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Como a cobertura educomunicativa fortalece a participação

O educador Paulo Freire, uma das principais referências teóricas da Educomunicação, nos ensina que a educação só é possível enquanto ação comunicativa, já que não se trata apenas da transmissão de saberes, mas também da troca de saberes. Ele fala ainda que toda comunicação é, em si, uma ação educativa.

Nesse sentido, a comunicação deixa de ser algo puramente midiático, com função instrumental, e passa a integrar as dinâmicas de formação! Mas onde entra a cobertura educomunicativa nessa história?

Antes de mais nada, é importante entender o que é uma cobertura educomunicativa. Ela se utiliza das técnicas do jornalismo, mas as reinventa por meio processos colaborativos que favorecem uma experiência educativa aos participantes.  

A cobertura edcomunicativa possibilita o exercício deliberado do direito à expressão; a publicização e valorização da perspectiva do adolescente em relação aos diversos temas; o desenvolvimento de habilidades comunicacionais; e a ampliação do repertório sócio-cultural, por meio do acesso a locais, temas e atores diversos.

Além disso, a cobertura é também um espaço de incidência política pois, considerando o ato de comunicar como um ato político, as coberturas são, em si ações políticas, em que é possível sensibilizar, informar e incidir sobre a esfera pública! E é exatamente por isso que a cobertura educomunicativa fortalece a participação, porque ela permite esse espaço de incidência política a partir da comunicação!

A experiência de cobertura educomunicativa com adolescentes e jovens tem sido apontada como um mecanismo importante para ampliar e fortalecer a participação desse público nos debates públicos, como aponta o Relatório Situação da Adolescência Brasileira 2011 – O direito de Ser Adolescente, do UNICEF.

Anualmente, a Vira realiza projetos de cobertura educomunicativa, como a cobertura da 10ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos, e da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente.

Saiba como organizar uma cobertura educomunicativa com adolescentes e jovens

Juventude e religião: conheça a Virajovem Nicolle

Nicolle Martins tem 19 anos e mora no extremo sul da cidade de São Paulo. Extrovertida, animada e muito determinada, ela estuda psicologia na Universidade de Santo Amaro. Desde criança, ela tem o desejo de entender as pessoas e de ajudá-las de alguma forma.

Nicolle também é evangélica e no ano passado se casou com Gabriel, um jovem de 20 anos. Ela entende o casamento como uma forma de apoio e união, uma oportunidade de crescimento pessoal que não impede de sair pra uma balada, de ter uma vida social ativa, ou de se divertir.

De fato, Nicolle é uma menina que gosta de sair, se divertir, e tem amigos de diferentes religiões (e até sem religião alguma). Ela diz que “isso não interfere na nossa amizade como outros jovens”.

No entender de Nicolle é complicado seguir uma religião com a sua idade, porque geralmente as pessoas não legitimam a sua crença, acham que ela não vai levar nada a sério, ou manter os compromissos e responsabilidades, pela pouca idade.

Para ela, a adolescência e a juventude são momentos da vida em que as pessoas  se questionam muito sobre quem são. “Às vezes a descoberta demora, mas os adultos deveriam respeitar esse momento e a personalidade de cada um, deixando espaço para errar e aprender”. ela conta.

Mas a religião de Nicolle foi uma escolha consciente, feita depois de conhecer diferentes linhas dentro do cristianismo (igreja católica, igreja universal, igreja batista, etc.) até encontrar o ambiente onde ela se sente realmente confortável.

“O meu falecido avô gostava da igreja evangélica e eu o acompanhava para auxiliá-lo. Foi só por volta dos 13 anos que comecei a querer mesmo ir, independente dele, e com 15 anos comecei a seguir a religião de modo completo”, conta.

As amigas e os amigos de Nicolle sempre foram liberais, e ela não sofreu discriminação dentro de seus ciclos sociais por seguir a Igreja Evangélica . Ela acha, inclusive, que a geração de jovens hoje em dia é mais “mente aberta”, aceita o novo e o diverso com menos resistência do que as gerações anteriores.

No entanto, às vezes acontece de alguém estranhar e questionar Nicolle quanto à sua escolha de casar cedo e seguir a religião. Segundo ela, muitas pessoas acham que ela não deveria se comprometer tanto aos 19 anos. Porém, Nicolle conta que, quem a conhece há mais tempo, sabe que nem o casamento, nem a religião a limitaram ao expressar sua personalidade e explorar seus interesses.

