Quanto vale um jovem?

Por Jonathan Moreira, da Agência Jovem de Notícias São Paulo

“Acordo. Almoço. Toma um banho. 23 minutos. Peço benção pra minha mãe. Enfrento ônibus lotado. Depois de 2 horas chego à Universidade. 23 minutos. Estudo. Sinto o meu “atraso” na aula. Vejo o reflexo de anos de escravidão. 23 minutos. Enfrento fome e desemprego. Volto pra casa. No escuro da cidade que me atravessa, bato a cabeça cansada na janela meio suja, mas que aparentemente se torna o melhor lugar. Chego em casa. 23 minutos”.

Com pausas bruscas e com a angústia de saber/sentir que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, começo meu texto.

Hoje é o dia Internacional da Juventude, data que não é recebida com cerimônias ou mensagens em peso na internet. As vezes é tratado com verdades estabelecidas e, quando muito, apenas um discurso biológico e cientificista. Achar que o conceito de juventude sempre esteve presente e inato em nossa sociedade é um erro, assim como acreditar que toda perspectiva sobre ser jovem é igual. Mentiras que são postas nesta sociedade, em que o disparate verbal se torna mais importante que o fato histórico em si.

O jovem é uma figura muito recente em nossa sociedade, se colocarmos em uma perspectiva histórica, e quando este é posto como um sujeito de direitos e com especificidades, o negócio fica mais louco ainda. Pois muitas vezes nós jovens somos considerados, simplesmente, como uma fase de transição, na qual nossa única capacidade é  aprender com os mais velhos para tornarmos adultas as ideias.

Recipientes vazios que são preenchidos com uma sabedoria que estampa e canta experiências e conhecimentos. Mas não é assim. A partir do momento que o ser humano nasce, suas relações com o espaço, o tempo e com as pessoas, já geram muitas experiências e conhecimentos que devem ser levados em conta. Não que exista alguma verdade extremamente absoluta. Mas o espaço de compartilhamento deve ser estabelecido.

O fato dos nossos corpos e percepções a respeito o mundo estarem em constante movimento, não diz que somos simplesmente inocentes e ignorantes. Estamos em um momento especial de nossas vidas, com grandes transformações e relações, que não dizem apenas sobre o corpo físico, mas que transbordam.

Percebo que o desejo do controle total sobre as escolhas do corpo jovem é uma forma de garantir o controle social, pautado em ideias que conservam diversas violências, como desigualdades de gênero e raça. Pensamentos que configuram o país como uma máquina de matar. O Brasil ocupa a sétima colocação em número de assassinatos de pessoas entre 15 e 29 anos no mundo, morte que tem cor, gênero e classe.

Ademais, quando colocamos o jovem negro em questão, as percepções mudam significativamente. Pois enquanto alguns estavam lutando pela garantia dos direitos da juventude, adolescentes e jovens negros lutavam pelo reconhecimento de serem humanos. Quando vemos em manchetes de jornai que os brancos são considerados “jovens” e os negros “menores infratores”, entendemos a significação do corpo negro.

Pelo fato de estarmos alicerçados em um contexto racista e escravocrata, que é ignorado por muitas figuras públicas, somos vistos apenas como mão de obra e força produtiva, privados dos direitos dignos de todo ser humano. Somos uma “nação” que se alimentou em peitos de garotas pretas que, antes de se (re)conhecerem, eram transformadas em mulheres, em plenas agressões, que escorrem em nossa atualidade.

 Quando decidi fazer faculdade recebia e ainda recebo muitos olhares surpresos.  Grande parte dos meus amigos de infância estão ralando desde muito cedo, trabalhos informais para conquistarem sua independência financeira. Jovens pobres que muitas vezes não têm a oportunidade de viveram diversas experiências, espaços e conhecimentos, pois precisam contribuir com a renda familiar. Estão entregando folhetos, vendendo água no trem e no trânsito, ajudando em serviços braçais, cuidando de crianças, fazendo faxinas.

Ou estão sendo assassinados no tráfico por uma violência policial cruel e um Estado que trata o corpo jovem negro como marginal, individualiza todas as suas escolhas e ações, como se tudo dependesse exclusivamente dele, ofusca as diversas subjetividades e desigualdades sociais que trilham “muito bem” o caminho deste jovem. Assim como tumbeiros que cortaram este grande mar com lágrimas salgadas. PAUSA. 23 minutos. “ELE NÃO VIU QUE EU ESTAVA COM O UNIFORME DA ESCOLA”. Marcos Vinicius da Silva, 14 anos. Ou só mais um Silva. De pele escura. É assassinado por forças policiais e do Estado.

Este sistema vigente está cada vez mais usando ferramentas meritocráticas para não se responsabiliza pelass dívidas e deveres sociais. Não ponderam as desigualdades  de gênero, raça e classe. Como se tudo dependesse apenas de você, apagam qualquer resquício histórico. O “fracasso” não é um problema exclusivamente individual, não empurra só você. Leva também  pessoas com histórias semelhantes a sua.

Mas enquanto não verem as experiências dos jovens além da carteira assinada, enquanto não perceberem nossa potencialidade, ouvirem nossas contribuições sem classificar como “ele não sabe o que está falando”. Enquanto não houver reparações histórias para jovens negros e pobres será muito difícil arranjar um trampo. E por fim, estabelecer uma juventude que vivencia e contribui ativamente para o desenvolvimento do país e do mundo parece uma tarefa intensa, mas saiba que existem muitos movimentos de jovens lutando por maior participação na política, em ONGs, associações, famílias… Para construírem juntos, caminhos menos tortuosos.

