Comer é um ato político?

Por Karina Nishioka e Fabrício Muriana, associados e idealizadores do Instituto Feira Livre *
 
Muita gente já germinou um grão de feijão no algodão. Muitos transplantaram o feijão para a terra e puderam ver o grão se transformar numa vagem cheia de outros grãos. A ideia mais simples de agricultura, como a atividade que depende apenas de sementes e terra para que qualquer pessoa cultive seu próprio alimento é libertadora e democrática. Mas, se é assim tão simples, porque vemos por toda parte campanhas de combate à fome e trabalhadores do campo tão miseráveis?
 
Constantemente nos depararmos com a informação de que a agricultura tradicional, como a conhecemos, não atende à demanda mundial por alimentos. A partir da nossa percepção sobre o crescimento da população nas grandes metrópoles ou sobre o movimento migratório das pessoas do campo para as cidades, essa informação soa factível: existem menos pessoas plantando e mais pessoas comendo.
 
Para manter os supermercados abastecidos, o problema da demanda abriu espaço para soluções tecnológicas que rapidamente permitiram que a agricultura tradicional, responsável por abastecer cadeias curtas de consumo, desse lugar às grandes plantações. Monoculturas setorizadas que produzem alimentos para o mercado interno e externo. Passamos a cultivar em escala e exportar comida sob a ótica do agronegócio e sob o argumento de erradicar a fome. 
  
A tecnologia que tanto nos ajudou a promover qualidade e diversidade, indispensáveis em diversos lugares, interferiu na dinâmica do campo. O agricultor que selecionava, germinava e plantava suas sementes segundo conhecimentos ancestrais, viu surgir ao lado de sua terra, fazendas dedicadas a poucas espécies, com sementes patenteadas que faziam necessário o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, e assim asseguravam a colheita mecânica de um mesmo insumo o ano inteiro. A produtividade a qualquer preço, que tem por único fim o lucro, trouxe riqueza ao dono da propriedade enquanto oferecia poucas alternativas ao pequeno agricultor e à população rural: ou passa-se a produzir sob os novos moldes, ou sofrerá as múltiplas consequências de enfrentar o agronegócio.
 
Em entrevista ao Nexo, Paolla Carosella comenta que se os alimentos cultivados com agrotóxico realmente alimentassem o mundo, ela estaria de acordo com o uso. O argumento dela contra agrotóxicos se encontra no fato de que por onde passam, os produtos da indústria química deixam um rastro de miséria. Aumenta o número de mortes no campo por contaminação. Em geral seu emprego está atrelado a uma agricultura altamente mecanizada, onde o fator humano é (e historicamente é) relegado às piores condições. Ninguém em sã consciência optaria por trabalhar com venenos por toda uma vida se não fosse essa uma de suas únicas alternativas de sobrevivência. Não por acaso, um dos maiores problemas relatados por agricultores é que a vida no campo vem perdendo sua dignidade, o que faz com que ainda menos gente se interesse por permanecer no campo e por produzir. 
 
Na outra ponta da cadeia está uma maioria de consumidores que vivem um tempo em que a normalidade é o consumo de alimentos cultivados com o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, sem saber quais e em quais quantidades. O agronegócio conta com a desinformação transversal como estratégia para inibir manifestações sociais e dinheiro para garantir a permeabilidade desses métodos em meio às políticas públicas. A união entre agronegócio e outros setores da indústria, que cooperam na manutenção desta realidade, tornam ainda mais difícil a resistência por parte das organizações da sociedade civil.
 
Quando afirmamos que comer é um ato político, o fazemos sabendo que é impossível transformar a realidade por completo apenas pela via do consumo. Ademais, nem todos podem escolher qual alimento consumir. Mas, enquanto diante de escolhas, não nos conscientizarmos de que mastigar é contribuir para a produção, distribuição, comercialização e consumo daquele produto, gerando reflexos econômicos, ambientais e sociais, seguiremos servindo à política dos que nunca deixaram de fazê-la.
 
* O Instituto Feira Livre é  uma associação sem fins lucrativos que promove o acesso a produtos orgânicos de maneira transparente e sustentável: sem agrotóxicos e sem especulação. A proposta é estabelecer relações comerciais justas com todos os atores da cadeia produtiva, conectando quem produz a quem consome. No primeiro semestre de 2018, o Instituto Feira livre tornou-se parceiro da Viração na oferta de lanches orgânicos e saudáveis para os jovens participantes das atividades realizadas pela organização.