Comer é um ato político?

Por Karina Nishioka e Fabrício Muriana, associados e idealizadores do Instituto Feira Livre *
 
Muita gente já germinou um grão de feijão no algodão. Muitos transplantaram o feijão para a terra e puderam ver o grão se transformar numa vagem cheia de outros grãos. A ideia mais simples de agricultura, como a atividade que depende apenas de sementes e terra para que qualquer pessoa cultive seu próprio alimento é libertadora e democrática. Mas, se é assim tão simples, porque vemos por toda parte campanhas de combate à fome e trabalhadores do campo tão miseráveis?
 
Constantemente nos depararmos com a informação de que a agricultura tradicional, como a conhecemos, não atende à demanda mundial por alimentos. A partir da nossa percepção sobre o crescimento da população nas grandes metrópoles ou sobre o movimento migratório das pessoas do campo para as cidades, essa informação soa factível: existem menos pessoas plantando e mais pessoas comendo.
 
Para manter os supermercados abastecidos, o problema da demanda abriu espaço para soluções tecnológicas que rapidamente permitiram que a agricultura tradicional, responsável por abastecer cadeias curtas de consumo, desse lugar às grandes plantações. Monoculturas setorizadas que produzem alimentos para o mercado interno e externo. Passamos a cultivar em escala e exportar comida sob a ótica do agronegócio e sob o argumento de erradicar a fome. 
  
A tecnologia que tanto nos ajudou a promover qualidade e diversidade, indispensáveis em diversos lugares, interferiu na dinâmica do campo. O agricultor que selecionava, germinava e plantava suas sementes segundo conhecimentos ancestrais, viu surgir ao lado de sua terra, fazendas dedicadas a poucas espécies, com sementes patenteadas que faziam necessário o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, e assim asseguravam a colheita mecânica de um mesmo insumo o ano inteiro. A produtividade a qualquer preço, que tem por único fim o lucro, trouxe riqueza ao dono da propriedade enquanto oferecia poucas alternativas ao pequeno agricultor e à população rural: ou passa-se a produzir sob os novos moldes, ou sofrerá as múltiplas consequências de enfrentar o agronegócio.
 
Em entrevista ao Nexo, Paolla Carosella comenta que se os alimentos cultivados com agrotóxico realmente alimentassem o mundo, ela estaria de acordo com o uso. O argumento dela contra agrotóxicos se encontra no fato de que por onde passam, os produtos da indústria química deixam um rastro de miséria. Aumenta o número de mortes no campo por contaminação. Em geral seu emprego está atrelado a uma agricultura altamente mecanizada, onde o fator humano é (e historicamente é) relegado às piores condições. Ninguém em sã consciência optaria por trabalhar com venenos por toda uma vida se não fosse essa uma de suas únicas alternativas de sobrevivência. Não por acaso, um dos maiores problemas relatados por agricultores é que a vida no campo vem perdendo sua dignidade, o que faz com que ainda menos gente se interesse por permanecer no campo e por produzir. 
 
Na outra ponta da cadeia está uma maioria de consumidores que vivem um tempo em que a normalidade é o consumo de alimentos cultivados com o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, sem saber quais e em quais quantidades. O agronegócio conta com a desinformação transversal como estratégia para inibir manifestações sociais e dinheiro para garantir a permeabilidade desses métodos em meio às políticas públicas. A união entre agronegócio e outros setores da indústria, que cooperam na manutenção desta realidade, tornam ainda mais difícil a resistência por parte das organizações da sociedade civil.
 
Quando afirmamos que comer é um ato político, o fazemos sabendo que é impossível transformar a realidade por completo apenas pela via do consumo. Ademais, nem todos podem escolher qual alimento consumir. Mas, enquanto diante de escolhas, não nos conscientizarmos de que mastigar é contribuir para a produção, distribuição, comercialização e consumo daquele produto, gerando reflexos econômicos, ambientais e sociais, seguiremos servindo à política dos que nunca deixaram de fazê-la.
 
* O Instituto Feira Livre é  uma associação sem fins lucrativos que promove o acesso a produtos orgânicos de maneira transparente e sustentável: sem agrotóxicos e sem especulação. A proposta é estabelecer relações comerciais justas com todos os atores da cadeia produtiva, conectando quem produz a quem consome. No primeiro semestre de 2018, o Instituto Feira livre tornou-se parceiro da Viração na oferta de lanches orgânicos e saudáveis para os jovens participantes das atividades realizadas pela organização.