Resultado de seleção: Projeto Pra Brilhar

A equipe Viração selecionou 37 jovens para a segunda turma do projeto Pra Brilhar. São eles:

Victor Hugo Viana dos Santos

Thales Goés

Paulo dos Santos

William

Geison dos Reis

Luan Richard

Felipe Gustavo

Wesley Medeiros

Reverson Douglas

Gustavo Liberato

Venicio Santos

Fabiano Henrique

Wesley Rafael

Eduardo Henrique

Guilherme Paulo

João Vitor

Matheus

Guilherme Henrique

Cristian Fernandes

Vitor Matsumoto

Pablo Diego

Glaicon Lopes

Gabriel Morais

Carlos da Silva

Jean Carlos da Silva

Felipe Alves Araujo

Victor Azevedo

Jonatha Junior

Lucas Estevam Lima

Bruno Gonçalves

Felipe Piva

Igor Pacheco

Fabio Augusto

Pedro Barbosa

Samuel

Caique Alves

Bruno Nathan

O projeto acontece nas sextas-feiras, das 19h às 22h, a partir do dia 10 de agosto até o dia 26 de outubro. Os jovens participantes receberão vale transporte e um lanche nos dias do encontro. Os selecionados serão contactados pela equipe Viração.

Viração contrata: Estagiário em educomunicação

A Viração é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua nas áreas de educomunicação, juventudes e mobilização social. O objetivo é, através da educomunicação, mobilizar adolescentes e jovens para a promoção e defesa de seus direitos, possibilitando a construção de uma sociedade justa, participativa e plural.

Objetivos do cargo

Facilitar o processo de produção e distribuição de pautas do programa Agência Jovem de Notícias; apoiar educadores/as durante as oficinas de educomunicação e auxiliar na articulação da rede de jovens e facilitar seu processo de produção, dentro dos princípios da Viração Educomunicação.

A Agência Jovem de Notícias é um programa da Viração que tem como objetivo promover a cidadania ativa de adolescentes e jovens por meio de processos, ações e produtos de comunicação e mobilização social. Com a orientação da equipe de comunicação e educação da Viração, adolescentes e jovens produzem notícias para o portal online da Agência, cobrindo pautas da atualidade a partir de seus olhares e experiências. Além do espaço virtual, a Agência tem também a formação presencial, que articula atividades de formação sobre comunicação e direitos humanos, e reúne adolescentes e jovens de diferentes partes da cidade de São Paulo.

Requisitos:

– Cursando Comunicação Social, Jornalismo ou educomunicação (a partir do 4º semestre); Residente da cidade de São Paulo.

Principais responsabilidades:

  • Auxílio na produção, edição e distribuição de conteúdos jornalísticos para a Agência Jovem de Notícias;
  • Produção de conteúdo para as redes sociais da Agência Jovem de Notícias;
  • Auxílio na mobilização e manutenção de uma rede de jovens colaboradores;
  • Auxílio na mobilização de adolescentes para participação nas oficinas de educomunicação;
  • Apoio aos educadores durante as oficinas de educomunicação;
  • Auxílio na produção, edição e distribuição semestral da Revista Viração;

Conhecimentos específicos:

  • Boa redação;
  • Conhecimento em Redes Sociais;
  • Conhecimento em SEO e Google Adwords é um diferencial;
  • Conhecimento em produção de conteúdo jornalístico;
  • Pacote Office.

Desejável:

  • Inglês Avançado;
  • Afinidade pelas temáticas de direitos humanos, mobilização social, educomunicação e juventudes;
  • Ter experiência SEO e Google Adwords.

Informações da vaga:

  • Carga horária: 30 horas semanais
  • Duração do contrato: 12 meses
  • Regime de contratação: estágio
  • Bolsa-auxílio + Transporte
  • Local de trabalho: Viração Educomunicação – Rua Araújo, 124, 3 andar, República, São Paulo (SP)

Processo de seleção:

As/Os interessadas/os nas vagas devem enviar uma carta de interesse dizendo por que querem trabalhar na Viração e currículo até dia 24 de julho de 2018, mencionando “Estágio Comunicação 2018” no assunto da mensagem, para o e-mail: selecao@viracao.org.

Quais os desafios da sociedade civil organizada no Brasil?

Por Paula Bonfatti, Analista de Comunicação e Marketing da Viração

A sociedade civil organizada vem respondendo de diferentes maneiras aos retrocessos no campo dos direitos sociais que acometeu o Brasil nos últimos anos. Articulações em rede, cooperações e novas formas de mobilização social e de recursos surgem, enquanto o papel do estado no fortalecimento do terceiro setor passa a ser secundário e muitas vezes antagonista.

Confira a entrevista sobre o atual cenário político e econômico brasileiro e seus impactos no terceiro setor com Márcia Moussallem, socióloga, assistente social, mestre e doutora em serviço social, políticas sociais e movimentos sociais pela PUC/SP.

1- Na sua avaliação, qual é o papel do governo para com a sociedade civil organizada? Como isso tem se dado no Brasil?

Primeiro, temos que pensar que a sociedade civil organizada é um todo. São as associações, fundações, movimentos populares, coletivos […]. O papel do governo com relação a essa sociedade civil organizada deveria ser de compartilhamento, deveria ser de parceria, deveria ser como atores em conjunto que lutam por direitos, por uma sociedade mais justa. Porém, o que estamos vendo é que é esse governo, o estado de um modo geral, perante a sociedade civil organizada, não é nada disso. Pelo contrário, é corte de verba nos projetos sociais, como temos visto aqui em São Paulo, uma repressão contra os movimentos sociais muito grande… Ou seja, estamos vendo um distanciamento muito grande nos três últimos anos do governo em relação a sociedade civil organizada. [O governo] é um ator esquecido, um ator que vem tolindo os projetos, as ações e o campo de luta da sociedade civil organizada. Então, infelizmente, vemos um retrocesso com relação a essa visão mais compartilhada do governo, o estado de uma forma geral, com a sociedade civil. O que é lamentável, porque cada um tem o seu papel. A sociedade civil organizada é a sociedade civil no ponto de vista da cidadania ativa, um estado presente no campo das políticas públicas é um estado próximo da sociedade civil. Então, ver a demanda da sociedade civil, ver a demanda das associações, ver a demanda dos movimentos populares, que é o campo dos direitos e a defesa da cidadania […] é um papel do governo que infelizmente ofuscou, foi esquecido nesses últimos 3, 4 anos, pós golpe contra a presidenta Dilma, o que é lamentável.