E os preconceitos, na experiência de Nicolle, vêm dos maiores, dos adultos religiosos. Ela conta que muitos acusam o seu comportamento, seus hábitos e suas roupas. Quando ela vai a uma festa sendo a única menina, usa roupas curtas e camisetas decotadas, ou fala gírias, é às vezes vista como irresponsável ou “infiel”.

“A roupa que eu uso ou o jeito que eu falo não muda quem é o meu Deus”,  ela argumenta. “A gente tem que respeitar as diferentes escolhas das pessoas, amando o próximo independente do que seja. Cada jovem escolhe o que é melhor para si e isso é o tudo o que importa”.

 

 

 

Youth, race and gender: meet Virajovem Anita

Anita is 19 years old, lives in São Paulo and has the amazing ability to talk about complex subjects in a solid and soothing way. She likes to talk about themes that touch her the most: gender and race.

As a kid, Anita attended a private school where she and her sister were the only black students enroled. “I tought it was normal. I didn´t even realise it. But growing up I began looking at things in a different way, and in my senior year in high school it became a real issue to me. “It was when I gave up straightening my hair and started braiding it instead.”

Before identifying herself as a black woman, Anita tought that calling another person “black” was a bad thing. When she was younger, she and her cousins used to curse each other using expressions such as “dirty tow” or “mechanic’s waste”.

But it wasn’t the first time these expressions were reproduced in such a pejorative way. In Brazil, many things related to the word “black” is a bad thing: black list, black market… And these expressions reinforce racism in our society.

One thing that has helped Anita to identify herself as a black women. was theatre. Among everything she enjoys doing, such as listening to music, playing the flute and going out with friends, theatre has always played an important role in her life.

Her first contact with the stage was through a theatre course in Jabaquara Cultural Center, in São Paulo, where she joined an acting group called “A Ordem do Caos” (Chaos’order, in english). Anita also took  film classes in the organization “Aldeia do Futuro” (Future village, in english). It was only after these previows experiences that Anita met Quizumba, a collective groups that discusses gender and race.

These experiences were really important to Anita’s identity process. “I´ve always knew I was a black woman, because you always know. But only then I started accepting it.”

Through the collective, Anita t engaged in racial and gender discussions, attending to debates and events promoted by Quizumba. One of these activities was a cenography course which, apart from teaching tecniques, discussed about gender in the audiovisual industry. “It’s hard to work with cenography being a woman. During job interviews, for example, it’s common for them to think a man is needed to carry the equipment.”

Everything Anita went through inspired her to create a women collective called “Consagradas”, along with her friends.The idea is to offer workshops on audiovisual tecniques to help poor women who want to be part of the creative industry.

One of Consagradas’ goals is to promote reflexions about alternative ways of living and working, apart from being housewifes or maids. The collective also promotes debates about gender and women roles insociety. They believe that “women belong wherever they want to”, says Anita.

 

Being a black woman

Anita says that racism associated with the feminine gender goes beyond beauty stereotypes. “There’s also the hiper sexualization. Many people have in mind the sexy “mulata” of carnaval. It’s a lose-lose situation: many black women suffer for not fitting under  beauty patterns, and those who have bodies that are considered ‘beautiful’, are victims of sexual haressment.”

Unfortunately, many still think that racism and sexism no longer exist. Anita sees that among adults, and notices that the youth usually questions that.

“We’re always questioning why things are the way they are, why they can’t change, and also trying to be part of a more equal, human and fair world. Above all things, we’re thinking a way to change the unequality that affects black woman, and trying to build public policies for the minorities.”

There is a lot to be done, but Anita believes that the discourse about gender in Brazil is slowly changing, and she percieves that inside her own house. Her 8 year old cousin, for example, says she doesn’t need to straighten her hair and wants to play soccer. Her 5 year old cousin plays with dolls and says: “there’s nothing wrong with that”.

“It would be good if we didn´t need these divisions, because what’s normal is what’s different, and still everyone should feel good about themselves”, concludes Anita.

Jovens produzem mídias sobre cultura e identidade quilombola

Com o objetivo de registrar e preservar a memória das comunidades quilombolas a Viração realizou, entre os dias 9 e 12 de maio, a oficina educomunicativa sobre identidade cultura e produção de mídias. A atividade compõe o Plano Básico Ambiental Quilombola, projeto da empresa de energia renovável Enel Green Power, coordenado pela Arcadis, empresa de consultoria ambiental.