Participação política LGBT: muitos desafios em um cenário complexo

Por Tulio Bucchioni, Antropólogo e pesquisador na área de gênero e sexualidade 

Gostaria de começar com uma pergunta: o que é necessário para uma pessoa se tornar politicamente ativa? Se tentarmos responder espontaneamente essa questão, talvez nos deparássemos com uma combinação de alguma experiência e/ou consciência de desigualdades e direitos, uma dose de rebeldia e determinação, um pouco de coragem.

No caso de ativistas LGBT comprometidos com a defesa da diversidade e da igualdade de gênero e de sexualidade, porém, é preciso dar alguns passos para trás. Em primeiro lugar, para ser uma pessoa LGBT politicamente ativa é preciso não apenas “sair do armário”, mas estar confortável e confiante com relação a sua identidade e prática sexual. Isso porque agir politicamente como um ativista LGBT equivale a assumir publicamente uma identidade e/ou uma prática sexual não-normativa – o que pode significar desde a quebra de relações familiares, de amizades e afetos, até o surgimento e enfrentamento de ameaças e violências diversas. Mas como experimentar confiança e conforto sendo LGBT em um país tão LGBTfóbico como o Brasil?

Respostas não são óbvias, nem fáceis. Se para a população em geral a capacidade de participação política está diretamente relacionada com a possibilidade de sobreviver com o mínimo de dignidade e liberdade, com acesso a emprego e alimentação, por exemplo, os caminhos para a confiança e o conforto em ser LGBT e agir politicamente em torno disso envolvem também importantes fatores emocionais – como a capacidade de se construir autoestima e alguma estrutura de afeto que permita superar experiências negativas de exclusão, violência e solidão, entre outras. Nesse sentido, a conexão entre experiências individuais e coletivas da comunidade LGBT é um passo fundamental para tornar possível a ação política em nome de todo um grupo social.  

Por fim, é preciso ter em conta a dimensão da complexidade da relação entre a participação política de pessoas LGBT e a ocupação do espaço público no Brasil. Um exercício eficiente para aguçar nossa percepção da LGBTfobia na sociedade brasileira é se perguntar: quantas são as lideranças e pessoas que ocupam cargos políticos assumidamente LGBT? Entre essas pessoas, quantas fazem da política um lugar para a luta pela garantia de direitos sexuais e reprodutivos e a defesa intransigente da diversidade e da igualdade de gênero e de sexualidade?

Como se vê, os desafios são muitos e os obstáculos do contexto brasileiro não podem ser subestimados. Ainda assim, é alentador constatar que a força dos movimentos feminista e LGBT e a discussão sobre gênero e sexualidade no Brasil e no mundo já se tornaram uma marca do momento histórico em que vivemos. Esmiuçar as experiências LGBT, os significados de viver identidades e práticas sexuais não-normativas, valorizar a memória e a história da comunidade, entre outros aspectos, são caminhos para se construir respostas à altura de nossos desafios para uma maior participação política.  

Viração promove curso sobre juventudes e redes sociais

Por Redação

Em parceria com a escola DIEESE de Ciências do Trabalho, a Viração Educomunicação realizará o curso de extensão “Juventudes e Redes Sociais: comunicação para mobilização social na internet”, nos dias 23 e 24 de maio.

O curso discutirá as mudanças no processo de comunicação e no comportamento das juventudes, a partir das novas tecnologias e do uso das redes sociais. Apresentará conceitos, práticas e estratégias de comunicação para a mobilização social, com momentos de debate, reflexão e produção de peças multimídia.

O curso será ministrado pelos educadores e educomunicadores da Viração, referência em educomunicação e que há 15 anos atua com comunicação para a promoção dos direitos da juventudes.

Para participar, basta se inscrever no site. O investimento varia entre R$200,00 e R$350,00.

Serviço

Quando: 23 e 24 de maio.

Onde: Escola DIEESE de Ciências do Trabalho – R. Aurora 957 Centro- SP (próx. ao metrô República)

Quanto: Os valores variam entre R$200 e R$350, é necessário consultar.

Inscrições: Para se inscrever, clique aqui.

Projeto aposta no combate interseccional do HIV/Aids

Por Redação

O Pra Brilhar, projeto realizado pela Viração Educomunicação em parceria com o Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, inova na abordagem interseccional do combate ao HIV/Aids na cidade.

Durante seis meses, um grupo de 20 jovens selecionados por critério de classe e cor se encontrará semanalmente para debater sobre gênero, sexualidade e prevenção combinada em intersecção com raça e classe. O objetivo é aperfeiçoar a ação coletiva e as políticas públicas para o combate ao HIV/Aids.