2- De que forma a crise econômica e política no Brasil impacta as organizações da sociedade civil?

Impacta negativamente, tanto do ponto de vista econômico, como político. A gente vive uma crise econômica sem precedentes e isso afeta a gestão das organizações, a questão salarial dos funcionários, da captação de recursos, […], do desemprego, as organização estão demitindo pois não estão dando conta… A questão da sustentabilidade enfraquece muito. E a crise política obviamente é a perda dos direitos, esses projetos conservadores no Congresso Nacional e mais as medidas do governo Temer afetam diretamente. Porque as organizações do terceiro setor trabalham na defesa dos direitos da criança, do adolescente, do meio ambiente, dos indígenas, das mulheres, dos negros, e obviamente as pautas conservadoras afetam as organizações porque até então o estado é um parceiro do terceiro setor, dessas organizações […]. [A crise política e econômica] Só não têm impacto nas organizações que ainda promovem a filantropia e o assistencialismo. Essas organizações que fazem assistencialismo não têm compromisso nenhum no campo da defesa de direitos, porém nas organizações comprometidas, […] isso tem um efeito muito grande. Porque o terceiro setor faz parte da sociedade civil e a sociedade civil é atingida diretamente pelas as questões econômicas e políticas, que vão desde os arrochos, a questão do desemprego, até as pautas conservadoras que incluem diferentes indivíduos. Isso afeta obviamente as ações e programas do terceiro setor.

3- Como você avalia o papel da sociedade civil organizada na luta por um país democrático e contra a perda de direitos?

A gente vê um movimento de organizações frente a toda essa conjuntura de retrocesso social, político, enfim, em todos os campos, a gente vê uma parte dessas organizações reagindo, lutando, formando grupos de trabalho, fóruns de discussão. Por exemplo, um dos projetos que voltou a tona agora é a redução da maioridade penal, então têm fóruns de organizações que trabalham com crianças e adolescentes se articulando e pressionando o governo contra essas pautas. Não somente isso, mas organizações também no campo dos direitos indígenas, dos direitos quilombolas e direitos das mulheres. Então o papel da sociedade civil hoje, e sempre deveria e deve ser, é de articulação, de pressão, intervensão nesse campo. O terceiro setor tem que sair ou um pouco do seu umbigo, das suas micro realidades, micro organizações, as questões somente da gestão, da sustentabilidade, e ir pro campo da luta, porque isso afeta diretamente todas as suas ações. E o papel [do terceiro setor] tem que ser um papel ativista, um papel de articular, de pressionar melhorias, projetos, em prol da sociedade civil. Porém, nem todas as organizações pensam e atuam dessa forma, porque muitas acham que isso é papel dos movimentos sociais, dos movimentos populares e dos coletivos. Elas acham que elas têm que cuidar da gestão e de seus projetos, na verdade não são seus projetos, são projetos da sociedade civil. O terceiro setor é um ator dentro desse campo e no campo da luta por direitos e por um país mais democrático, a sociedade civil organizada tem um papel fundamental, ainda mais em tempos de perda de direitos. A sociedade civil tem sim que articular, sair de dentro da sua casinha e pressionar, como algumas estão fazendo.

4- Hoje, muitas organizações enfrentam desafios para captar recursos. Isso pode ser também reflexo do momento político e econômico que estamos vivendo? O que isso representa?

Piorou muito a captação de recursos frente a crise econômica e política do país […], a conjuntura afeta a todos inclusive a sustentabilidade dessas organizações. Porém, esse não é um fato novo… a captação de recursos sempre foi um problemas pras organizações de uma forma geral no Brasil. Pela ausência de capacitação, de formação e muito amadorismo nesse campo da captação ou mobilização de recursos. Amadorismo no sentido de não saber como captar, ou depender somente de uma fonte, por exemplo o estado. Muitas organizações dependem 100% do estado, imagine na atual conjuntura de afastamento do estado nas questões sociais e da perda de direitos, o que acontece com essas organizações? Elas estão fechando. Então captação de recursos significa uma intervenção mais sistemática, mais profissional. Organizar uma área de captação de recursos, diversificas as fontes, parceiros, metodologias, campanhas. Então eu diria que esse sempre foi um desafio. As organizações investirem de forma séria numa captação de recursos mais profissional e não amadora […]. Isso sempre foi um desafio, como pensar a captação e a sustebtabilidade a médio e longo prazo, não a curto prazo. […] Muitas organizações não se prepararam pra essa crise econômica, principalmente as organizações de pequeno e médio porte […]. Agora é a hora das organizações fazerem uma auto crítica, uma auto reflexão, que não é porque é terceiro setor que não devemos ser mais profissionais; adotar uma sistematização séria e profissional no campo de captação de recursos não quer dizer que vai virar empresa privada ou que vai acabar com a missão, destruir a causa, pelo contrário, é fortalecer, se preparar, ter uma gestão mais profissional, mais sustentável, e em tempos de crise obviamente ter um preparo maior para poder levar as atividades e projetos adiante […].

O que são moedas sociais e como contribuem para a construção de uma economia justa e solidária

Por Natália Aquino, da Agência Jovem de Notícias

Hoje, as moedas sociais cumprem um papel fundamental no desenvolvimento de comunidades no Brasil e no mundo. Ao contrário da moeda oficial, a moeda social permite a criação de um mercado complementar e oferece a possibilidade de se produzir e consumir dentro de um circuito fechado e local.