Os encontros foram sediados na Escola Quilombola de Araçá/Cariacá, na Bahia, e reuniram cerca de 40 adolescentes de 12 a 17 anos, das comunidades de Araçá/Cariacá e Lagoa do Peixe.

Durante quatro dias, foram realizadas atividades de reflexão sobre a cultura e a identidade quilombola e os jovens foram provocados a pensar sobre a história de suas comunidades e a importância de mantê-la viva para as novas e futuras gerações. Para isso, aprenderam técnicas básicas para a produção de fotografias e de jornal mural.

“A formação educomunicativa é importante por possibilitar a valorização da cultura dos jovens quilombolas ao promover o olhar, a reflexão e o registro de aspectos da história e da cultura das comunidades por meio de suportes midiáticos diversos, produzidos de forma colaborativa pelos próprios jovens.” explica Vânia Correia, coordenadora executiva de projetos da Viração.

A educomunicação também desenvolve o espírito crítico dos usuários dos meios de comunicação “o projeto permite uma visão crítica em relação aos meios tradicionais que invisibilizam o povo negro e toda a diversidade no Brasil, e criam padrões que não dialogam com nossa realidade.” conclui Vânia.

Os ensaios fotográficos produzidos pelos jovens abordaram temas como brincadeiras, trabalho e paisagens das comunidades. O jornal mural trouxe entrevistas sobre a história da comunidade de Araçá/Cariacá, textos sobre a resistência de zumbi e aspectos da cultura de quilombo. Todos os produtos farão parte da exposição que acontecerá em julho.

Dando sequência às atividades educomunicativas, entre os dias 5 e 10 de junho acontecem as oficinas de vídeo e rádio para os jovens. Em julho, acontece uma formação com professores sobre como utilizar a educomunicação na aplicação da lei 10.639, que exige o ensino sobre História e cultura Afro-Brasileira nas escolas da rede pública.

Documentário reflete sobre o Ensino Médio a partir da escuta de jovens estudantes

“Eles nunca me sonharam sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo um professor, nunca me sonharam sendo um médico, não me sonharam. Eles não sonhavam e nunca me ensinaram a sonhar. Tô aprendendo a sonhar sozinho.” – Felipe Lima, Estudante. Nova Olinda (CE)

O depoimento de Felipe é parte do documentário “Nunca me sonharam”, uma iniciativa do Instituto Unibanco, dirigido por Cacau Rhoden e produzido pela Maria Farinha Filmes. O filme retrata, de forma delicada, a complexidade da condição juvenil em um Brasil pouco sonhado.

Do sertão do Piauí às comunidades ribeirinhas do estado do Pará, o filme propõe uma reflexão sobre o Ensino Médio público no país, a partir das falas e subjetividades de quem o vivencia: jovens estudantes do Ensino Médio.

A disputa de sentidos sobre as juventudes e sobre a educação pública é uma forte marca, evidente na escolha do título: “Nunca Me Sonharam”. Afinal, o filme é sobre o jovem que sonha ou o jovem que é sonhado?

A obra de Cacau Rhoden, por meio de cenas belíssimas, da escuta ativa e de enorme sensibilidade, permite ao jovem sonhar “sozinho”, mas permite também ao telespectador sonhar o outro. Sonhar um Brasil que entenda as juventudes a partir de suas múltiplas dimensões, e também sonhar o Felipe, a Jamile, o Gabriel e a Talita.

“A força do ‘nunca me sonharam’ no título é uma força de política pública”, explica Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco. “Não há como se fazer política pública de transformação, sobretudo em uma sociedade tão desigual como a nossa, se a gente não sonhar as pessoas”.

Além de adolescentes e jovens, educadores e educadoras são figurados no documentário. A partir de relatos da profissão, revelam a pluralidade da condição juvenil e os desafios de trabalhar e transformar a educação pública nos diversos brasis cenografados por Rhoden. Nesse sentido, o filme torna-se também um poderoso instrumento de debate sobre liderança e gestão pública na educação.

“[O documentário] é uma matéria prima muito potente para discutir a reforma [do ensino médio] e qual é o modelo de educação pública construído ao longo da nossa história, o que nós temos em consequência disso, e pra onde nós podemos ir”, explica Henriques.

A provocação à percepção homogênea sobre as juventudes brasileiras se dá também por meio da escuta de educadores e especialistas em educação e juventude. Pessoas que pensam as juventudes contemporâneas, como a antropóloga regina Regina Novaes e a pedagoga Macaé Evaristo, estão entre os personagens entrevistados.

