Participação política LGBT: muitos desafios em um cenário complexo

Por Tulio Bucchioni, Antropólogo e pesquisador na área de gênero e sexualidade 

Gostaria de começar com uma pergunta: o que é necessário para uma pessoa se tornar politicamente ativa? Se tentarmos responder espontaneamente essa questão, talvez nos deparássemos com uma combinação de alguma experiência e/ou consciência de desigualdades e direitos, uma dose de rebeldia e determinação, um pouco de coragem.

No caso de ativistas LGBT comprometidos com a defesa da diversidade e da igualdade de gênero e de sexualidade, porém, é preciso dar alguns passos para trás. Em primeiro lugar, para ser uma pessoa LGBT politicamente ativa é preciso não apenas “sair do armário”, mas estar confortável e confiante com relação a sua identidade e prática sexual. Isso porque agir politicamente como um ativista LGBT equivale a assumir publicamente uma identidade e/ou uma prática sexual não-normativa – o que pode significar desde a quebra de relações familiares, de amizades e afetos, até o surgimento e enfrentamento de ameaças e violências diversas. Mas como experimentar confiança e conforto sendo LGBT em um país tão LGBTfóbico como o Brasil?

Respostas não são óbvias, nem fáceis. Se para a população em geral a capacidade de participação política está diretamente relacionada com a possibilidade de sobreviver com o mínimo de dignidade e liberdade, com acesso a emprego e alimentação, por exemplo, os caminhos para a confiança e o conforto em ser LGBT e agir politicamente em torno disso envolvem também importantes fatores emocionais – como a capacidade de se construir autoestima e alguma estrutura de afeto que permita superar experiências negativas de exclusão, violência e solidão, entre outras. Nesse sentido, a conexão entre experiências individuais e coletivas da comunidade LGBT é um passo fundamental para tornar possível a ação política em nome de todo um grupo social.  

Por fim, é preciso ter em conta a dimensão da complexidade da relação entre a participação política de pessoas LGBT e a ocupação do espaço público no Brasil. Um exercício eficiente para aguçar nossa percepção da LGBTfobia na sociedade brasileira é se perguntar: quantas são as lideranças e pessoas que ocupam cargos políticos assumidamente LGBT? Entre essas pessoas, quantas fazem da política um lugar para a luta pela garantia de direitos sexuais e reprodutivos e a defesa intransigente da diversidade e da igualdade de gênero e de sexualidade?

Como se vê, os desafios são muitos e os obstáculos do contexto brasileiro não podem ser subestimados. Ainda assim, é alentador constatar que a força dos movimentos feminista e LGBT e a discussão sobre gênero e sexualidade no Brasil e no mundo já se tornaram uma marca do momento histórico em que vivemos. Esmiuçar as experiências LGBT, os significados de viver identidades e práticas sexuais não-normativas, valorizar a memória e a história da comunidade, entre outros aspectos, são caminhos para se construir respostas à altura de nossos desafios para uma maior participação política.