A primeira moeda social a circular no Brasil foi a Palma, criada em 2000 e vinculada ao Banco Palmas, o primeiro Banco Comunitário de Desenvolvimento (BCD) do país. Em entrevista à Agência Jovem de Notícias durante o Fórum Internacional do Bem Viver em Grenoble, França, o economista e coordenador do Banco Palmas, Asier Ansorena, fala sobre a história das moedas sociais no Brasil e sua contribuição para a construção de uma economia mais justa e solidária.

 

1) O que é moeda social?

Asier Ansorena: Depende do contexto onde você for olhar. Existem muitos modelos diferentes em países como Quênia, França ou Japão, conhecidas também como moeda local, circulante local ou moeda complementar. O importante de cada moeda é que uma comunidade local defina quais são os princípios, para que serve, como a gente utiliza, qual mecanismo de investimento. Questões que são importantes para a soberania de cada população. A moeda local do Banco Palmas foi criada no conjunto Palmeiras, que é onde funciona o Banco Palmas. É uma moeda que se cria para contribuir na organização das economias locais, e essa organização significa a dinamização de redes de produtores e consumidores locais. Quando se desenvolve essa rede de produção e consumo local a gente cria uma economia diferenciada, solidária, sustentável. A moeda é uma das ferramentas importantes não só em termos práticos e operacionais, porque possibilita o consumo local, senão em termos pedagógicos de soberania e simbólicos, pois é uma ferramenta de poder local.

2) Em sua fala na mesa de encerramento do Fórum você afirmou que até alguns anos atrás a circulação de uma moeda paralela à moeda oficial era ilegal. Como e quando isso mudou e qual o papel do Banco Palmas nessa mudança?

AA: O Banco Palmas nasceu no ano de 1998. Durante os primeiros 4 ou 5 anos fomos ignorados pelo sistema econômico. Quando esse grupo soube do Banco Palmas, não gostou da proposta certamente, pois esse sistema quer manter esse monopólio de criação do dinheiro e da visão econômica no país. Os primeiros anos foram de resistência e o Banco Palmas enfrentou dois processos . O último no ano de 2003 quando, enfrentando a acusação do Banco Central de crime contra o estado brasileiro, a gente obtém sentença favorável em que o juiz, em outras palavras, afirma que o Banco Palmas existe porque o Banco Central não está cumprindo com o seu mandato, que é trabalhar pela inclusão financeira dos brasileiros. Há 20 anos atrás, perto de 70% dos brasileiros não tinham acesso ao sistema financeiro. Foi em primeiro lugar uma luta de resistência, pois o Conjunto Palmeiras existe há 45 anos. Então o banco é mais um símbolo de resistência desse movimento. Depois, durante o governo Lula, cria-se a Secretaria Nacional de Economia Solidária, que permite e facilita a implementação de bancos comunitários em outras regiões do Brasil. Através desse programa foi possível chegar ao número atual de 113 bancos comunitários no país. Primeiro, um momento de resistência enfrentando o sistema financeiro e depois, com o apoio para a criação dos bancos comunitários. Essa é a nossa visão para o fortalecimento da sociedade civil, com maior independência e soberania nas questões econômicas.

3) Existem convergências e/ou divergências entre as moedas sociais operadas em países em desenvolvimento e os já desenvolvidos?

AA: O modelo de banco comunitário que existe no Brasil, em sua totalidade, não existe em outra região do mundo. A organização da economia local, moeda local, crédito para produção, crédito para consumo na moeda local sem juros, e o próprio processo de participação da comunidade em que as pessoas daquela localidade são as que trabalham no banco. Certamente, muitas das visões que a gente têm são complementares ou semelhantes às que existem em outras regiões. Mas o diferencial do caso brasileiro em relação a outros tipos de experiências é o conjunto de iniciativas do modelo de bancos comunitários.

4) Qual o impacto mensurável nas comunidades locais que possuem moedas sociais? Como isso se relaciona ao conceito de bem-viver?

AA: Tem questões que são mensuráveis e outras que não. Explico um caso: Em 2010, o Banco Palmas iniciou uma linha de microcrédito exclusivo para mulheres beneficiárias do Bolsa-Família [o projeto ELAS]. Existem outros modelos como este no mundo, mas o brasileiro é o maior dele, onde algo em torno de 13 milhões de mulheres brasileiras recebem ajuda para apoiar suas famílias. Perto de 30% das famílias brasileiras são beneficiárias do programa. Nossa linha de microcrédito produtivo foi criada para pensar como essas mulheres poderiam começar diferentes atividades para geração de renda, ou com pequenos empreendimentos ou com pequenas atividades que elas pudessem realizar dentro de casa para gerar renda complementar. Isso porque é importante gerar riqueza local, que é uma das principais funções de bancos comunitários como o Banco Palmas. Após 3 meses de funcionamento do programa, fizemos uma sondagem com 100 mulheres beneficiadas pelo crédito e umas das coisas mais fortes que percebemos foi que, num bairro como o conjunto Palmeiras na periferia de Fortaleza, uma cidade de praia, metade dessas mulheres nunca tinha ido à praia. Pense no grau de isolamento dessas mulheres que nasceram ou que vivem há mais de 20, 30, 40 anos naquele local, mulheres de 50 anos de idade que nunca tinham ido à praia.  Percebemos que mais importante do que uma linha de microcrédito era levar essas mulheres para a praia. Isso é bem-viver na veia. Explica isso pro Banco Mundial, ou pro Banco Interamericano de Desenvolvimento. Eu tentei, várias vezes. Mas eles olham e ficam se perguntando sem conseguir entender se compreenderam certo. Te tacham de comunista, anarquista, antissistema, porque você diz que é mais importante levar à praia do que o microcrédito. Obviamente o microcrédito é importante mas, nesse contexto de isolamento […] percebemos que precisávamos de um olhar muito mais holístico.

