 e 6 de setembro, em Fortaleza. Uma oportunidade maravilhosa para continuar discutindo essas questões.

 

Como responder às novas demandas do jovem leitor digital?

Por Paula Bonfatti, Analista de Comunicação e Marketing da Viração

As tecnologias da informação e comunicação estão cada vez mais sendo incorporadas às tarefas cotidianas, à educação e ao processo de alfabetização. No entanto, ainda existe uma grande resistência à leitura online e digital, tanto das gerações passadas quanto das instituições de ensino, o que acaba deslegitimando a prática do leitor digital.

A verdade é que não existe uma maneira certa ou errada de leitura, mas sim diferentes formas de acessar diferentes linguagens – digital ou analógica. Observamos então, que o leitor nativo digital – aquele que nasceu e cresceu com as tecnologias digitais – se relaciona de uma forma diferente com a leitura. 

Para entender melhor os hábitos dos leitores digitais e como responder às novas demandas do jovem leitor, conversamos com a Letícia Reina, gestora pedagógica da empresa Guten, especialista em leitura digital.

1- Você acha que os “nativos digitais” (pessoas que nasceram na era digital) têm hábitos de leitura diferentes das gerações anteriores? O leitor que nasceu na era digital tem processos cognitivos diferentes do leitor “analógico”? Existe um melhor ou pior?

Os nativos digitais lidam com a leitura de um modo diferente, sim! A intimidade com a tecnologia e a facilidade de acesso aos diferentes recursos digitais faz com que esse novo leitor seja mais exigente com a dinâmica e o ritmo com que os textos se apresentam. Os novos textos que circulam nos meios digitais como áudios, vídeos, imagens animadas, memes, jogos, etc. têm um apelo multimidiático que desenvolve o multiletramento. Sendo assim, não existe um leitor melhor que o outro, o que existe são jeitos diferentes de acessar os textos com processos de interação com o texto que são mais rápidos e dinâmicos. Não devemos deixar de oferecer, no entanto, enquanto educadores, textos diversos aos nossos alunos nativos digitais. Minha reflexão sobre o tema é que devemos disponibilizar aos nossos alunos “nativos digitais” os mais diversos gêneros de texto, para que eles possam aprender e desenvolver processos cognitivos que os permitam ler um romance de maior fôlego, assim como navegar nos vídeos do Youtube, por exemplo.  

2- Hoje, muitas informações falsas têm um alcance e legitimidade maiores que informações de fontes confiáveis e oficiais. Você acha que a alfabetização digital (ou a falta dela) tem alguma relação com a famosa “era da pós verdade”?

Penso que estar alfabetizado digitalmente é estar preparado para buscar fontes confiáveis. A alfabetização digital deve garantir aos leitores uma postura de criticidade e questionamento do que se lê, atualmente, nas redes sociais. Um leitor proficiente e crítico, alfabetizado digitalmente, confere os fatos para se posicionar frente a um evento. A era da pós-verdade revela sim uma postura atual de pouca criticidade e argumento. As opiniões se formam sem base na história dos fatos e se acalora na emoção. Novamente, como educadora, acredito que os jovens devem ter contato com a diversidade textual que existe na sociedade e com os diferentes meios em que os textos circulam, mas com discernimento. É preciso que se estabeleça nas relações de ensino e aprendizagem estratégias que desenvolvam a competência de distinguir fato de opinião relativa a esse fato. Essa habilidade é fundamental na era da pós-verdade.  

3- Existe uma resistência, principalmente das gerações passadas, em legitimar a leitura digital. Como você acha que diferentes setores, como educação e cultura, respondem à isso?

Acredito que estamos ainda aprendendo a lidar com essa resistência! A resistência existe e fica evidente, por exemplo, em uma escola, entre os pais e os professores. Só há uma maneira de lidar com essa resistência: com o uso frequente dos recursos digitais. É no uso, com propósitos claros e definidos, que as pessoas vão perceber a leitura digital como um processo natural de leitura. A leitura digital é diferente, acessa distintos processos e mexe com a nossa atenção de modo diferente, mas é leitura! Não é menos importante por estar em um veículo digital. A resistência das pessoas passa por uma crença de que a leitura digital acontece em momentos de lazer, por fruição, com objetivo de diversão. E no entanto, é preciso entender que a leitura digital permite a construção de conhecimento e pode, e deve, estar a favor do desenvolvimento da criticidade.

4- Você acredita que a alfabetização digital forma leitores digitais ou isso se dá de maneira informal?

Acredito que um leitor digital se forma autonomamente, no uso e de maneira informal, quando há interesse e fascínio pelos recursos. Mas um leitor alfabetizado digitalmente, crítico, proficiente, que se posiciona diante do que lê, embasado em fatos e fontes confiáveis, esse se desenvolve com formação. Essa formação pode acontecer na escola, entre pares, em casa, na interação com os meios digitais, mas a criticidade se constrói nessa relação. É preciso conhecer as ferramentas digitais, fazer uso, ampliar a capacidade para o potencial que cada recurso digital oferece, para que o leitor possa ler e produzir de modo eficaz.