“Apostamos na ideia de que a prevenção perpassa primeiro a educação sexual e o entendimento de que o combate à epidemia precisa ser interseccional, ou seja, ele precisa perpassar o entendimento sobre gênero, sexualidade, raça e classe, porque os mais afetados são LGBTs com esse recorte”, conta o coordenador do Pra Brilhar, Tulio Bucchioni.

Além das oficinas, os participantes são encorajados a produzirem conteúdos em diferentes formatos a partir de um processo educomunicativo. Assim, por meio da educação entre pares e das narrativas de si, do outro e do mundo, Pra Brilhar busca os significados de ser gay, negro e periférico na cidade de São Paulo. Todas as produções e roteiros de oficinas são publicadas no site e página oficial do projeto no Facebook.

Com duração de dois anos, o projeto conta com quatro ciclos presenciais de formação, perpassando por temáticas de gênero e sexualidade, direitos humanos, sexuais e reprodutivos e prevenção combinada ao HIV/Aids e outras ISTs. “As discussões têm sido muito qualitativas, mesclando o compartilhamento de experiências pessoais e o debate sobre conceitos teóricos e militância, que são fundamentais para o entendimento dessas experiências pessoais”, conta Tulio.

O projeto também possibilita um espaço auto-organizado para a população LGBT, além da possibilidade de troca de experiências pessoais e o processo de compreensão das desigualdades estruturais. “O Pra Brilhar está sendo maravilhoso, estou conhecendo coisas novas e as ideias estão se expandindo. As formações vão agregar na minha vida profissional, pessoal e amorosa. No fim, posso transformar todo esse aprendizado em produções e eu acho isso magnífico”, conta Alisson Lourenço, de 19 anos, participante do primeiro ciclo de oficinas.

Os encontros acontecem toda quarta-feira, das 14h às 17h, na sede da Viração, localizada na Rua Araújo, 124, próximo ao metrô República. A seleção de participantes para a segunda turma do projeto se dará no início do segundo semestre de 2018.

 

Viração contrata: Assistente Administrativo(a)

A Viração Educomunicação, entidade privada sem fins lucrativos, inscrita no CNPJ 11.228.471/0001-78, com sede na Rua Dr. Bittencourt Rodrigues, 88, Conjunto 102, Sé, São Paulo (SP), CEP: 01017-010, torna público às/aos interessadas/os que contratará como prestador/a de serviço um/a profissional para a área administrativa.

 

Perfil do/a profissional – requisitos

– Graduado/a em Administração, Ciências Contábeis e áreas correlatas.

– Experiência em Organizações do Terceiro Setor.

– Conhecimento de ferramentas de gerenciamento financeiro.

– Conhecimento em gestão financeira de projetos: prestação de contas, relatórios financeiros, entre outros.

– Domínio do pacote Office.

– Fluência escrita e verbal em Língua Portuguesa.

Proatividade, autonomia e facilidade de trabalhar em equipe.

 

Desejável:

Certificação em curso/s de gestão financeira e/ou gestão de projetos.

– Conhecimento de sistemas de gestão de convênios públicos, como Siconv e similares.

 

Atribuições / atividades

– Realizar serviços bancários.

– Gerenciar o banco de informações do gerenciador financeiro – conta azul.

– Fazer cotações e compras em geral.

– Realizar serviços de correios.

– Realizar prestação de contas e relatórios financeiros de projetos.

– Oferecer apoio administrativo à área de Projetos e Programas.

– Realizar emissão de notas e recibos.

– Organizar arquivos físicos e digitais.

– Realizar serviços administrativos externos em geral.

 

Informações adicionais

Carga horária: 36 horas semanais.
Regime de contratação: Prestação de serviços (Pessoa Jurídica)
Remuneração: a combinar
Local de trabalho: Sede da Viração, São Paulo – Centro.

 

Processo de seleção

Interessados/as enviar CV com carta de apresentação até o dia 02/04/2018 para o e-mail: selecao@viracao.org

 

Sobre a Viração Educomunicação

Criada em 2005, a Viração é uma Organização da Sociedade Civil sem fins lucrativos que tem como objetivo mobilizar adolescentes, jovens, educadores(as) e educomunicadores(as), por meio da educomunicação, para a promoção e defesa dos direitos de adolescentes e jovens, possibilitando a construção de uma sociedade justa, participativa e plural.  Em 2016 fundou-se a filial internacional da Viração, a Viração&Jangada, com sede em Trento, na Itália.

A Viração incentiva e apoia a contratação de pessoas negras e indígenas.

15 anos de história: Causos e prosas da Viração

15 anos não é pra qualquer um, né? Nesse tempo, a Viração acumulou experiências e muita história pra contar. Por isso, resolvemos relembrar algumas delas, entre curiosidades, memórias e causos.