[…] Então, essa é a nossa contribuição para o bem-viver. Um banco convencional nunca faria isso. Mas um banco comunitário que pensou o microcrédito e o usa para investimentos em produção e geração de riquezas locais, utiliza a moeda social, vê que pode intervir nessa condição pela proximidade com o território, percebendo que o desafio e as dimensões da pobreza são muito amplas. Um banco comunitário tem essa capacidade, um banco convencional nunca vai fazer isso. Primeiro porque vão acreditar que são operações de muito risco, portanto, não valem a pena, e acham que alguma política paternalista ou assistencialista é o único jeito. Um banco comunitário, onde é a própria comunidade que trabalha nele, muda completamente um projeto que tinha começado com o microcrédito e acabou virando uma coisa muito maior.

Temos um exemplo com a moeda digital na cidade de Maricá, no estado do Rio de Janeiro: vencemos um edital da prefeitura para distribuir um benefício que a prefeitura de Maricá oferece com os royalties do petróleo, que é a bolsa-mumbuca. Basicamente um bolsa-família local, porém distribuído pela nossa plataforma de banco comunitário digital, o e-dinheiro. Ele se transforma em moeda local gerenciada pelo banco comunitário local, que possui a plataforma, e depois esse dinheiro é consumido apenas naquele território. Já temos 5 meses de experiência lá, com mais de 5 mil usuários cadastrados na plataforma, acessando seu benefício e também moradores da região consumindo no local. Com isso, tem-se gerado mais de R$ 1.500.000,00 de compras locais utilizando nossa plataforma de banco comunitário digital. E a diferença de fazer essa compra com a nossa plataforma ou com uma Visa ou Mastercard é que essas empresas vão cobrar, em média, 6% de taxa dos comerciantes para receberem as compras com esses cartões. Com o modelo do banco comunitário digital do Banco Palmas, os comerciantes pagam 2% ao invés de 6% e esses 2% são reinvestidos naquele território […].

Esses são alguns dos exemplos que têm maior impacto. Sem falar que se essas mesmas compras tivessem sido feitas no sistema tradicional com taxas a 6%, isso representaria R$ 90.000,00 saindo do território para nunca mais voltar. O lucro que a Visa ou a Mastercard obtém dessas operações vai pros grandes centros financeiros da sede da instituição em São Paulo, ou nos Estados Unidos e nunca volta para o território que produziu aquela riqueza. Esse é o diferencial da moeda social e do banco comunitário, que a riqueza que você gera no território, a maior parte dela circula e é distribuída na região. Questões como o bem-viver ajudam a trabalhar melhor essa multi-dimensão de uma situação de desigualdade ou de pobreza.

5) O que é a Rede de Bancos Comunitários?

AA: É uma iniciativa que funciona em rede com os 113 bancos comunitários que existem no Brasil. O Banco Palmas foi o primeiro deles e por isso é o interlocutor da rede. A partir de 2004, com a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, em parceria com prefeituras, governos de estados e fundações, foram criados outros bancos comunitários. Nós queremos nos constituir como alternativa, trazendo outra visão sobre serviço financeiro solidário a partir do protagonismo das comunidades, que possuem a capacidade de desenvolver e criar iniciativas como bancos comunitários e que vão definir qual o futuro e os direitos econômicos de cada uma delas. Joaquim de Melo, criador do Banco Palmas, viajou para diversas comunidades para treiná-las e ajudá-las a desenvolverem suas próprias iniciativas de finanças solidárias e está há 20 anos fazendo um trabalho gigantesco a nível nacional para espalhar essa ideia. A Rede já se reuniu 4 vezes para discutir a criação de um sistema financeiro mais justo e solidário.  

6) Quais os desafios atuais enfrentados pelas moedas sociais dentro e fora das comunidades?

AA: O golpe parlamentar contra a presidente democraticamente eleita Dilma Rousseff, em 2016, colocou o Brasil numa situação extremamente complexa, política e economicamente. Quem está no poder hoje gera muita incerteza sobre o que vai acontecer após as eleições, há uma polarização imensa e não sabemos qual o futuro do país. Isso prejudica muito os tipos de políticas públicas que podem ser criadas para os bancos comunitários. Estamos olhando para as alternativas e o exemplo de Maricá, de utilizar um banco comunitário digital, e a palmas e-dinheiro, para distribuir benefício social ao invés de optar por um banco tradicional como Santander ou Itaú… é um grande ganho, pois mostra o que podem ser os bancos comunitários em termos de impacto e de sustentabilidade financeira. Um sistema mais transparente, muito mais barato, não tem dono e, de novo, tem a noção de que a riqueza criada a nível local possa ser distribuída naquele no território, ganhando uma independência de políticas públicas e dando soberania para a sociedade civil que trabalha com direitos econômicos. Acredito que essa é a nossa principal oportunidade, junto com o desafios de convencer diferentes comunidades, municípios e outros tipo de entidades privadas de que isso é muito interessante para o Brasil. O sistema financeiro do Brasil é um dos mais lucrativos do mundo. Nós temos um problema muito sério e precisamos falar sobre isso porque esse bancos comerciais privados não estão investindo na população que tem a capacidade de produzir em diferentes níveis. É isso que gera emprego, que gera renda. Quando a gente coloca as pessoas como protagonistas a gente tem muito mais chance de pensar um Brasil mais sustentável. Por exemplo, quando você coloca as comunidades ribeirinhas, as periferias das grandes cidades, o sertão no comando das decisões a nível local, eu acho que a chance de dar certo é muito maior. Que tipo de reforma a gente pode fazer no país quando os bancos estão sequestrando a capacidade econômica da população?

7) As moedas locais, por definição, estão limitadas a uma determinada área onde circulam. Isso vai na contramão da globalização?