“Não é só uma fase, é a minha opinião”

Uma das percepções homogêneas sobre a juventude é a tendência de encarará-la em sua negatividade, o que ainda não chegou a ser, negando o presente vivido, como aborda Tânia Salem em seu artigo Filhos do Milagre. E essa concepção está presente também na escola: ela prepara o aluno para o futuro, para o que ele será, negando o presente vivido como espaço de formação.

Nesse sentido, a proposta de escuta da obra desloca o olhar sobre a educação para os alunos e educadores. “Eu acho que o filme é uma ferramenta, e cada vez mais a gente vê que o audiovisual é uma ferramente realmente poderosíssima na educação, da maneira mais global possível”, explica Rhoden.

Onde assistir

O filme estreia nos cinemas no dia 8 de junho, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O documentário também estará disponível gratuitamente para educadores na plataforma Videocamp.

O que marca as experiências das juventudes brasileiras?

 

“O jovem não sabe o que quer” ou “Os jovens são o futuro do país”. As concepções tradicionais sobre as juventudes giram em torno dessas duas frases, ora limitando sua possibilidade de atuação, na primeira afirmação, ora delegando muita responsabilidade, na última.

As juventudes, em suas inúmeras facetas, são marcadas por contradições, dentre elas a construção da emancipação emocional, social e financeira e a dependência da família.

A verdade é que adolescentes e jovens não estão isolados do contexto onde vivem, não estão “passando por uma fase” e nem vivendo um constante conflito geracional. Estamos falando de sujeitos de direitos que vivem uma condição peculiar de desenvolvimento, e por isso, possuem demandas específicas. Sim, possuem condições de participarem da vida pública, dando suas opiniões e ajudando a construir as soluções para melhorar o país.

Bom, é quando a compreensão de adolescentes e jovens ultrapassa a questão geracional e etária, que a juventude surge como um tema para a sociologia. O campo da Sociologia das Juventudes passa então a avaliar as experiências sociais, culturais e políticas das juventudes, a partir de suas experiências como sujeitos, não apenas de sua faixa etária.

No Brasil, uma das principais pesquisadoras sobre o tema é a socióloga Regina Novaes. Em seu artigo Juventude e sociedade: jogos de espelhos, publicado na Revista Sociologia Especial em 2007, a autora busca evidenciar o contexto em que vive a juventude contemporânea a partir de seus principais medos: o medo de sobrar, o medo de morrer e o medo de se desconectar.

Mas, afinal, que medos são esses e porque eles marcam as experiências das juventudes na sociedade brasileira?

Medo de se desconectar

O jovem no século XXI vive num mundo em que, ao mesmo tempo que a tecnologia avança desenfreadamente, a desigualdade e exclusão social persistem e se agravam.

“Nunca houve tanta integração globalizada e ao mesmo tempo, nunca foram tão agudos os processos de exclusão e profundos os sentimentos de desconexão”, afirma Regina em seu artigo.

Estar online ou ligado nas televisões, computadores, celulares e redes sociais não garante inclusão. No entanto, não ter acesso a esses recursos também é sinal de não pertencimento.

Assim, os jovens têm medo de se desconectar, tanto da tecnologia, quanto da realidade fora da rede.

Medo de sobrar

A concepção moderna de juventude tem a escolaridade como etapa fundamental da passagem para a maturidade, mas sabemos que ela não se dá de forma homogênea. Na prática, a grande maioria dos jovens começa a trabalhar antes da fase adulta, alguns em busca da emancipação financeira e muitos em busca da sobrevivência pessoal e familiar.

No entanto, os avanços tecnológicos, a globalização e a dinamicidade do mercado de trabalho fazem com que jovens sintam-se inseguros em relação ao trabalho. Rápidas transformações econômicas, precarização das relações trabalhistas e a não garantia de inserção no mercado, tornam angustiantes as expectativas para o futuro. Daí o medo de sobrar.

Para Regina, a chave está na elaboração de políticas públicas que considerem as diversidades e especificidades das juventudes brasileiras e da condição juvenil.

“Fala-se do trabalho como espaço de realização humana. Contudo, ao mesmo tempo, também não pode ignorar os medos e as angústias dos jovens, cuja inserção econômica é condição para a emancipação”, explica.