1) Do Ceará pra São Paulo: Como surgiu a Viração?

A Vira foi fundada pelo jornalista e “sonhalista” Paulo Lima. Nascido na comunidade de Largamar, no Ceará, Paulo sempre esteve envolvido com comunicação independente. Quando jovem, foi seminarista e atuou como jornalista e militante! Em 2002 ganhou o prêmio Jornalista Amigo da Criança, da ANDI- Comunicação e Direitos, e um ano depois fundava a Viração.

A Viração nasceu do desejo de fomentar a produção de comunicação por e para adolescentes e jovens, a partir da convicção de que comunicação é um direito humano e comunicar é um ato político. Assim, Paulo Lima e um grupo de amigos sonhalistas, criaram a Revista Viração, uma publicação com um projeto editorial baseado na colaboração, participação e no respeito às diversidades.

15 anos depois, a Viração se tornou uma organização social que busca ser referência por sua atuação em educomunicação, educação entre pares e mobilização de adolescentes e jovens, com 11 funcionários, dois programas de educomunicação e diferentes projetos nas áreas de direitos humanos, direitos da juventude, gênero e sexualidade e meio ambiente.

2) É a Viração ou o Viração?

O nome “Viração” tem diferentes significados, entre eles o que pode ser encontrado em qualquer dicionário: “Vento fresco, suave, que sopra do mar”. Para além do dicionário, “viração” é um termo muito usado entre meninas e meninos em situação de rua no estado do Ceará, se refere à capacidade de enfrentar os desafios e mudanças de forma positiva; resiliência. Além disso, “viração” também é uma brincadeira de palavras, um trocadilho, vira-ação, para provocar a concretização de nossos sonhos e ideias em ações.

É a combinação desses três significados, tão simbólicos e representativos, que justifica o batismo: A Viração. Muitas pessoas falam O Viração, a gente não sabe muito bem o porquê, mas o certo mesmo é usar o artigo feminino, embora a gente não fique bravo com quem fala.

3) A Viração é uma organização internacional!

Em 2009, Paulo Lima se mudou para a Província de Trento, na Itália. Lá, ele conheceu a Associação Jangada, que atuava nas áreas de juventude, educação e meio ambiente e que estava prestes a fechar as portas! Assim, Paulo sugeriu uma parceria entre a associação e a Viração.

Em 2016, a Viração começou a atuar com uma configuração jurídica própria na Itália, a Viração & Jangada, nascida a partir da fusão com a Associação Jangada, que já atuava na Província de Trento nas áreas de juventude, educação e meio ambiente desde 1999.

Além de desenvolver projetos de cooperação internacional com a Viração no Brasil, a organização atua na Itália com projetos de educomunicação ambiental junto à adolescentes e jovens.

4) Chá de redação é o novo chá de casa nova

Quando a Viração montou sua primeira sede, um cantinho no escritório da Associação de Apoio às Meninas Meninos da Região Sé, a equipe resolveu fazer um chá de redação! A Vira precisava montar o escritório, começando do zero, então os/as amigos/as, jornalistas, educadores/as e educomunicadores/as presentearam a organização com xícaras, móveis e materiais de escritório. Quem lembra?

5) Dinheiro de quem não acredita na democratização da comunicação? Não, obrigada.

Em 2015 a Viração recebeu uma oferta: uma doação da Rede Globo, direcionada via FUMCAD, no valor de R$130 mil – quantia exorbitante para o orçamento da organização na época. Após um processo de consulta com a equipe e, claro, com os adolescentes e jovens que faziam parte da rede da Viração, a decisão foi de recusar a doação.

Em resposta à oferta, a Vira enviou uma carta de justificativa, dizendo que a empresa violava alguns dos princípios básicos da instituição, como a democratização da comunicação e o comprometimento com a verdade.

Não contentes, um ano depois a Globo News convidou a Viração para participar de uma roda de conversa.“Não compactuamos com uma empresa que, num momento crítico como o que vivemos, incita o ódio e manipula informações”, respondeu a organização. O convite se tratava de participação em um debate sobre jornalismo colaborativo.

6) Do impresso pro online: como surgiu a Agência Jovem de Notícias?

A Agência Jovem de Notícias foi criada em 2005, durante o primeiro Fórum Social Mundial. Lá, meninas e meninos fizeram a cobertura educomunicativa do evento, comunicando as agendas e ações a partir de suas experiências.

Desde então, a experiência de cobertura educomunicativa vêm se consolidando como um mecanismo importante para ampliar e fortalecer a participação de adolescentes e jovens nos debates públicos, citada até no Relatório Situação da Adolescência Brasileira 2011 – O direito de Ser Adolescente, do UNICEF.

