Um viva à arte que produz e incomoda!

Muito ouvimos falar sobre gênero e sexualidade nos últimos meses. Do cancelamento pelo Santander Cultural da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira”, após uma série de protestos organizados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), acusando o banco de promover “pornografia” e mesmo incentivar a pedofilia por meio de isenções fiscais de dinheiro público, até a vinda da filósofa norte-americana Judith Butler para uma série de debates no Sesc Pompeia, em São Paulo, e a reação acalorada capitaneada pelo sentimento conservador de que Butler e sua obra seriam uma ameaça à família e símbolo-mor do que a direita e seu entorno convencionaram chamar de “ideologia de gênero”.

À parte do debate sobre a relação entre bancos e instituições financeiras e a promoção da cultura com dinheiro público no Brasil ou, ainda, caracterizações mais profundas sobre os atores que promovem a ideia reacionária de uma “ideologia de gênero”, me concentro neste primeiro texto para a Viração na relação entre arte, cultura e conhecimento.

Antes de mais nada, convém relembrar: a arte e a cultura não são meras representações da realidade, meras simbolizações do que um/a artista deseja expressar. A arte e a cultura produzem; são verdadeiras produtoras da realidade também. Produzem conhecimentos e saberes, produzem afetos, relações e sociabilidades, imaginários e convenções sociais ou culturais, entre outros exemplos. Se nos atentarmos para esse aspecto, fica mais fácil compreender porque tanto frisson em torno do que deve ou não ser exibido em um museu ou em uma instituição de arte.

Vivemos um momento histórico de grandes questionamentos e verdadeiras reinterpretações sobre o registro da nossa história (oficial) e de nossas histórias (plurais e permeadas por invisibilidades e silêncios, conforme salientaria o antropólogo e historiador haitiano Michel-Rolph Trouillot) – seja para se interrogar e alargar fronteiras e consciências sobre temas relativos a gênero e sexualidade, seja para enfrentar o legado do colonialismo e da escravidão em nosso país e as formas como o racismo brasileiro continua sistematicamente operando, seja para se compreender os desafios do ativismo e das militâncias na busca por meios de se fortalecerem em um contexto de inigualável desigualdade econômica no mundo.

Com sorte, muitas vezes todas essas questões ou tentativas de reinterpretações caminham juntas; o certo é que, diante da intensificação das discussões e debates envolvendo gênero, sexualidade, arte e cultura, o que presenciamos é uma reação conservadora à altura dos muitos acúmulos que o movimento social, no Brasil e no exterior, vem produzindo nos últimos anos.

Como não poderia e nem deveria deixar de ser, dada a função e papel social que exercem, os museus, as instituições culturais e as pessoas produtoras de arte fazem parte deste contexto. São diretamente impactados pelo debate público e pelas novas formas de entendimento que surgem sobre a experiência e a condição humana e nossa relação com nossos corpos, com nossa sexualidade, com novas e mutáveis categorias para se referir e se vivenciar gênero e sexualidade ou para se classificar o que é ou não violência ou assédio, por exemplo.  

Quando uma exposição ou uma proposta curatorial incomodam, produzem debates e, portanto, acabam por pautar parte do que é discutido na esfera pública, se desdobrando em outros espaços e outras atividades (de palestras e abaixo-assinados a manifestações), isto demonstra, em realidade, o quanto estão sintonizadas com as questões de seu tempo.

Por Tulio Bucchioni*

* Túlio é educador na área de gênero, sexualidade e prevenção de HIV/Aids e IST na Viração Educomunicação. É mestre em Antropologia Social pelo Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (DA/USP) e dedica suas às temáticas de gênero, sexualidade, representações sociais, mídia, imagem e fotografia.