AA: Durante o Fórum eu ouvi uma fala de que nós devemos ter cuidado de não entregar esse presente maravilhoso que é a globalização dos povos para os mercados capitalistas e para as empresas. Nós estamos em lutas que parecem diferentes, mas que na realidade é a mesma luta. Não podemos entregar na mão do capetalismo (sic) esse presente que são os povos indígenas originários, os descendentes de escravos na América Latina e no Brasil, os povos das periferias, os imigrantes e refugiados na Europa, a classe média francesa, essa cosmovisão através da democracia econômica, o bem-viver, a economia circular, o desafio do meio-ambiente na mão do mercado, que tem uma visão de pensamento único. A gente tem que trazer todos os olhares diferentes e trabalhar juntos. A moeda social é contracultural se a gente compará-la com a única moeda que existe no mundo que é o dinheiro bancário, supostamente produzido pelo Banco Central. Nós acreditamos que [a produção de dinheiro] não deveria ser apenas uma atividade centralizada, mas nós temos que ter cuidado porque no Brasil isso é ilegal. Então nossa moeda é contracultural no sentido de que é uma comunidade que está produzindo e pensando uma moeda como ferramenta para apoiar o consumo local, não é um enfrentamento. O Banco Palmas já foi acusado de crimes contra o Estado brasileiro. Então para cada unidade de moeda social que a gente cria, a gente tem que ter R$1,00 de lastro. Criamos a moeda para estimular o consumo e a produção local para, portanto, conseguir reorganizar a economia e o poder local. A moeda do Palmas facilita isso. O que gostaríamos de ver, eventualmente, é como a gente consegue criar moedas alternativas que não sejam lastreadas na moeda oficial para ter maior autonomia e capacidade de financiamento local. Muitas vezes as comunidades não conseguem se desenvolver porque não têm oportunidade de investimento, porque não temos mecanismos para compartilhar os riscos e as riquezas. Os lugares geradores de riqueza no mundo, como a Califórnia por exemplo, possuem modelos de investimento onde investidores e empreendedores compartilham o ganho e o risco também. No modelo do microcrédito, por exemplo, a responsabilidade fica muito acima do empreendedor. Se pudermos criar moedas alternativas, ficará mais fácil pensar em modelos de auto-financiamento. A gente não tá pedindo milagre. O que pedimos é que  população tenha a capacidade de produzir, de fazer aquilo que já sabe fazer. Esse é um aspecto fundamental e é onde entram as moedas digitais que estamos fazendo agora. Esse modelos que criamos está permitindo que o consumo local auto-financie aquelas regiões. Isso é finança solidária na veia.

8) Qual objetivo do evento ‘Solidários’?  

AA: Trata-se do quinto Encontro de Bancos Solidários de Desenvolvimento, onde toda a rede de bancos comunitários brasileiros estará presente e, ao mesmo tempo, o primeiro encontro internacional, pois acreditamos na globalização solidária, devemos contar ao mundo o que estamos fazendo no Brasil e o mundo tem que contar para nós qual é a luta deles, o que está sendo feito em outros lugares. No contexto de sucateamento do Estado brasileiro e das políticas públicas para a economia solidária, tem por objetivo primeiro olhar para as alternativas. Para fazer isso, nós temos que juntar todo mundo para definir nosso futuro e ao mesmo tempo fazer um pacto com quem restar do setor público, das fundações, das empresas que reconhecem o valor dos bancos comunitários para pensar o futuro juntos. Como conseguir outros mecanismos trazendo bancos éticos, cooperativas, instituições de microfinanças da América Latina que têm um olhar diferente, que talvez não chame banco comunitário ou que não trabalham tecnicamente com economia solidária, mas que têm propostas muito semelhantes e que, portanto, precisamos nos conhecer e pensar essa nova globalização e esse novo sistema financeiro mais justo. Vamos trazê-los para que os banco brasileiros vejam como esses atores valorizam o que os bancos comunitários estão fazendo pelo Brasil há 20 anos. Muita gente no Brasil ainda acha que esse negócio de moedinha é exótico, mas quando a gente traz iniciativas de Alemanha, França, Itália, México, Bangladesh, etc. talvez eles percebam que esse movimento é pra valer, é sério e é uma alternativa boa para nós, principalmente que precisamos alimentar as utopias com as práticas do cotidiano e melhorando a vida das pessoas. O evento ‘Solidários’ vai acontecer entre os dias 4 e 6 de setembro, em Fortaleza. Uma oportunidade maravilhosa para continuar discutindo essas questões.

 

Projeto de prevenção abre inscrições para jovens homens e gays entre 16 e 24 anos

Abram a roda que o Pra Brilhar chegou! Estamos selecionando trinta jovens homens gays, entre 16 e 24 anos, com critério de classe e cor, para participarem de uma jornada brilhante de formação nas temáticas de gênero, sexualidade, direitos humanos e prevenção combinada ao HIV/Aids e outras IST. Além da formação, os jovens selecionados terão oficinas de produção de conteúdos, distribuídas em oito encontros, e realizarão duas intervenções coletivas no Largo do Arouche. 

Se inscreva aqui!

O Pra Brilhar é um projeto de educomunicação que tem como objetivo contribuir para a diminuição da epidemia de HIV/Aids entre a juventude gay da cidade de São Paulo. Com um grupo de vinte jovens, a equipe irá pesquisar as culturas e práticas sexuais que permeiam as experiências da juventude gay paulistana, aperfeiçoando a ação coletiva e as políticas públicas de combate ao HIV/Aids na cidade.

Nós viemos pra contar histórias, pra fazer barulho e trazer brilho. Assim, o projeto aposta na produção de conteúdos e de narrativas sobre nós, sobre o outro e sobre o mundo, como forma de sentir e compreender o que significa ser gay, negro e/ou periférico na cidade de São Paulo.