A partir da atuação da Viração & Jangada, na Itália, a Agência Jovem de Notícias tem um portal internacional e independente, a Youth Press Agency, com conteúdos traduzidos para o italiano, inglês e espanhol, gerenciada por jovens de diferentes partes do mundo. Junto com a Youth Press Agency, a Agência Jovem de Notícias cobre eventos internacionais como a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU, o Fórum Social Mundial, entre outros.

7) 15 anos de história, 112 revistas publicadas

Sim, 112 edições e muita gente envolvida nos últimos 15 anos de produção da Revista Viração, que deu origem à organização em 2003. Desde então, a revista teve várias periodicidades, chegando a ser publicada mensalmente. Em 2015, passou a ser semestral, temática e de distribuição gratuita, a fim de potencializar a produção de conteúdo online por meio da Agência Jovem de Notícias.

Confira as edições em formato digital aqui.

15 anos: um olhar para o presente-futuro

Por Paulo Lima, Fundador da Viração Educomunicação

Quinze anos. Quinze, uma mistura de vibrações entre 1 e 5. Os dois juntos chegam a 6. Seis é múltiplo de 3, nosso número mágico. A Vira nasceu no dia 3 do mês 3 de 2003. Os números, as datas, são para nós um pretexto político-pedagógico para seguir adiante, sempre com mais tesão social.

Quinze anos. Um olhar ao presente-futuro: cheio de desejos, sonhos a mil, utopias a guiar o coração junto com novos processos, projetos e iniciativas. Tudo recheado de ideias revolucionárias numa tentativa promissora de fugir do cheiro de naftalina, de prevenir-se da síndrome do piloto automático. Isso e muito mais, representam os 15 anos da Viração.

Muitas mudanças ocorreram ao longo desse tempo, de cara fomos identificados e reconhecidos como iniciativa de inovação social não só no Brasil, mas no mundo todo. Para a Ashoka Empreendedores Sociais e o Ministério da Educação, a Vira é exemplo de como se pode promover a participação ativa e eficaz de adolescentes e jovens por meio do uso criativo da comunicação em todo e qualquer processo de educação.

Pois, sim. A Viração cresceu. Ganhou sobrenome: Educomunicação. Fomos os primeiros no Brasil a levantar a bandeira da figura profissional da Educomunicadora e do Educomunicador. Promovemos mudanças íntimas e pessoais. Colaboradores e voluntários fazendo um percurso de auto-descoberta, chegando a criar e mudar seus projetos de vida. Promovemos mudanças sociais e coletivas, incidindo em políticas públicas, mobilizando adolescentes e jovens e construindo redes como a Renajoc – a Rede nacional de adolescentes e jovens comunicadoras e comunicadores.

Passamos a atuar na África e na Europa e junto às Nações Unidas, expandindo o jeito Viração de ser e se comprometer: Burkina Fasso, Marrocos, Itália, Portugal e França; além de participar ativamente nas Conferências sobre mudanças climáticas da ONU.

Mudamos de sede 5 vezes. A mais recente para poder oferecer mais serviços, estar num ambiente mais colaborativo, juntar forças com outras organizações sociais que buscam fazer brilhar todo tipo de pessoa, porque cada uma e cada um de nós é um ser especial em Direitos. Mudança importante, sobretudo neste cenário político de retrocesso no campo dos direitos e de um projeto popular para o país.

Chegamos até aqui com um sabor de vitória, mas com a missão quase cumprida e muita luta pela frente. Eu digo “quase” porque “queremos mais”. E muito mais. Muito mais iniciativas educomunicadoras, contribuindo para criar ecossistemas comunicativos abertos, democráticos e participativos em tudo quanto que é lugar onde acontece o milagre da educação. Esse processo de “ler o mundo” com senso crítico e de fazer um novo mundo acontecer.

São quinze anos de muita alegria e muita beleza. E aqui colocamos juntos Dostoevskij e Paulo Freire. Juntamos “A beleza salvará o mundo” com “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca”.

E nós seguiremos nesse processo de busca por mais outros “trocentos” anos, perseguindo nossos ideais e lutando por uma sociedade baseada na justiça social e climática, na garantia dos direitos humanos, na participação efetiva de adolescentes e jovens e na equidade de gênero e diversidade étnico-racial e sexual.

Afinal, ensinar e aprender não pode acontecer fora da procura, fora da boniteza e da alegria, como nos ensina nosso amado Paulo Freire.