Medo de morrer

Por último, as perspectivas dos jovens, em especial os brasileiros, no século XXI é muito diferente das perspectivas dos jovens de outras gerações. Se antes a juventude era associada ao gosto pela aventura, por correr riscos, justamente porque ser jovem era sinônimo de “estar longe da morte”, hoje a morte é um dos principais medos que marcam a experiência de jovens no país.

No Brasil, a cada 1000 jovens, 3 são assassinados antes de completar 19 anos. Segundo o Mapa da Violência de 2011, a taxa de mortalidade juvenil passou de 128 a cada 100 mil habitantes, em 1998, para 133, em 2008. Ao mesmo tempo, a taxa de homicídios para a população geral caiu de 633 em 100 mil habitantes, em 1980, para 568, em 2004.

“Assim, o medo de morrer prematuramente e de forma violenta também povoa transversalmente o imaginário desta geração”, conclui Regina.

O Jovem sujeito de direitos

Para a superação desses medos é preciso criar políticas públicas para as juventudes que considerem tanto seus diferentes contextos socioeconômicos e culturais, quanto suas questões subjetivas.

Dessa forma, desconstrói-se a ideia de que o jovem está desconectado da realidade, ou é o único responsável por seu futuro, ao mesmo tempo em que se retira a responsabilidade atribuída a toda uma geração, de resolver os problemas do país.

Para discutir esse tema com adolescentes e jovens, a Viração desenvolveu uma atividade abordando os três medos da juventude brasileira, sistematizadas por Regina Novaes. A atividade é um ótimo gancho para promover o debate sobre juventude enquanto categoria social, e sobre o entendimento de jovens como sujeitos de direitos.

Confira a proposta de atividade aqui.

A Viração

Através de encontros de formação, da mobilização social e da produção de produtos educomunicativos, a Viração Educomunicação estabelece e cultiva espaços de participação para que os jovens expressem seus desejos e angústias, e possam participar ativamente da sociedade e das decisões que os cercam.

Vira contrata: estagiário(a) em Comunicação e Marketing

A Viração é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua nas áreas de educomunicação, juventudes e mobilização social. O objetivo é, através da educomunicação, mobilizar adolescentes e jovens para a promoção e defesa de seus direitos, possibilitando a construção de uma sociedade justa, participativa e plural.

Objetivos do cargo

Auxiliar no desenvolvimento da comunicação institucional e interna, participar do desenvolvimento da estratégia de marketing da organização, e auxiliar na articulação e relacionamento com a rede de jovens conteudistas, dentro dos princípios da Viração Educomunicação.

Requisitos:

– Cursando Comunicação Social, Jornalismo, Relações Públicas, Marketing ou Publicidade (a partir do 3º semestre).

 

Principais responsabilidades:

  • Auxílio na produção, edição e distribuição de conteúdos jornalísticos para a Agência Jovem de Notícias;
  • Auxílio na mobilização e manutenção de uma rede de conteudistas colaboradores;
  • Auxílio na produção, edição e distribuição semestral da Revista Viração;
  • Atualização do canal de comunicação interna – jornal mural;
  • Produção de conteúdo para o blog institucional;
  • Produção de conteúdo para as redes sociais;
  • Apoio na criação das campanhas de inbound marketing;
  • Apoio na realização de eventos.

Conhecimentos específicos:

– Boa redação;
– Ter conhecimento em Redes Sociais é um diferencial;
– Ter conhecimento em produção de conteúdo para blog é um diferencial;
– Ter conhecimento em produção de conteúdo jornalístico é um diferencial;
– Pacote Office.

Desejável:

– Inglês Avançado;
– Conhecimento em Inbound Marketing/Marketing de relacionamento;
– Afinidade pelas temáticas de direitos humanos, mobilização social, comunicação colaborativa e juventudes;
– Ter conhecimento e/ou experiência SEO e Google Adwords.

Informações da vaga:

Carga horária: 30 horas semanais
Duração do contrato: 12 meses
Regime de contratação: estágio
Bolsa-auxílio: R$950,00
Auxílio alimentação: R$150,00
Vale-transporte: Sim
Local de trabalho: Viração Educomunicação – Rua Dr. Bittencourt Rodrigues, 88, cj. 102. Próximo ao Metrô Sé.

Processo de seleção:

As/Os interessadas/os nas vagas devem enviar uma carta de interesse dizendo por que querem trabalhar na Viração e currículo até dia 25 de maio de 2017, mencionandoEstágio Comunicação e Marketing 2017” no assunto da mensagem, para o e-mail: selecao@viracao.org.