 

Cronograma de atividades

O projeto acontece nas sextas-feiras, das 19h às 22h, a partir do dia 10 de agosto até o dia 26 de outubro.

Observações

Os jovens participantes receberão vale transporte e um lanche nos dias do encontro.

Como participar

As inscrições podem ser feitas até o dia 20 de julho através deste link. O resultado será divulgado no site da Viração. Na seleção, serão considerados critérios de gênero, raça e diversidade de regiões da cidade.

Critérios

Para participar é preciso ter entre 16 e 24 anos; residir na cidade de São Paulo; ter disponibilidade para participar de todo o percurso do projeto e interesse nos temas e ações descritas acima.

Inscrições abertas para a Escola de Cidadania para Adolescentes

Por Redação 

A Viração Educomunicação abre as inscrições para a primeira turma da Escola de Cidadania para Adolescentes. Serão selecionadas trinta pessoas, entre 14 e 19 anos, residentes da cidade de São Paulo, para participarem de um circuito de formação com duração de até cinco meses, totalmente gratuito.

O projeto, que pretende contribuir para o fortalecimento da participação e a promoção de direitos humanos de adolescentes e jovens, consiste num circuito de formação presencial e a distância, mapeamento afetivo dos territórios onde vivem e realização de ações de intervenção comunitária.

As formações tratarão de temas como condição juvenil, democracia, participação, políticas públicas e direitos humanos, que serão discutidos com educadores, especialistas e ativistas. Durante todo o processo, os participantes também terão a oportunidade de experimentar técnicas de produção midiática (rádio, vídeo, fanzine, jornal mural, etc.) e participar de coberturas educomunicativas em diferentes espaços.

A Escola de Cidadania Ativa para Adolescentes (ECA) é um projeto de cooperação internacional, realizado pela Viração Educomunicação e a associação Viração&Jangada, conta com financiamento da Província Autônoma de Trento, e parceria de implementação do Instituto Universidade Popular – UNIPOP, de Belém (PA) e a Auçuba Comunicação e Educação, de Recife (PE).

Cronograma de atividades:

As atividades do projeto acontecerão nas terças e quintas, entre 24 de julho até 06 de setembro, das 14h às 17h, na sede da Viração, no centro de São Paulo.  

Observações:
 
O projeto fornecerá reembolso de despesa com transporte para os adolescentes e servirá lanche durante as atividades. 

Como participar

As inscrições podem ser feitas até o dia 30 de junho através deste link ou pelo telefone 3115-0142. O resultado será divulgado no site da Viração. Na seleção serão considerados critérios de gênero, raça e diversidade de regiões da cidade.

Critérios

Para participar é preciso ter entre 14 e 19 anos; residir na cidade de São Paulo; ter disponibilidade para participar de todo o percurso do projeto e interesse nos temas e ações descritas acima.

Mais informações

Para mais informações entre em contato pelo telefone (11) 3115-0142 com Daniel Fagundes ou Elisangela Nunes, ou pelos emails elis@viracao.org ou daniel@viracao.org.

Viração lança manual de enfrentamento à LGBTfobia na escola

Por Redação

Relatos de exclusão, isolamento, agressão verbal e violência física na escola são comuns entre alunos e alunas LGBT. No entanto, ainda são poucos os consensos sobre o que pode ser considerado violência e como enfrentá-la na escola.

Assim, a Viração Educomunicação criou o Manual de incentivo à não omissão das violências LGBTfóbicas, que tem como objetivo apoiar educadores/as e jovens na identificação e enfrentamento de violências vivenciadas por adolescentes e jovens em espaços educativos.

Para Paula Bonfatti, Analista de Comunicação e Marketing da Viração e responsável pela organização do material, estabelecer um consenso sobre o que é e o que não é violência é essencial para seu enfrentamento. “Primeiro, é preciso expôr as diferentes formas de violência, que não estão claras nem para os alunos e alunas, nem para a comunidade escolar. A partir daí, é preciso pensar em formas de agir, tanto para remediar quanto para prevenir a recorrência dessas violências”, conta.

Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil (2016), 60% dos estudantes LGBT se sentiram inseguros na escola no último ano por causa de sua orientação sexual, 73% foram agredidos verbalmente e 27% fisicamente. Sobre as medidas tomadas pela escola, 54% dos estudantes afirmaram que a instituição não agiu.

Além dos tipos de violência vivenciadas por adolescentes e jovens LGBT, o manual lista os agentes perpetradores e inúmeras ações, como campanhas educativas e seminários de formação para educadores/as, como formas eficientes de enfrentá-las. “A mensagem final é: ‘não se omita diante de uma violência, aja. Aqui estão algumas ferramentas que você pode usar para enfrentá-la’”, conclui Paula.

O manual pode ser baixado neste link, de forma gratuita.

As violências acometem adolescentes LGBT da mesma forma?

Por Tulio Bucchioni, Antropólogo e pesquisador na área de gênero e sexualidade 

Interseccionalidade. Você já ouviu falar nesse conceito? Essa palavra enorme tem uma história ainda mais longa: sua origem remete ao movimento feminista negro norte-americano das décadas de 70 e 80. A ideia de que a identidade e a nossa experiência no mundo são marcadas por fatores múltiplos e interseccionais, relativos a nossa posição de classe, nossa raça/cor, nossa sexualidade, nossa geração ou nacionalidade, entre outros aspectos, deu origem ao termo interseccionalidade.

A especificidade da intersecção de categorias é o que faz as vivências, o campo de possibilidades, as referências e a trajetória de vida de um jovem gay, negro e pobre serem muito diferente daquelas de um jovem gay, branco, de classe média. Nesse sentido, acreditamos que para combater efetivamente as desigualdades, é preciso se pensar interseccionalmente. Não basta combater a LGBTfobia se não combatemos o racismo em nossos ambientes escolares e espaços educativos – um jovem LGBT branco não está imune de reproduzir atitudes e pensamentos racistas, ainda que saiba o que significa ser oprimido.