Por que falar sobre direitos da mulher em espaços educativos

Por Thaís Santos, Analista de Mobilização Social e Advocacy da Viração

Já há alguns anos o Dia Internacional de Luta da Mulher, celebrado no dia 8 de março, vem deixando de ser o dia das flores e bombons para ser tratado como aquilo que lhe originou: um dia de reivindicações e celebração de conquistas das mulheres por todo o mundo.

Em 2015, com a primavera feminista, milhares de mulheres foram às ruas de todo o Brasil, tomando também as redes sociais para discutir a violência doméstica, primeiros assédios, relacionamentos abusivos, direito ao próprio corpo, entre outras pautas que se tornaram compreensões correntes na boca de meninas e mulheres.

Em 2017, sob a chamada de intelectuais e ativistas estadunidenses, mulheres do mundo todo se mobilizaram em uma greve geral, deixando de cumprir atividades domésticas, ir ao trabalho e enfim, demonstrando a importância política e econômica que têm para mover nossas sociedades.

E agora, o que é relevante discutir sobre as lutas feministas e com quem?

Não é novidade que o cenário político nacional tem reverberado em instabilidade econômica e perda de direitos básicos para toda a população, mas é inevitável que grupos historicamente colocados em desvantagem sofram as consequências dessas mudanças.

São as mulheres e negros/as os principais prejudicados com as crescentes taxas de desemprego; são as mulheres as principais vítimas das propostas de restrições cada vez maiores na Lei do Aborto; e certamente serão as mulheres as principais prejudicadas nas reformas do Ensino Médio e das políticas de Escola Sem Partido. Esses, por si só, já são excelentes motivos pelos quais ainda devemos falar sobre direitos da mulher.

Para este ano, as mesmas intelectuais e ativistas que propuseram a greve geral em 2017 têm um apelo: Um feminismo para os 99%! Pensar essa proposta no contexto brasileiro é refletir sobre como um projeto econômico que não pensa maneiras de equiparar as desigualdades entre homens e mulheres pode fortalecer e aprofundar os distanciamentos, concretamente, através da perda de direitos como a diminuição da licença maternidade, os contratos informais e a terceirização.

Mas para além disso, uma das principais preocupações são os retrocessos ideológicos. Não é só que a crise afeta o desenvolvimento econômico das mulheres, afeta também seus direitos sexuais e reprodutivos. As ideias de que a mulher é um ser inferior e, portanto, pode ser tratada de maneira violenta e agressiva é o maior dos problemas. Trata-se dos índices de feminicídio e de sua naturalização, da violência sexual contra a mulher e da dificuldade de denúncia, enfim, da disseminação de ideias que pouco são discutidas, mas que vão criando raízes no pensamento coletivo!

Como falar sobre direitos da mulher em espaços educativos?

Alguns vão a manifestação do dia 8 em suas cidades, outros farão textos em suas redes sociais, o mais importante é utilizar os espaços que ocupamos para falar sobre coisas simples que acreditamos. É necessário conversar com mulheres e meninas sobre nossos direitos e problemas. Tratar espaços de educação informal, onde sempre há uma oportunidade de debater o que é ser mulher e como nos organizarmos, para ter cada vez mais vitórias nas agendas públicas.

Quando se reivindica a noção de “igualdade de gênero” na educação, a demanda é por um sistema escolar inclusivo, que tenha ações específicas de combate às discriminações e que não contribua para a reprodução das desigualdades que persistem em nossa sociedade. Falar em uma educação que promova a igualdade de gênero, portanto, significa garantir um espaço democrático onde nossas diferenças não se desdobrem em desigualdades.

A Viração produziu o Guia de Gênero e Sexualidade para Educadores/as, que discute conceitos e traz exemplos simples e práticos pra trabalhar a temática em espaços educativos. Baixe o guia aqui.

                                       

Em um país em que 12 mulheres são assassinadas diariamente, o trabalho deve começar cedo. É preciso tratar o feminicídio, o machismo e outras expressões de violência como um problema comum a toda sociedade, educando meninos e meninas em outras formas de se relacionar. Para incentivar as crianças e adolescentes a olharem para suas trajetórias, refletirem sobre o caminho que já foi pavimentado e pensarem como seguir a construção para as gerações futuras.

Como responder às novas demandas do jovem leitor digital?

Por Paula Bonfatti, Analista de Comunicação e Marketing da Viração

As tecnologias da informação e comunicação estão cada vez mais sendo incorporadas às tarefas cotidianas, à educação e ao processo de alfabetização. No entanto, ainda existe uma grande resistência à leitura online e digital, tanto das gerações passadas quanto das instituições de ensino, o que acaba deslegitimando a prática do leitor digital.

