Quanto vale um jovem?

Por Jonathan Moreira, da Agência Jovem de Notícias São Paulo

“Acordo. Almoço. Toma um banho. 23 minutos. Peço benção pra minha mãe. Enfrento ônibus lotado. Depois de 2 horas chego à Universidade. 23 minutos. Estudo. Sinto o meu “atraso” na aula. Vejo o reflexo de anos de escravidão. 23 minutos. Enfrento fome e desemprego. Volto pra casa. No escuro da cidade que me atravessa, bato a cabeça cansada na janela meio suja, mas que aparentemente se torna o melhor lugar. Chego em casa. 23 minutos”.

Com pausas bruscas e com a angústia de saber/sentir que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, começo meu texto.

Hoje é o dia Internacional da Juventude, data que não é recebida com cerimônias ou mensagens em peso na internet. As vezes é tratado com verdades estabelecidas e, quando muito, apenas um discurso biológico e cientificista. Achar que o conceito de juventude sempre esteve presente e inato em nossa sociedade é um erro, assim como acreditar que toda perspectiva sobre ser jovem é igual. Mentiras que são postas nesta sociedade, em que o disparate verbal se torna mais importante que o fato histórico em si.

O jovem é uma figura muito recente em nossa sociedade, se colocarmos em uma perspectiva histórica, e quando este é posto como um sujeito de direitos e com especificidades, o negócio fica mais louco ainda. Pois muitas vezes nós jovens somos considerados, simplesmente, como uma fase de transição, na qual nossa única capacidade é  aprender com os mais velhos para tornarmos adultas as ideias.

Recipientes vazios que são preenchidos com uma sabedoria que estampa e canta experiências e conhecimentos. Mas não é assim. A partir do momento que o ser humano nasce, suas relações com o espaço, o tempo e com as pessoas, já geram muitas experiências e conhecimentos que devem ser levados em conta. Não que exista alguma verdade extremamente absoluta. Mas o espaço de compartilhamento deve ser estabelecido.

O fato dos nossos corpos e percepções a respeito o mundo estarem em constante movimento, não diz que somos simplesmente inocentes e ignorantes. Estamos em um momento especial de nossas vidas, com grandes transformações e relações, que não dizem apenas sobre o corpo físico, mas que transbordam.

Percebo que o desejo do controle total sobre as escolhas do corpo jovem é uma forma de garantir o controle social, pautado em ideias que conservam diversas violências, como desigualdades de gênero e raça. Pensamentos que configuram o país como uma máquina de matar. O Brasil ocupa a sétima colocação em número de assassinatos de pessoas entre 15 e 29 anos no mundo, morte que tem cor, gênero e classe.

Ademais, quando colocamos o jovem negro em questão, as percepções mudam significativamente. Pois enquanto alguns estavam lutando pela garantia dos direitos da juventude, adolescentes e jovens negros lutavam pelo reconhecimento de serem humanos. Quando vemos em manchetes de jornai que os brancos são considerados “jovens” e os negros “menores infratores”, entendemos a significação do corpo negro.

Pelo fato de estarmos alicerçados em um contexto racista e escravocrata, que é ignorado por muitas figuras públicas, somos vistos apenas como mão de obra e força produtiva, privados dos direitos dignos de todo ser humano. Somos uma “nação” que se alimentou em peitos de garotas pretas que, antes de se (re)conhecerem, eram transformadas em mulheres, em plenas agressões, que escorrem em nossa atualidade.

 Quando decidi fazer faculdade recebia e ainda recebo muitos olhares surpresos.  Grande parte dos meus amigos de infância estão ralando desde muito cedo, trabalhos informais para conquistarem sua independência financeira. Jovens pobres que muitas vezes não têm a oportunidade de viveram diversas experiências, espaços e conhecimentos, pois precisam contribuir com a renda familiar. Estão entregando folhetos, vendendo água no trem e no trânsito, ajudando em serviços braçais, cuidando de crianças, fazendo faxinas.

Ou estão sendo assassinados no tráfico por uma violência policial cruel e um Estado que trata o corpo jovem negro como marginal, individualiza todas as suas escolhas e ações, como se tudo dependesse exclusivamente dele, ofusca as diversas subjetividades e desigualdades sociais que trilham “muito bem” o caminho deste jovem. Assim como tumbeiros que cortaram este grande mar com lágrimas salgadas. PAUSA. 23 minutos. “ELE NÃO VIU QUE EU ESTAVA COM O UNIFORME DA ESCOLA”. Marcos Vinicius da Silva, 14 anos. Ou só mais um Silva. De pele escura. É assassinado por forças policiais e do Estado.

Este sistema vigente está cada vez mais usando ferramentas meritocráticas para não se responsabiliza pelass dívidas e deveres sociais. Não ponderam as desigualdades  de gênero, raça e classe. Como se tudo dependesse apenas de você, apagam qualquer resquício histórico. O “fracasso” não é um problema exclusivamente individual, não empurra só você. Leva também  pessoas com histórias semelhantes a sua.

Mas enquanto não verem as experiências dos jovens além da carteira assinada, enquanto não perceberem nossa potencialidade, ouvirem nossas contribuições sem classificar como “ele não sabe o que está falando”. Enquanto não houver reparações histórias para jovens negros e pobres será muito difícil arranjar um trampo. E por fim, estabelecer uma juventude que vivencia e contribui ativamente para o desenvolvimento do país e do mundo parece uma tarefa intensa, mas saiba que existem muitos movimentos de jovens lutando por maior participação na política, em ONGs, associações, famílias… Para construírem juntos, caminhos menos tortuosos.