Juventude e hip hop: conheça o virajovem Octávio

Octávio Lobo tem 19 anos e mora em Taipas, zona oeste de São Paulo. Há alguns anos atrás, se juntou com amigos do bairro e fundou o coletivo “A Rua Fala”, que realiza eventos de hip hop na quebrada.

Hoje um dos gêneros musicais mais reconhecidos, para Octávio o hip hop não é apenas um estilo de música, é um estilo de vida: “quando conheci o hip hop, entendi que tinha tudo a ver comigo”.

Depois de concluir o Ensino Médio, Octávio começou a cursar Ciências Sociais na faculdade, pensando em profissionalizar sua atuação no coletivo. Para ele, ser produtor cultural era uma grande responsabilidade e ele precisava ter uma base de conhecimento.

Infelizmente, teve que interromper os estudos por questões financeiras. Ele não tem um emprego fixo e, por enquanto, seu trabalho é a música, o que é um grande desafio.

Bom, pra quem não sabe, o hip hop é um movimento cultural de luta e resistência que nasceu nos anos setenta nas periferias de Nova York, a partir de coletivos negros da época.

O movimento tem uma base musical de funk e soul e é constituído por quatro elementos: o MC (mestre de cerimônia), que é a pessoa que tem a voz, escreve as rimas e canta; o DJ (disk jockey), que é a pessoa que solta as músicas e agita o público pra dançar; o(a) grafiteiro(a); e o break dancer, que é o elemento da dança, da arte expressiva corporal.

Octávio explica que o hip hop chegou no Brasil por volta dos anos oitenta,mas ainda hoje a mídia e a sociedade o descrevem como algo sem sentido,algo marginal. Ele repara que essa palavra,“marginal”, geralmente é associada a algo ruim.

“Se você olhar ao sentido literal da palavra, ela quer dizer “morar à margem da cidade” e isso não pode ser considerado algo sempre ruim”, explica.

De fato, outros estilos musicais como o blues, o jazz e o rock, nasceram das, e nas periferias, a partir de movimentos negros, e só deixaram de ser vistos como parte de uma cultura inferiorizada, marginalizada,quando consumidas e apropriadas por pessoas brancas.

 

Representatividade no Hip Hop

O hip hop nasceu do povo negro, mas é feito pra todos que buscam uma mensagem de luta e resistência. Hoje em dia, por exemplo, as mulheres ganharam maior visibilidade no hip hop porque esse momento histórico é o momento da luta delas. Na verdade, sempre existiram mulheres no hip hop, mas ofato do hip hop ser um movimento negro não excluiu o fato de ser machista.”.

Octávio acha que a relação do hip hop com as juventudes se dá na troca de informações.Os jovens prestariam muito mais atenção nas mensagens de um cara que tá cantando num palco do que nos políticos falando, explica. Além disso, ele acredita que o hip hop vem da transgressão, da necessidade de romper com paradigmas, e que esse desejo está muito presente entre os jovens de todo o mundo.

O que Octávio busca passar através do hip hop é a valorização da autoestima: “às vezes, as pessoas são muito desacreditadas delas mesmas, acham que não conseguem fazer aquilo que desejam por causa da cor da sua pele, ou de não se sentirem representados na sociedade”, e o hip hop traz uma mensagem de força, ele conta.

Quando Octávio era mais novo, ele alisava o cabelo crespo porque achava feio, e o hip hop o ajudou a entender que não precisava mudar quem ele era para ser reconhecido e se reconhecer.“O hip hop me ajudou a reconhecer quem eu sou e a me aceitar do jeito que eu sou”.

Além disso, Octávio acredita que o hip hop é uma válvula de escape, para ele e para outros jovens, porque ajuda a não reprimir sentimentos negativos. “Se uma pessoa estiver com raiva, por exemplo, no lugar de fazer besteiras, escrever uma música de raiva e isso se torna algo que pode até ajudar outras pessoas na mesma condição.”

Apesar da rua ser o espaço do hip hop, mesmo com eventos acontecendo por toda a cidade de São Paulo, seria preciso que essas intervenções chegassem no mainstream da TV e nas redes sociais, alcançando um público maior.

Isso já está acontecendo e algumas pessoas, especialmente nos Estados Unidos, estão até criando “empresas” de hip hop. Octávio acha que isso pode ser uma coisa boa se os artistas não silenciarem a história da origem do hip hop.