A verdade é que não existe uma maneira certa ou errada de leitura, mas sim diferentes formas de acessar diferentes linguagens – digital ou analógica. Observamos então, que o leitor nativo digital – aquele que nasceu e cresceu com as tecnologias digitais – se relaciona de uma forma diferente com a leitura. 

Para entender melhor os hábitos dos leitores digitais e como responder às novas demandas do jovem leitor, conversamos com a Letícia Reina, gestora pedagógica da empresa Guten, especialista em leitura digital.

1- Você acha que os “nativos digitais” (pessoas que nasceram na era digital) têm hábitos de leitura diferentes das gerações anteriores? O leitor que nasceu na era digital tem processos cognitivos diferentes do leitor “analógico”? Existe um melhor ou pior?

Os nativos digitais lidam com a leitura de um modo diferente, sim! A intimidade com a tecnologia e a facilidade de acesso aos diferentes recursos digitais faz com que esse novo leitor seja mais exigente com a dinâmica e o ritmo com que os textos se apresentam. Os novos textos que circulam nos meios digitais como áudios, vídeos, imagens animadas, memes, jogos, etc. têm um apelo multimidiático que desenvolve o multiletramento. Sendo assim, não existe um leitor melhor que o outro, o que existe são jeitos diferentes de acessar os textos com processos de interação com o texto que são mais rápidos e dinâmicos. Não devemos deixar de oferecer, no entanto, enquanto educadores, textos diversos aos nossos alunos nativos digitais. Minha reflexão sobre o tema é que devemos disponibilizar aos nossos alunos “nativos digitais” os mais diversos gêneros de texto, para que eles possam aprender e desenvolver processos cognitivos que os permitam ler um romance de maior fôlego, assim como navegar nos vídeos do Youtube, por exemplo.  

2- Hoje, muitas informações falsas têm um alcance e legitimidade maiores que informações de fontes confiáveis e oficiais. Você acha que a alfabetização digital (ou a falta dela) tem alguma relação com a famosa “era da pós verdade”?

Penso que estar alfabetizado digitalmente é estar preparado para buscar fontes confiáveis. A alfabetização digital deve garantir aos leitores uma postura de criticidade e questionamento do que se lê, atualmente, nas redes sociais. Um leitor proficiente e crítico, alfabetizado digitalmente, confere os fatos para se posicionar frente a um evento. A era da pós-verdade revela sim uma postura atual de pouca criticidade e argumento. As opiniões se formam sem base na história dos fatos e se acalora na emoção. Novamente, como educadora, acredito que os jovens devem ter contato com a diversidade textual que existe na sociedade e com os diferentes meios em que os textos circulam, mas com discernimento. É preciso que se estabeleça nas relações de ensino e aprendizagem estratégias que desenvolvam a competência de distinguir fato de opinião relativa a esse fato. Essa habilidade é fundamental na era da pós-verdade.  

3- Existe uma resistência, principalmente das gerações passadas, em legitimar a leitura digital. Como você acha que diferentes setores, como educação e cultura, respondem à isso?

Acredito que estamos ainda aprendendo a lidar com essa resistência! A resistência existe e fica evidente, por exemplo, em uma escola, entre os pais e os professores. Só há uma maneira de lidar com essa resistência: com o uso frequente dos recursos digitais. É no uso, com propósitos claros e definidos, que as pessoas vão perceber a leitura digital como um processo natural de leitura. A leitura digital é diferente, acessa distintos processos e mexe com a nossa atenção de modo diferente, mas é leitura! Não é menos importante por estar em um veículo digital. A resistência das pessoas passa por uma crença de que a leitura digital acontece em momentos de lazer, por fruição, com objetivo de diversão. E no entanto, é preciso entender que a leitura digital permite a construção de conhecimento e pode, e deve, estar a favor do desenvolvimento da criticidade.

4- Você acredita que a alfabetização digital forma leitores digitais ou isso se dá de maneira informal?

Acredito que um leitor digital se forma autonomamente, no uso e de maneira informal, quando há interesse e fascínio pelos recursos. Mas um leitor alfabetizado digitalmente, crítico, proficiente, que se posiciona diante do que lê, embasado em fatos e fontes confiáveis, esse se desenvolve com formação. Essa formação pode acontecer na escola, entre pares, em casa, na interação com os meios digitais, mas a criticidade se constrói nessa relação. É preciso conhecer as ferramentas digitais, fazer uso, ampliar a capacidade para o potencial que cada recurso digital oferece, para que o leitor possa ler e produzir de modo eficaz.