A todo momento associamos a diversidade com a população LGBT. Na maioria das vezes, essa associação diz respeito a expressões e vivências de identidade de gênero e da sexualidade não-normativas, não heteronormativas. Mas, e quanto a diferenças raciais e diferenças sociais entre a população LGBT? É fundamental aprofundar a discussão sobre a experiência do que é ser gay ou lésbica e negro, do que significa ser uma pessoa trans e ter sua renda e capacidade de sobrevivência impactada pelas condições desafiadoras de estudo e de empregabilidade no Brasil, por exemplo.

Nesse sentido, acreditamos que o conceito de interseccionalidade é uma ferramenta fundamental para todas as pessoas que trabalham com educação. Para encorajar você a compreender melhor essa ideia, sugiro duas leituras acadêmicas que abordam o assunto:

MOUTINHO, Laura. Diferenças e desigualdades negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas recentes. Cadernos Pagu, Campinas, 2014, n.42, p. 15. Clique aqui e acesse a fonte. Acesso em: dezembro de 2015.

PISCITELLI, Adriana. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras. Sociedade e Cultura, Goiania, v.11, n.2, jul/dez. 2008. Clique aqui e acesse a fonte.

 

Comer é um ato político?

Por Karina Nishioka e Fabrício Muriana, associados e idealizadores do Instituto Feira Livre *
 
Muita gente já germinou um grão de feijão no algodão. Muitos transplantaram o feijão para a terra e puderam ver o grão se transformar numa vagem cheia de outros grãos. A ideia mais simples de agricultura, como a atividade que depende apenas de sementes e terra para que qualquer pessoa cultive seu próprio alimento é libertadora e democrática. Mas, se é assim tão simples, porque vemos por toda parte campanhas de combate à fome e trabalhadores do campo tão miseráveis?
 
Constantemente nos depararmos com a informação de que a agricultura tradicional, como a conhecemos, não atende à demanda mundial por alimentos. A partir da nossa percepção sobre o crescimento da população nas grandes metrópoles ou sobre o movimento migratório das pessoas do campo para as cidades, essa informação soa factível: existem menos pessoas plantando e mais pessoas comendo.
 
Para manter os supermercados abastecidos, o problema da demanda abriu espaço para soluções tecnológicas que rapidamente permitiram que a agricultura tradicional, responsável por abastecer cadeias curtas de consumo, desse lugar às grandes plantações. Monoculturas setorizadas que produzem alimentos para o mercado interno e externo. Passamos a cultivar em escala e exportar comida sob a ótica do agronegócio e sob o argumento de erradicar a fome. 
  
A tecnologia que tanto nos ajudou a promover qualidade e diversidade, indispensáveis em diversos lugares, interferiu na dinâmica do campo. O agricultor que selecionava, germinava e plantava suas sementes segundo conhecimentos ancestrais, viu surgir ao lado de sua terra, fazendas dedicadas a poucas espécies, com sementes patenteadas que faziam necessário o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, e assim asseguravam a colheita mecânica de um mesmo insumo o ano inteiro. A produtividade a qualquer preço, que tem por único fim o lucro, trouxe riqueza ao dono da propriedade enquanto oferecia poucas alternativas ao pequeno agricultor e à população rural: ou passa-se a produzir sob os novos moldes, ou sofrerá as múltiplas consequências de enfrentar o agronegócio.
 
Em entrevista ao Nexo, Paolla Carosella comenta que se os alimentos cultivados com agrotóxico realmente alimentassem o mundo, ela estaria de acordo com o uso. O argumento dela contra agrotóxicos se encontra no fato de que por onde passam, os produtos da indústria química deixam um rastro de miséria. Aumenta o número de mortes no campo por contaminação. Em geral seu emprego está atrelado a uma agricultura altamente mecanizada, onde o fator humano é (e historicamente é) relegado às piores condições. Ninguém em sã consciência optaria por trabalhar com venenos por toda uma vida se não fosse essa uma de suas únicas alternativas de sobrevivência. Não por acaso, um dos maiores problemas relatados por agricultores é que a vida no campo vem perdendo sua dignidade, o que faz com que ainda menos gente se interesse por permanecer no campo e por produzir. 
 
Na outra ponta da cadeia está uma maioria de consumidores que vivem um tempo em que a normalidade é o consumo de alimentos cultivados com o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, sem saber quais e em quais quantidades. O agronegócio conta com a desinformação transversal como estratégia para inibir manifestações sociais e dinheiro para garantir a permeabilidade desses métodos em meio às políticas públicas. A união entre agronegócio e outros setores da indústria, que cooperam na manutenção desta realidade, tornam ainda mais difícil a resistência por parte das organizações da sociedade civil.
 
Quando afirmamos que comer é um ato político, o fazemos sabendo que é impossível transformar a realidade por completo apenas pela via do consumo. Ademais, nem todos podem escolher qual alimento consumir. Mas, enquanto diante de escolhas, não nos conscientizarmos de que mastigar é contribuir para a produção, distribuição, comercialização e consumo daquele produto, gerando reflexos econômicos, ambientais e sociais, seguiremos servindo à política dos que nunca deixaram de fazê-la.
 
* O Instituto Feira Livre é  uma associação sem fins lucrativos que promove o acesso a produtos orgânicos de maneira transparente e sustentável: sem agrotóxicos e sem especulação. A proposta é estabelecer relações comerciais justas com todos os atores da cadeia produtiva, conectando quem produz a quem consome. No primeiro semestre de 2018, o Instituto Feira livre tornou-se parceiro da Viração na oferta de lanches orgânicos e saudáveis para os jovens participantes das atividades realizadas pela organização.