[ENTREVISTA] A Amazônia queima, Bolsonaro comemora: agora ele é a maior ameaça ao planeta

Paulo Lima, diretor executivo da Viração Educomunicação, foi entrevistado por um jornal italiano sobre as políticas antiambientalistas do atual governo. Confira o conteúdo a seguir!

Link para a publicação original: L’Amazzonia brucia, Bolsonaro gode: ora è lui la più grande minaccia per il Pianeta

 

Satélite da NASA registra imagens das queimadas na Amazônia.
(Foto: AFP PHOTO / NASA EARTH OBSERVATORY/LAUREN DAUPHIN/HANDOUT)

 

O desmatamento da Amazônia brasileira ultrapassou o limite de três campos de futebol por minuto. Não sabendo por quanto tempo o negacionista do clima Jair Bolsonaro irá governar, agricultores e pecuaristas brasileiros tentam desmatar as florestas tropicais o máximo possível .

A noite de dia. Esta é a imagem perturbadora que vem de São Paulo, a maior cidade do Brasil, que ontem foi envolta em uma névoa negra por volta das 3 da tarde. Na origem da nuvem, os imensos incêndios na floresta amazônica, a centenas e centenas de quilômetros de distância da capital, que atingiram números recordes. A confirmação também vem de autoridades do Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil (Inmet), que reiteraram como a cena apocalíptica é resultado da presença de ar frio e úmido e de enormes quantidades de fumaça. As imagens do sombrio crepúsculo do meio-dia de São Paulo rodaram o mundo, tornando-se rapidamente um ícone do ecocídio que vem crescendo exponencialmente no Brasil há meses. Imediatamente, seguiu-se a hashtag viral #prayforamazonia. “Este é o sintoma mais agudo da luz verde dada pelo governo Bolsonaro ao poderoso mundo do agronegócio brasileiro”, explica Paulo Lima, ambientalista e diretor da associação Viração, com sede em São Paulo. “Desde o início do novo governo, o desmatamento voltou a bater todos os recordes. Grandes empresas e pequenos produtores se sentem legitimados para desmatar e queimar o máximo que podem. Basta imaginar que em 10 de agosto passado, na cidade de Novo Progresso, no estado do Pará, os agricultores instituíram o ‘dia do fogo’, encorajados por um governo que os apoia plenamente”.

O desmatamento da Amazônia brasileira ultrapassou o limiar de três campos de futebol por minuto, segundo os últimos dados do governo. Do ponto de vista da área, em julho, 1.345 km2 desapareceram, um terço a mais do que o recorde mensal anterior do atual sistema de monitoramento de satélites Deter B, iniciado em 2015. Somente em agosto,  houve 71.497 incêndios de médias e grandes proporções, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), centro de pesquisa especializado em análise de imagens de satélite (o diretor do INPE, Ricardo Galvão, foi demitido por Bolsonaro justamente por sua pesquisa sobre os incêndios). Dados fora da curva, que mostram quão rapidamente se está empurrando a maior floresta tropical do mundo a um ponto sem retorno, em que todo o ecossistema corre o risco de ser comprometido. Condenando plantas e animais ao desaparecimento.

Para o mundo ambientalista brasileiro, pecuaristas e agricultores aproveitaram a oportunidade e, sem saber quanto tempo durará o governo de Jairo Bolsonaro, declaradamente negacionista do clima e, desde o primeiro dia, promotor da expansão das áreas agrícolas na Amazônia, estão tentando adquirir e desmatar florestas tropicais o mais rápido possível. Terras que são frequentemente retiradas das comunidades indígenas, violando seus direitos fundamentais. “A ‘noite’ de São Paulo é a prova decisiva dessa loucura”, continua Paulo. “Hoje os defensores da terra estão em risco. Os assassinatos aumentaram exponencialmente.” Alguns dias atrás, em Brasília, para protestar contra o ecocídio, foi realizada a “Marcha das Margaridas”, tradicional movimento de mulheres rurais que, este ano, reuniu também mais de 2000 mulheres indígenas. Mas Bolsonaro reitera: nem um centímetro de terra a mais para comunidades indígenas.

A diplomacia começa a demonstrar reações. A Alemanha e a Noruega anunciaram a suspensão do financiamento do Fundo Amazônia, criado para proteger as florestas, bloqueando cerca de 70 milhões de euros (a Noruega investiu um total de aproximadamente 800 milhões de euros em 11 anos). Além disso, vários jornais, como o The Guardian e a Al Jazeera, especularam sobre como o ecocídio do governo Bolsonaro poderia bloquear a ratificação do acordo comercial UE-Mercosul. Dois ex-ministros do Meio Ambiente brasileiros, José Sarney Filho e Izabella Teixeira, declararam que Bolsonaro destruiu rapidamente a reputação do Brasil como produtor responsável de alimentos e a posição de líder na luta pelo controle do desmatamento. Sarney Filho reiterou que parlamentares da UE, especialmente os de grandes países agrícolas como França e Itália, estão dispostos a se opor à ratificação do acordo concluído no mês passado com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. O presidente francês, Emmanuel Macron, já havia avisado em junho que não assinaria o acordo UE-Mercosul se Bolsonaro retirasse o Brasil do acordo climático de Paris.

Também a sociedade civil brasileira está se mobilizando. “Nos últimos meses, tem havido muita agitação no mundo ambientalista e dos grandes movimentos sociais e de trabalhadores brasileiros”, continua Paulo Lima. “Até recentemente, não havia interesse dos movimento sociais pelas questões climáticas. Mas agora a situação está mudando e, em setembro, uma das maiores ‘Fridays for Future’ poderá ser realizada no Brasil.” O incentivo também poderia vir de Greta, que planejou uma escala brasileira em sua jornada pela América. A esperança para muitos é de que o governo de Bolsonaro caia em breve. Não há nada mais perigoso para o planeta hoje.