Tornando espaços educativos mais inclusivos

A deficiência é um tema de direitos humanos e, como tal, obedece o princípio de que todo ser humano tem o direito de desfrutar das condições necessárias para seu desenvolvimento.

Foi a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada em 2007, que reconheceu o valor de cada indivíduo, independente de sua funcionalidade, e apresentou linhas de ação que permitam que pessoas com deficiência vivam de forma independente e participem plenamente de todos os aspectos da vida.

No Brasil, 23,9% da população total têm algum tipo de deficiência – visual, auditiva, motora e mental ou intelectual. Dessas pessoas – que somam 45.606.048! – 7,53% têm de 0 a 14 anos e 24,94% de 15 a 64 anos. As dificuldades de acesso à educação, saúde, trabalho e mobilidade que enfrentam as pessoas com deficiência revelam a importância de políticas públicas inclusivas.

Na educação, as pessoas com deficiência apresentam taxas de alfabetização menores do que a população total em todas as regiões brasileiras. E apesar de toda pessoa ter direito à educação obrigatória e gratuita, 61,1% das pessoas com deficiência não têm instrução e fundamental completo no Brasil, enquanto a taxa para pessoas sem nenhuma deficiência é de 38,2%. É uma baita diferença, não é?

De acordo com o Relatório da Situação da Infância e Adolescência Brasileira do UNICEF, crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos com qualquer tipo de deficiência têm o dobro de chance de estarem fora da escola. Isso é consequência, entre outros fatores, da falta de transporte adaptado, escassez professores treinados, equipamento, material didático e acesso à infraestrutura de ensino adequado.

Entendemos que a educação é essencial para o desenvolvimento sustentável do país, e esse desenvolvimento depende da inclusão de todos e todas!

Com a ajuda do livro “Educação Inclusiva: o que o professor tem a ver com isso?”, selecionamos as dúvidas mais comuns entre educadore/as sobre educação inclusiva. Vamos lá?

1) O que o governo está fazendo para formar os/as educadores/as na temática de educação inclusiva?

Uma das maiores referências em capacitação a nível público nacional é a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) que, em articulação com os sistemas de ensino, implementa políticas educacionais nas áreas de alfabetização e educação de jovens e adultos, educação ambiental, educação em direitos humanos e educação especial.

O objetivo da Secadi é contribuir para o desenvolvimento inclusivo dos sistemas de ensino, voltado à valorização das diferenças e da diversidade, à promoção da educação inclusiva, dos direitos humanos e da sustentabilidade socioambiental, visando à efetivação de políticas públicas transversais e intersetoriais. Formações como, PROINESP (Programa de Informática Especial), Programa Educação Inclusiva, Formação em braile e libras, são algumas das informações oferecidas pelo Secadi. Materiais didáticos podem ser encontrados aqui.

2) Estes cursos são suficientes para formar o educador?

Na maioria das vezes não, porque não contemplam todos os professores e porque a formação deveria ser permanente, contínua, e não pontual como é hoje. Com as novas tecnologias, este recurso deve estar alinhado com as práticas apreendidas nas formações. Além dos espaços formais de formação de educadores/as, a troca de experiências com colegas de profissão é essencial!

3) O que é um/a professor/a especializado/a em educação especial?

É aquele ou aquela que desenvolveram competências para identificar as necessidades educacionais de cada aluno ou aluna! Esses professores promovem estratégias de flexibilização, adaptação curricular e práticas pedagógicas alternativas de forma a incluir o aluno ou aluna com deficiência.

Além disso, o professor especializado têm um papel muito importante na formação de outros educadores para o atendimento adequado dos alunos e alunas com deficiência.

Para se especializar em educação especial, o educador deve cursar faculdade de pedagogia com formação em cursos de licenciatura em educação especial, complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas de educação especial.

4) O que fazer quando o/a aluno/a com deficiência é discriminado em espaços educativos?

O aluno com deficiência precisa que sua diferença seja respeitada. E isso não significa que deve ter privilégios em relação aos outros colegas! O educador não pode negar a diferença, mas trabalhar com toda a turma para que a diferença seja compreendida como uma característica do ser humano e que ela não tira a dignidade de ninguém.

É importante lembrar que muitas vezes os recursos existem, mas o acesso a eles é dificultado por preconceitos, discriminação, negligência e falta de conhecimento sobre as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência. O papel de educadores e educadoras é lutar contra esses fatores que geram desigualdades, promovendo uma educação mais inclusiva e um mundo participativo e plural.

 

Por Jefferson Rozeno*

* Jefferson é estudante de jornalismo e estagiário em comunicação na Viração Educomunicação