Apesar de ainda não ser tão popular no Brasil, as pessoas envolvidas com o hip hop estão construindo a sua própria mídia:seus programas, canais no YouTube, páginas no Facebook, contas no Spotify e Soundcloud. Ainda há muito o que se fazer quando o assunto é acessibilidade, mas as mídias alternativas e as redes sociais são um bom ponto de início.

 

Youth and Cinema: meet the Virajovem Gabriel

Gabriel Santos is 17 years old, has a positive attitude and dreamy eyes. He lives in Downtown São Paulo and is part of the Youth Press Agency project, in Viração. Although he’s interested in all forms of art, his real passion is cinema.

Anyone who’s met Gabriel when he was younger wouldn’t imagine he’d become such a specialist in the subject. He didn’t like cinema until his uncle showed him alternative movies and explained what really was behind the screen. Ever since that happened, the 7th art is part of his universe and of his identity.

The first movie to get his attention was “Run, Lola run!” (Tom Tykwer,1998). Gabriel was just eight years old when he watched it, at his uncle’s house. After observing all details of the movie, he loved it!

So, his uncle invited him to analyse Pixar movies as well, like Finding Nemo and Cars. At that time, Gabriel realised why he didn’t use to like cinema before: “I’ve always found the movies very boring, with simple stories, all alike”.

Later, he fell in love with Alfred Hitchcock’s movies. “I found his techniques so genius! I like that he always manages to make innocent things turn out to be dangerous in the end, just like in Psicose.” Through Hitchcock, Gabriel started studying more about cinema.

He liked the subject so much that, in 2018, he´s planning to study Filmmaking in college. His biggest goal is to bring back the elements and techniques from the 20s and 30s to contemporary movies, like the alternative films do.

“Usually in the cinema, the way of filming is pre-established. The scripts follow the same rules. But in the alternative movies, that doesn’t happen. You can mix and gather different techniques”, he explains.

As an example of alternative film, Gabriel cites “Dogville” (Lars von Trier, 2003). It captured his attention due to the simplicity of the sceneries and unusual scene cuts. The whole movie was filmed inside a galpon in Sweden, with very few accessories – there are only marks on the floor signaling elements of the space: houses, gardens etc, a technique better known as conceptual scenery. “While you’re watching it, you forget that there are no streets, walls or any real scenery.”

Though Gabriel loves cinema, he criticises the lack of representivity of youth in the industry. He doesn’t like the teenage movies, such as “Ferris Bueller’s Day Off” (John Hughes, 1986).

“It’s a Blockbuster movie that doesn’t represent youth as something difficult to go through, but as something purely fun. It’s a fact that the movie shows things that young people do until now: lie to parents, go to parties and that stuff”, he argues.

This kind of movie was really popular during the 80s, maybe because young people were the main public of the industry. But Gabriel still thinks that youth is not well represented in the big screen.

Another teenage movie produced by John Hughes during the 80s is “Breakfast Club”. This movie, though, is much better in Gabriel’s opinion. He thinks the characters are pure stereotypes – Alisson, the freak, is a compulsive liar; Andrew, the athlete, is insecure and stressed by his parents to follow athletic career; John, the rebel, comes from an abusive home; Brian, the geek, and Claire, the popular girl, are ashamed of their virginity. But, Gabriel thinks the movie explores the behavior of the characters, so it’s more complex and real.

“The movie shows why the characters are like that, what’s behind their behaviour, how their lives affect their choices.”

About youth and cinema, Gabriel believes there are some situations in which the directors are young, but the reviews are made by older people who have more influence inside the industry.

As a solution, he thinks youth should be more present in spaces of cinema discussion and debates. “The reviews would definitely be different if they were made by young people – they have less experience about the history of cinema, but they can be more creative and bring new references”, he says.

We don’t know the end of this script, but the options for Gabriel are many. All we can be suren is that there’s an independent co-scripted work in the making: the fight for the brazilian youth to occupy more spaces, either in the arts, in the streets, in the schools or in politics.

The exhibition will be free of charge.

Juventude, raça e gênero: conheça a virajovem Anita

Anita vive em São Paulo, tem 19 anos e a capacidade de falar sobre assuntos complexos de uma forma segura e tranquilizadora. Seu discurso carrega marcas dos temas que mais gosta de discutir e pelos quais transita muito bem: gênero e raça.

Quando criança, Anita estudava numa escola particular onde as únicas pessoas negras eram ela e suas duas irmãs. “Eu era criança e achava normal, nem notava isso. Crescendo, comecei a enxergar as coisas de outra forma e quando estava no último ano do colégio isso começou a ser uma questão pra mim. Foi quando parei de alisar meu cabelo e comecei a pôr tranças”.

Antes de se reconhecer como mulher negra, Anita achava que falar que o outro é “negro” era uma coisa ruim. Quando era pequena, ela e os primos se xingavam com expressões como “estopa suja” ou “flanela de borracheiro”. De fato, tudo o que está associado ao “negro” é negativizado no Brasil: lista negra, mercado negro, denegrir… Essas expressões reforçam e refletem o racismo normalizado na sociedade.

Uma das coisas que ajudou Anita nesse processo de reconhecimento foi o teatro. Entre tudo que ela sempre gostou de fazer, tipo ouvir música, tocar flauta e fazer rolês culturais com os amigos, o teatro teve grande importância em sua vida.

Seu primeiro contato com o palco foi através de um curso de teatro no Centro Cultural do Jabaquara, onde atuou junto ao grupo “A Ordem do Caos”. Depois, fez um curso de audiovisual na organização “Aldeia do Futuro”, onde conheceu o coletivo Quizumba, que discute justamente gênero e raça.

Foi nessa época que ela parou de alisar o cabelo e começou a se reconhecer como uma mulher bonita. “Óbvio que eu já sabia que eu era uma mulher negra, porque todo mundo sabe disso o tempo inteiro, mas daí comecei a me dar melhor com essa situação”.

Graças ao coletivo negro, Anita começou a se aprofundar no debate racial. Frequentava rodas de conversa e eventos promovidos pelo espaço. Um deles foi o curso técnico de cenografia, que se propunha a discutir gênero e o mercado audiovisual. “É difícil trabalhar com cenografia sendo mulher. Nas entrevistas, por exemplo, é comum eles acharem que ‘é preciso de um homem’ para carregar a tapadeira, ou esse tipo de coisa”.

Toda a sua trajetória fez com que Anita e algumas amigas fundassem o coletivo “Consagradas”, no ano passado. A ideia nasceu da necessidade de oferecer oficinas relacionadas à audiovisual e mercado de trabalho para mulheres mais velhas da periferia de São Paulo.

Um dos objetivos do coletivo é fazer com que essas mulheres reflitam sobre as alternativas de trabalho e modos de vida, além de ficar em casa ou trabalhar como doméstica, atividades comuns entre elas. A Consagradas também se propõe a promover o debate sobre o que é ser mulher e qual é o papel da mulher na sociedade, partindo da premissa “o lugar da mulher é onde ela quer estar”, como diz a própria Anita.

 

Sobre ser negra e ser mulher

Anita afirma que o racismo associado ao gênero feminino vai além de estereótipos de beleza. “Tem a questão da hipersexualização também, tanto que a referência que muitas pessoas têm do Brasil é da mulher mulata no carnaval. Têm armas e defeitos de todos os lados: muitas mulheres negras sofrem por não estar no padrão de beleza e aquelas que têm um corpo considerado bonito sofrem também, porque todo mundo mexe com elas na rua.”

Infelizmente, muitas pessoas ainda acham que o racismo e o machismo não existem, ou que são simplesmente formas de vitimismo. Anita observa isso principalmente entre as pessoas mais velhas, mas afirma que os mais jovens não apenas reconhecem essas temáticas, como também as problematizam.

“A gente está se questionando sempre o porquê das coisas serem assim, por que não poderiam mudar, e se mobilizando para participar de um mundo mais igualitário, justo, humano e colaborativo. Sobretudo, estamos pensando numa forma de mudar o fato das mulheres negras terem uma posição de inferioridade em relação às outras pessoas, tentando construir políticas públicas que favoreçam as pessoas que têm minoria em direito.”

Ainda há muito a ser feito, mas Anita acredita que o debate e os discursos sobre gênero e raça na sociedade brasileira estão mudando. E ela percebe isso dentro da sua própria casa. Sua prima, por exemplo, com oito anos de idade fala que não precisa alisar o cabelo e joga futebol. O primo, de cinco anos, brinca de boneca e diz que “não tem problema nenhum”.

“Seria bom a gente não precisar dessas divisões, porque normal é a gente ser diferente e estar todo mundo bem consigo mesmo”, conclui Anita.